Diversas interpretações historiográficas analisam o papel da...

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Q3832693 História
Diversas interpretações historiográficas analisam o papel das guildas na economia urbana europeia entre os séculos XII e XIV. Para alguns autores, elas expressam mecanismos de regulação corporativa ajustados à lógica urbana emergente e, para outros, representam obstáculos ao dinamismo mercantil. Referente ao assunto, analise as assertivas abaixo:

I. A perspectiva de Georges Duby entende que as guildas, embora associadas à formação de uma burguesia urbana, reforçaram estruturas hierárquicas de ofício, regulando acesso à produção, limitando inovação técnica e contribuindo para a construção de uma economia corporativa e estável.
II. A leitura de Jacques Le Goff afirma que as guildas surgiram como expressão do individualismo mercantil urbano, estimulando práticas de concorrência aberta entre artesãos e permitindo a rápida mobilidade econômica no interior das cidades medievais.
III. A abordagem socioeconômica predominante defende que as guildas não exerceram controle educativo sobre aprendizes, que a regulação técnica era secundária e que sua principal função consistia em garantir liberdade contratual e rotatividade ampla no interior das corporações.

Quais estão corretas? 
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O ponto decisivo era comparar as assertivas com a função típica das guildas: regulação do ofício, controle do acesso e formação técnica. Só a I preserva essa lógica; II e III a contradizem ao falar em concorrência aberta, individualismo e ausência de controle formativo.

Tema central: guildas medievais
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque somente a assertiva I se ajusta ao critério histórico usado para identificar o funcionamento das guildas medievais: regulação corporativa, hierarquia de ofício, controle de acesso à produção e busca de estabilidade econômica. Esse tipo de descrição é compatível com a leitura historiográfica que vê as corporações de ofício como estruturas urbanas reguladoras, e não como espaços de livre concorrência.
B
Errada
Está errada porque inclui a assertiva II. O erro específico da II é atribuir às guildas individualismo mercantil, concorrência aberta entre artesãos e rápida mobilidade econômica, quando a caracterização consagrada dessas corporações é justamente a de restrição de acesso ao ofício, defesa de privilégios e ordenação hierárquica da atividade.
C
Errada
Está errada porque inclui a assertiva III. O erro específico da III é negar o controle educativo sobre aprendizes e reduzir a importância da regulação técnica, embora esses elementos sejam centrais na atuação típica das guildas medievais.
D
Errada
Está errada porque considera corretas II e III, mas ambas contrariam a lógica corporativa das guildas. A II erra ao falar em concorrência aberta e ampla mobilidade; a III erra ao negar controle formativo e técnico dentro das corporações.
E
Errada
Está errada porque supõe verdadeiras as três assertivas. Como II e III descrevem funções opostas às das corporações de ofício medievais, não é possível aceitar o conjunto completo.
Pegadinha da questão
A confusão explorada foi associar urbanização e burguesia medieval a mercado livre, concorrência aberta e mobilidade ampla, quando a lógica das guildas era também de fechamento corporativo, controle do aprendizado e regulação técnica.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão tratar de guildas medievais, procure como traços centrais regulação do ofício, hierarquia interna e controle do acesso à atividade.
  • Desconfie de alternativas que apresentem corporações de ofício como promotoras de concorrência aberta, livre mobilidade ou individualismo econômico pleno.
  • Use como teste decisivo a presença ou ausência de controle sobre aprendizes e padrões técnicos: negar esses pontos normalmente contraria a caracterização clássica das guildas.

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 A perspectiva de Georges Duby entende que as guildas, embora associadas à formação de uma burguesia urbana, reforçaram estruturas hierárquicas de ofício, regulando acesso à produção, limitando inovação técnica e contribuindo para a construção de uma economia corporativa e estável.

Le Goff não associa as guildas ao “individualismo mercantil” nem à concorrência aberta. Ao contrário, ele também enfatiza o caráter corporativo, coletivo e regulador das instituições urbanas medievais. A economia urbana medieval não funcionava sob lógica liberal de mercado aberto.

Falar em “rápida mobilidade econômica” e “concorrência aberta” projeta categorias modernas sobre o mundo medieval.

A alternativa correta é a A (Apenas I).

Para entender o porquê, precisamos analisar como a historiografia medievalista (especialmente a Escola dos Annales, da qual Duby e Le Goff fazem parte) enxerga as corporações de ofício.

  • I. Correta: Georges Duby destaca que as guildas e corporações eram estruturas de solidariedade e controle. Elas não buscavam o lucro ilimitado ou a inovação constante (conceitos modernos), mas sim a estabilidade. Ao regular quem podia produzir, os preços e a qualidade, elas evitavam a concorrência interna e garantiam a sobrevivência do grupo, mantendo uma hierarquia rígida entre mestres, oficiais e aprendizes.
  • II. Incorreta: Jacques Le Goff e a maioria dos historiadores defendem o oposto. As guildas eram a negação do individualismo e da concorrência aberta. Elas eram organizações coletivistas que combatiam a "livre iniciativa" para proteger o mercado local. A mobilidade econômica era lenta e controlada: um aprendiz levava anos para se tornar oficial e, muitas vezes, o acesso ao grau de "mestre" era restrito aos filhos dos antigos mestres.
  • III. Incorreta: A função educativa (o sistema de aprendizado) era, na verdade, um dos pilares das guildas. Além disso, a regulação técnica era rigorosa para garantir a fama e a qualidade dos produtos da cidade. A ideia de "liberdade contratual e rotatividade ampla" é típica do capitalismo liberal posterior e não se aplica à lógica corporativa medieval, que era baseada em privilégios e exclusividades.

As corporações de ofício funcionavam como uma extensão da mentalidade medieval de ordem e hierarquia aplicada ao ambiente urbano. Elas serviam para:

  1. Padronizar a produção (evitar produtos de má qualidade).
  2. Eliminar a concorrência (ninguém de fora podia vender sem autorização).
  3. Providenciar auxílio mútuo (ajuda a viúvas e membros doentes da guilda).

Essa estrutura começou a entrar em crise justamente quando o "dinamismo mercantil" (o pré-capitalismo) passou a exigir uma produção mais rápida e barata, algo que as rígidas regras das guildas não permitiam.

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