Criança, 5 anos, chega ao pronto-socorro com queixa principa...

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Q3080283 Medicina
Criança, 5 anos, chega ao pronto-socorro com queixa principal de febre persistente há duas semanas. A mãe relata que a febre é alta, com picos de 39°C a 40°C, e não responde adequadamente a antitérmicos. Além da febre, a criança apresenta fadiga intensa, letargia e falta de apetite, resultando em uma perda de peso significativa nas últimas semanas. A mãe também observa que a criança se queixa de dores musculares e articulares, tem episódios de sudorese noturna e mudança na cor das extremidades, que, frequentemente, ficam pálidas e frias. No exame físico, apresenta-se pálida, letárgica e irritada. Os sinais vitais revelam temperatura de 39,2°C, frequência cardíaca de 120 bpm (indicando taquicardia), pressão arterial de 90 x 60 mmHg e saturação de oxigênio de 98% em ar ambiente. Ao exame de cabeça e pescoço, são observadas petéquias no palato. O exame cardiovascular revela a presença de um sopro cardíaco novo ou alterado, taquicardia e extremidades frias e pálidas. Também são identificados sinais de insuficiência cardíaca, como hepatomegalia e edema periférico. A pele mostra petéquias nos membros superiores e inferiores, nódulos de Osler (pequenos nódulos dolorosos nas pontas dos dedos) e lesões de Janeway (lesões não dolorosas nas palmas das mãos e solas dos pés). No exame abdominal, detecta-se esplenomegalia. O médico pediatra assistente após exames aventou hipótese de endocardite infecciosa. Sobre a Endocardite Infecciosa (EI), assinale a afirmativa INCORRETA.
Alternativas

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Tema central: Endocardite infecciosa (EI) em pediatria — quadro clínico, microbiologia e epidemiologia. A criança do caso tem febre prolongada, novo sopro, petéquias, nódulos de Osler, lesões de Janeway, espleno/hepatomegalia e sinais de IC, quadro clássico de EI subaguda.

Alternativa INCORRETA: C — A EI é mais frequente em crianças com cardiopatia congênita, próteses ou dispositivos. O enunciado erra ao afirmar “cerca de 40% sem cardiopatia estrutural”. Em séries pediátricas, a proporção sem cardiopatia varia tipicamente de 20–30% (aumentando em contextos de CVC e infecções por Staphylococcus aureus), mas não chega a 40% de forma consistente. Referências: AHA “Infective Endocarditis in Childhood” (2015) e UpToDate (atualizações recentes) descrevem predominância de casos com cardiopatia e crescimento relativo dos casos sem doença estrutural, porém ainda minoritários.

Por que as demais estão corretas?

A. A EI é majoritariamente bacteriana; fungos (ex.: Candida) são incomuns e ocorrem em neonatos, imunossuprimidos ou com CVC. (AHA/UpToDate)

B. A forma aguda é frequentemente causada por Staphylococcus aureus, com evolução rápida, alta virulência e forte associação a cateteres/prosteses e assistência à saúde. (AHA, ESC 2023)

D. Cocos Gram-positivos são os principais agentes: estreptococos do grupo viridans, estafilococos (sobretudo S. aureus) e enterococos; HACEK é menos comum em pediatria. (Harrison’s, UpToDate)

Diagnóstico – como raciocinar

- Suspeitar em febre >7–10 dias + novo sopro e/ou fenômenos vasculares/imunes (petéquias, Janeway, Osler) e IC súbita ou subaguda.

- Hemoculturas: coletar 3 amostras antes de antibiótico. Principais agentes devem crescer em culturas seriadas.

- Ecocardiograma: TTE primeiro; TEE se prótese, janela ruim ou alta suspeita com TTE negativo. Achados maiores: vegetação, abscesso, deiscência de prótese, nova regurgitação.

- Critérios de Duke (modificados/ISCVID 2023): combinar critérios maiores (hemocultura típica, imagem) e menores (febre, fenômenos vasculares/imunes, predisposição, achados laboratoriais).

Tratamento (linha geral)

- Empírico após culturas: cobrir S. aureus (inclusive MRSA), estreptococos e enterococos. Opções pediátricas: vancomicina + ceftriaxona (comunitária) ou vancomicina + cefepime (associada à assistência/CVC). Ajustar pelo antibiograma. Duração típica: 4–6 semanas IV. (AHA 2015; UpToDate)

- Cirurgia se IC por disfunção valvar, abscesso, bacteremia persistente, vegetações grandes com embolização.

Pegadinha de prova: confundir a proporção de casos sem cardiopatia (não inflar para 40%); diferenciar Osler (dolorosos) de Janeway (indolores); novo sopro + febre prolongada = pensar em EI.

Referências: AHA Scientific Statement – Infective Endocarditis in Childhood (2015); UpToDate – Infective endocarditis in children; ESC Guidelines 2023; Harrison’s Principles of Internal Medicine.

Gabarito: C

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