No trecho “Quem nomeia, define; quem define, orienta o olh...

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Q3993759 Português

A PALAVRA COMO LIMITE DO MUNDO



Dizer é delimitar. Sempre que nomeamos algo, traçamos contornos, selecionamos sentidos e, inevitavelmente, excluímos possibilidades. A linguagem, longe de ser um espelho fiel da realidade, funciona como um filtro: organiza o caos do mundo em categorias compreensíveis, ainda que imperfeitas. 


Nesse processo, não apenas comunicamos, mas também construímos aquilo que julgamos compreender. Uma mesma situação pode ser descrita de múltiplas formas, e cada escolha lexical carrega uma perspectiva implícita. Não é por acaso que debates acalorados muitas vezes não decorrem de fatos distintos, mas de palavras diferentes para nomear o mesmo fenômeno.


Há, portanto, uma dimensão de poder na linguagem. Quem nomeia, define; quem define, orienta o olhar. Expressões aparentemente neutras podem carregar juízos de valor, e termos técnicos podem conferir uma aura de legitimidade a ideias que, em essência, não são menos controversas.


Isso não significa que a linguagem deva ser abandonada ou desacreditada, mas compreendida em sua complexidade. Ao tomar consciência de seus mecanismos, o falante torna se menos refém das palavras e mais capaz de utilizá-las com precisão e responsabilidade. 


Entretanto, em um cenário marcado pela pressa e pela simplificação, tende-se a ignorar essa dimensão crítica. Palavras são repetidas sem reflexão, conceitos são utilizados de maneira imprecisa e, pouco a pouco, o discurso perde densidade. Não se trata apenas de falar menos, mas de dizer pior.


Tal empobrecimento não é apenas estilístico. Ele compromete a própria capacidade de pensar, uma vez que o raciocínio se estrutura linguisticamente. Quando o vocabulário se estreita, o pensamento também se contrai, e o mundo, antes múltiplo, parece reduzir-se a versões simplificadas de si mesmo.


Talvez, por isso, o desafio contemporâneo não seja apenas falar, mas reaprender a dizer.

 

No trecho “Quem nomeia, define; quem define, orienta o olhar”, a relação estabelecida entre as orações é de: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A expressão “Quem nomeia, define; quem define, orienta o olhar” apresenta duas orações justapostas, separadas por ponto e vírgula, sem conectivo expresso. Essa forma caracteriza coordenação assindética e afasta as leituras de subordinação ou de coordenação sindética, sustentando o gabarito B.

Tema central: coordenação assindética
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque não há oração subordinada introduzida por conectivo causal nem dependência sintática típica de subordinação causal. O trecho traz coordenação por justaposição. A progressão lógica entre as ações pode sugerir causa no plano interpretativo, mas isso não altera a forma sintática do período.
B
Certa
A alternativa B está correta porque a classificação decisiva vem da forma sintática do período: as orações aparecem lado a lado, sem conjunção coordenativa ou subordinativa, o que exclui subordinação e coordenação sindética. Além disso, o paralelismo da construção e o contexto de “Há, portanto, uma dimensão de poder na linguagem.” mostram uma sequência de efeitos: quem nomeia define; quem define orienta o olhar.
C
Errada
Está errada porque o período não foi construído com valor condicional explícito. Não há conectivo nem marca formal de subordinação condicional. A presença de “quem” pode induzir uma leitura generalizante próxima de “se alguém”, mas essa reformulação não corresponde à estrutura usada no texto, que é assertiva e paralela.
D
Errada
Está errada porque não existe conjunção adversativa e o sentido não é de oposição. O ponto e vírgula, aqui, apenas separa membros coordenados paralelos. Em vez de contraste, há continuidade e progressão entre “define” e “orienta o olhar”.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre consequência semântica e causa ou condição gramatical: o trecho tem encadeamento lógico de efeitos, mas sua forma sintática continua sendo de coordenação assindética, não de subordinação.
Dica para questões semelhantes
  • Classifique primeiro pela forma: se as orações estão justapostas e sem conectivo, o ponto de partida é coordenação assindética.
  • Não transforme progressão de sentido em subordinação gramatical sem marca formal no período.
  • Verifique se o conectivo exigido pela alternativa realmente aparece; sem conjunção, não há coordenação sindética nem subordinação introduzida por conectivo.
  • Observe o paralelismo estrutural: construções repetidas em sequência costumam reforçar coordenação entre membros equivalentes.

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