Parei um instante na rua, perplexa. (5° parágrafo) Peguei ...
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
− Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
− Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
− Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual eu já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
− E agora que é que eu faço? − perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
− Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
− Acabou-se o docinho. E agora?
− Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
− Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
− Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
06 de junho de 1970
(LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo – crônicas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p.289-91)
Parei um instante na rua, perplexa. (5° parágrafo)
Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. (7°parágrafo)
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver. (9° parágrafo)
As palavras grifadas nessas frases assumem no texto, respectivamente, o sentido de:
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Gabarito comentado
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Comentário da Questão – Interpretação de Texto: Sinônimos Contextuais
Tema central: A questão explora o sentido contextual de palavras, analisando quais sinônimos melhor as representam dentro do texto de Clarice Lispector. Essa habilidade é essencial nos concursos, exigindo do candidato leitura atenta e domínio semântico.
Estratégia de resolução: Recomenda-se sempre ler o trecho no contexto, identificando o significado que a palavra assume em função da situação apresentada, e não apenas aplicar sinônimos do senso comum.
Análise dos termos destacados:
- Perplexa: Denota espanto, surpresa profunda frente à novidade do chiclete “eterno”. Os sinônimos mais adequados são atônita, surpresa, estupefata. Segundo Bechara (2003), “atônita” compartilha o mesmo campo semântico de “perplexa”.
- Representava: No contexto, indica que a pastilha “simbolizava” ou “figurava” o elixir do prazer. “Figurava” é aceito como sinônimo contextual.
- Ritual: Refere-se à ideia de cerimônia ou prática sistemática associada ao ato de consumir o chiclete. De acordo com Cunha & Cintra, “cerimônia” é termo correspondente.
Justificativa da alternativa correta (A):
A) atônita – figurava – cerimônia
Todos os termos correlacionam-se adequadamente ao contexto e ao sentido original do texto.
Por que as demais alternativas estão incorretas?
- B) inerme – transcendia – liturgia: “Inerme” significa indefeso; “transcendia” não equivale a representar; apenas “liturgia” se aproxima de ritual, mas isso não basta.
- C) atônita – simbolizava – périplo: “Périplo” é viagem, não se relaciona a ritual.
- D) desorientada – figurava – imolação: “Desorientada” remete a confusão, não à perplexidade; “imolação” implica sacrifício, fugindo do sentido de ritual.
- E) assustada – transcendia – périplo: Novamente “transcendia” e “périplo” não atingem o significado correto no contexto.
Orientação para provas:
Atenção a palavras polissêmicas! O significado mais preciso depende do contexto. Desconfie de alternativas que trazem termos pouco usuais ou com sentido muito diferente do original, mesmo que pareçam “eruditos”.
Referências: Bechara (2003); Cunha & Cintra (2008).
Gabarito: Alternativa A
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Comentários
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Ritual - é uma cerimônia.
Já vi questões de outras bancas desse tipo e ainda com as mesmas palavras.
Perplexa - Indeciso, hesitante; espantado, atônito.
Representar - Retratar, significar, patentear, ser o procurador, figurar.
Ritual - Pertencente ou relativo aos ritos. Que contém os ritos. Livro que contém os ritos, ou a forma das cerimônias de uma religião. Cerimonial. Conjunto das regras a observar; etiqueta, praxe, protocolo.
(Dicionário Online e Michaelis)
Alternativa A
Périplo:
1. Viagem de .circum-navegação; viagem à volta de um continente, de uma região, de um país.
2. Relação ou relato dessa viagem.
"périplo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/p%C3%A9riplo [consultado em 31-05-2016].
Quem lá vai saber o que é périplo? É uma palavra inespressada.
nem precisava saber o que 'périplo' significa pra acertar a questão. A palavra 'cerimônia' já deu a resposta de cara.
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