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Q1372121 Português

A língua como ela é

    Nos últimos dias tive uma experiência muito gratificante cumprindo o meu papel de professora de língua portuguesa – sim, gosto de enfatizar que dou aula de língua e não de gramática da língua. Pois é, nos últimos dias ensinei a nossa língua portuguesa a estrangeiros ávidos por aprender o idioma oficial do país que sediou o maior evento esportivo do planeta. São pessoas de todas as partes com um objetivo em comum: interagir, comunicar-se em português.

    Como práxis, nas aulas iniciais, ensinamos o verbo “ser” e “estar”; para nós brasileiros, o famoso e enfadonho verbo to be das aulinhas de inglês. Então, a lição inicial é fazer com que os iniciantes entendam a diferença entre ambos os verbos, já que na língua do Tio Sam tal diferença só é percebida no contexto comunicativo. As explicações acontecem com exemplos reais, a fim de mostrar-lhes a língua como ela é.

    Nas aulas para estrangeiros o “tu” e o “vós” são abolidos, completamente descartados, e isso é o sonho linguístico de toda e qualquer criança brasileira. Imaginem o tormento: conjugação do verbo “ir”, no presente do indicativo “tu vais”, “vós ides” e a criança inconformada e chorosa pergunta: “Mãe, alguém fala isso? Eu não falo”. Pois é, sábia conclusão! A criança, com seu conhecimento linguístico inato, não reconhece o idioma descrito na Gramática e intui que aquelas conjugações trarão uma imensa dor de cabeça e possíveis notas vermelhas.

    A língua como ela é não se apresenta, com pretérito-mais-que-perfeito, como insiste a Gramática Normativa e seus exemplos surreais: “O vento fechou a porta que o vento abrira.” Abrira?

    Com o futuro também temos problemas. Não, não sou vidente, não me refiro ao amanhã, refiro-me ao tempo gramatical. Ele, como a GN sugere, não participa dos nossos planos, visto que um casal, ao sonhar com o ninho de amor, não enrola a língua para conjugar o verbo “querer” e, em vez de dizer “Nós quereremos um apartamento de frente para o mar”, usam a corriqueira forma composta “Vamos querer...”. A partir disso, façamos uma reflexão: por que não mostrar aos nossos pupilos os tempos verbais no contexto da nossa realidade linguística? O tempo futuro pode ser dito com a forma composta (verbo auxiliar no presente + verbo principal no infinito) acompanhada pelo advérbio de tempo que situa a ideia. Sendo assim, dizemos: “Vou viajar amanhã”. E falar assim é menos futuro? É tanto quanto em “Viajarei amanhã”, com o detalhe de que está caindo em desuso na fala do dia a dia.

    Ah! Como é gostoso ensinar a língua viva! Aquela que não está engessada nos compêndios gramaticais! Porém, os gramáticos que elaboram tais manuais afirmariam categoricamente: ensinar português para estrangeiros é diferente de ensinar português a uma criança nativa, afinal, ela já sabe português. Concordo! Claro que não precisamos ensinar as diferenças entre ser e estar, levar e trazer, conhecer e saber, confusões típicas de um aprendiz não nativo.

    Sugerir e advogar a favor do ensino real da língua significa retirar o que não é utilizado ou é raramente visto na escrita, é ignorar regras inúteis que não influenciam na compreensão da língua. Um exemplo clássico é o pronome oblíquo no começo da oração. Os puristas da língua consideram um erro crasso, mas que mal pode haver em dizer “Me empresta o seu livro do Veríssimo”? E por que não escrever assim também? É uma tendência nossa o uso da próclise, enquanto os portugueses preferem a ênclise. O nosso olhar para com os fenômenos linguísticos se compara ao estudo de um biólogo ou de um botânico, que não diz que aquela flor é mais ou menos bela por causa do formato das pétalas ou da coloração. Falar “empresta-me” não é mais ou menos bonito, é diferente, e em ambos os casos a comunicação acontece.

    Portanto, a minha singela conclusão é que precisamos de gramáticas que não tenham espaço para mesóclise, pronome possessivo “vosso”, lista de substantivos coletivos, tipos de sujeito e predicado, enfim, uma série de bobagens e gramatiquices que não ensinamos para os estrangeiros, porque não são relevantes para comunicação, também porque não fazem parte da língua como ela é.

(Disponível em http://conhecimentopratico.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/53/artigo344826-1.asp Acesso em: 08 set 2016.)

Um texto predominantemente argumentativo pode, eventualmente, apresentar passagens narrativas com a finalidade de ilustrar a tese defendida ou mesmo narrar um acontecimento para problematizar o tema que se pretende discutir. Das passagens a seguir, qual apresenta sequência tipológica eminentemente narrativa?
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de texto com foco em tipologia textual, especialmente na identificação do texto narrativo dentro de um texto predominantemente argumentativo.

Justificativa da alternativa correta – Letra B:

A alternativa B apresenta um episódio vivenciado pela autora, marcado por ações em sequência (“tive uma experiência”, “ensinei a nossa língua a estrangeiros”), uso de verbos no pretérito e referências temporais (“nos últimos dias”). Segundo Bechara (2009), esse é o tipo de construção textual em que predomina a narrativa, pois há personagem, tempo e enredo. Portanto, a alternativa B cumpre o requisito de “sequência tipológica eminentemente narrativa”.

Por que as demais estão erradas?

A) Expõe um método de ensino, explicando o processo e não contando fatos. É um trecho expositivo/argumentativo, sem sequência de eventos.

C) Apresenta exemplos hipotéticos e argumentos, mas a ação não concretiza acontecimentos; é explicativo-argumentativo.

D) Explica uma regra gramatical e faz um comentário sobre uso da língua, não relatando fatos vividos. Novamente, trata-se de exposição e argumentação.

Dica de estratégia:

Procure por verbos de ação no passado, referências temporais e personagens sempre que a questão pedir uma passagem narrativa. Fique atento às pegadinhas: muitos trechos em textos argumentativos apresentam exemplos, mas só é narrativa quando há relato de acontecimentos reais ou ficcionais.

Referências normativas: De acordo com Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), texto narrativo apresenta enredo, tempo e personagem – exatamente como a alternativa B.

Resumo: Para questões como esta, distingua claramente: Argumentação = defesa de ideia; Narração = relato de acontecimentos. A alternativa B é a única com predominância do tipo narrativo.

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Comentários

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Gab: B

>> Narração: é um tipo de texto que conta uma sequência de fatos, sejam eles reais ou imaginários, nos quais as personagens atuam em um determinado espaço e no decorrer do tempo.

"Nos últimos dias"... isso já deixa claro que a autora irá contar uma experiência vivida por ela. Obeserva-se deste modo marca de cronologia, identidade temporal, elemento essencial da narração.

Gabarito letra B!

GABARITO - B

Texto narrativo é um tipo de texto que esboça as ações de personagens num determinado tempo e espaço.]

(....) “Nos últimos dias tive uma experiência muito gratificante  (...)

Bons estudos!

É possível notar a diferença entre a alternativa B e as demais pelo fato destas trazerem ideias de convencimento, tentando fazer alguém de outra forma.

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