Diversas interpretações historiográficas analisam o papel da...
I. A perspectiva de Georges Duby entende que as guildas, embora associadas à formação de uma burguesia urbana, reforçaram estruturas hierárquicas de ofício, regulando acesso à produção, limitando inovação técnica e contribuindo para a construção de uma economia corporativa e estável.
II. A leitura de Jacques Le Goff afirma que as guildas surgiram como expressão do individualismo mercantil urbano, estimulando práticas de concorrência aberta entre artesãos e permitindo a rápida mobilidade econômica no interior das cidades medievais.
III. A abordagem socioeconômica predominante defende que as guildas não exerceram controle educativo sobre aprendizes, que a regulação técnica era secundária e que sua principal função consistia em garantir liberdade contratual e rotatividade ampla no interior das corporações.
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A perspectiva de Georges Duby entende que as guildas, embora associadas à formação de uma burguesia urbana, reforçaram estruturas hierárquicas de ofício, regulando acesso à produção, limitando inovação técnica e contribuindo para a construção de uma economia corporativa e estável.
Le Goff não associa as guildas ao “individualismo mercantil” nem à concorrência aberta. Ao contrário, ele também enfatiza o caráter corporativo, coletivo e regulador das instituições urbanas medievais. A economia urbana medieval não funcionava sob lógica liberal de mercado aberto.
Falar em “rápida mobilidade econômica” e “concorrência aberta” projeta categorias modernas sobre o mundo medieval.
A alternativa correta é a A (Apenas I).
Para entender o porquê, precisamos analisar como a historiografia medievalista (especialmente a Escola dos Annales, da qual Duby e Le Goff fazem parte) enxerga as corporações de ofício.
- I. Correta: Georges Duby destaca que as guildas e corporações eram estruturas de solidariedade e controle. Elas não buscavam o lucro ilimitado ou a inovação constante (conceitos modernos), mas sim a estabilidade. Ao regular quem podia produzir, os preços e a qualidade, elas evitavam a concorrência interna e garantiam a sobrevivência do grupo, mantendo uma hierarquia rígida entre mestres, oficiais e aprendizes.
- II. Incorreta: Jacques Le Goff e a maioria dos historiadores defendem o oposto. As guildas eram a negação do individualismo e da concorrência aberta. Elas eram organizações coletivistas que combatiam a "livre iniciativa" para proteger o mercado local. A mobilidade econômica era lenta e controlada: um aprendiz levava anos para se tornar oficial e, muitas vezes, o acesso ao grau de "mestre" era restrito aos filhos dos antigos mestres.
- III. Incorreta: A função educativa (o sistema de aprendizado) era, na verdade, um dos pilares das guildas. Além disso, a regulação técnica era rigorosa para garantir a fama e a qualidade dos produtos da cidade. A ideia de "liberdade contratual e rotatividade ampla" é típica do capitalismo liberal posterior e não se aplica à lógica corporativa medieval, que era baseada em privilégios e exclusividades.
As corporações de ofício funcionavam como uma extensão da mentalidade medieval de ordem e hierarquia aplicada ao ambiente urbano. Elas serviam para:
- Padronizar a produção (evitar produtos de má qualidade).
- Eliminar a concorrência (ninguém de fora podia vender sem autorização).
- Providenciar auxílio mútuo (ajuda a viúvas e membros doentes da guilda).
Essa estrutura começou a entrar em crise justamente quando o "dinamismo mercantil" (o pré-capitalismo) passou a exigir uma produção mais rápida e barata, algo que as rígidas regras das guildas não permitiam.
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