No trecho, “Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recus...
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A beleza total Carlos
Drummond de Andrade
A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.
A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.
O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.
Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.
Disponível em: <http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13274.pdf>. Acesso em: 12 set. 2024.
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Tema central: Figuras de Linguagem – Personificação (Prosopopeia)
A questão envolve a compreensão das figuras de linguagem e, em especial, a identificação da personificação. Trata-se de uma habilidade fundamental exigida de professores(as) de Língua Portuguesa, já que a literatura e os gêneros narrativos exploram frequentemente tais recursos para atribuir expressividade ao texto.
Justificativa da alternativa correta (A – Personificação):
No trecho citado, os espelhos “pasmavam” e se recusavam a refletir outras pessoas, ou seja, atribui-se aos espelhos ações e reações tipicamente humanas. Segundo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), a personificação ocorre quando “seres inanimados recebem sentimentos, sensações ou ações próprios dos seres humanos”. Neste caso:
- “Os espelhos pasmavam diante de seu rosto” — ação humana de pasmar atribuída a um objeto.
- “Recusando-se a refletir as pessoas da casa” — decisão consciente, impossível a objetos reais.
A norma-padrão — e todas as gramáticas de referência — consideram tal construção um claro caso de personificação ou prosopopeia. Resposta: A) Personificação.
Análise das alternativas incorretas:
B) Metonímia: relação de proximidade ou substituição, como “beber um copo” (em vez de ‘beber o conteúdo’). Não há troca de sentido aqui.
C) Eufemismo: suaviza uma expressão desagradável. O termo “pasmavam” não suaviza sentido algum.
D) Metáfora: é a transferência de significados entre termos diferentes por semelhança (ex: “Ela é uma flor”). Aqui, em vez de criar comparações, atribui-se ação humana a objetos.
Estratégia para prova:
Ao se deparar com ações humanas atribuídas a animais, objetos ou ideias, questione-se: esta ação é exclusiva de seres humanos? Se sim, provavelmente trata-se de personificação. Muita atenção a confusões com metáfora ou metonímia!
Referência: Bechara, E. “Moderna Gramática Portuguesa” / Cunha & Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”.
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Personificação e prosopopeia: atribuir características humanas a seres inanimados.
Gabarito A
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