No trecho “Dizer é delimitar”, predomina o uso de linguagem: 

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Q3993755 Português

A PALAVRA COMO LIMITE DO MUNDO



Dizer é delimitar. Sempre que nomeamos algo, traçamos contornos, selecionamos sentidos e, inevitavelmente, excluímos possibilidades. A linguagem, longe de ser um espelho fiel da realidade, funciona como um filtro: organiza o caos do mundo em categorias compreensíveis, ainda que imperfeitas. 


Nesse processo, não apenas comunicamos, mas também construímos aquilo que julgamos compreender. Uma mesma situação pode ser descrita de múltiplas formas, e cada escolha lexical carrega uma perspectiva implícita. Não é por acaso que debates acalorados muitas vezes não decorrem de fatos distintos, mas de palavras diferentes para nomear o mesmo fenômeno.


Há, portanto, uma dimensão de poder na linguagem. Quem nomeia, define; quem define, orienta o olhar. Expressões aparentemente neutras podem carregar juízos de valor, e termos técnicos podem conferir uma aura de legitimidade a ideias que, em essência, não são menos controversas.


Isso não significa que a linguagem deva ser abandonada ou desacreditada, mas compreendida em sua complexidade. Ao tomar consciência de seus mecanismos, o falante torna se menos refém das palavras e mais capaz de utilizá-las com precisão e responsabilidade. 


Entretanto, em um cenário marcado pela pressa e pela simplificação, tende-se a ignorar essa dimensão crítica. Palavras são repetidas sem reflexão, conceitos são utilizados de maneira imprecisa e, pouco a pouco, o discurso perde densidade. Não se trata apenas de falar menos, mas de dizer pior.


Tal empobrecimento não é apenas estilístico. Ele compromete a própria capacidade de pensar, uma vez que o raciocínio se estrutura linguisticamente. Quando o vocabulário se estreita, o pensamento também se contrai, e o mundo, antes múltiplo, parece reduzir-se a versões simplificadas de si mesmo.


Talvez, por isso, o desafio contemporâneo não seja apenas falar, mas reaprender a dizer.

 

No trecho “Dizer é delimitar”, predomina o uso de linguagem: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: "Dizer é delimitar." aciona um critério semântico: "delimitar" não aparece em sentido literal de demarcar fisicamente, mas em sentido figurado, para indicar que nomear algo implica recortar, definir e excluir possibilidades de sentido; por isso, o trecho predomina em linguagem conotativa, com valor metafórico.

Tema central: linguagem conotativa
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque a classificação como denotativa exigiria sentido literal, direto e objetivo. No trecho, porém, "delimitar" não descreve um ato concreto de demarcação, mas o efeito semântico-discursivo de nomear e restringir sentidos. A frase é breve e assertiva, mas isso não a torna literal.
B
Errada
Está errada porque não há terminologia especializada nem definição conceitual técnica no trecho. A formulação é abstrata e reflexiva, mas se constrói por metáfora, não por tecnicidade. O tom ensaístico não se confunde com linguagem técnica.
C
Errada
Está errada porque o trecho não apresenta marcas de oralidade, coloquialismo ou conversa espontânea. O texto mantém registro formal e reflexivo. Além disso, a presença de uma perspectiva autoral não basta para classificar a linguagem como informal.
D
Certa
A alternativa D está correta porque o verbo "delimitar" sofre transferência de sentido no contexto. O texto não afirma que dizer é traçar limites materiais, mas que a linguagem organiza a realidade por recortes de sentido. Isso é confirmado pelo desenvolvimento imediato da ideia em "Sempre que nomeamos algo, traçamos contornos, selecionamos sentidos e, inevitavelmente, excluímos possibilidades." Portanto, o enunciado condensa a tese do texto por metáfora, o que caracteriza valor conotativo.
Pegadinha da questão
A banca explora a aparência de definição objetiva da frase curta "Dizer é delimitar.", que pode induzir à leitura denotativa ou até técnica; porém, o sentido decisivo é figurado, como o próprio parágrafo explica ao falar em "traçamos contornos, selecionamos sentidos e, inevitavelmente, excluímos possibilidades".
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se o verbo está sendo usado em sentido material ou transferido pelo contexto.
  • Não confunda frase curta e assertiva com linguagem literal; concisão não elimina metáfora.
  • Separe tom formal de linguagem técnica: sem terminologia especializada, não há base para classificar como técnica.
  • Use os períodos seguintes como apoio para testar o sentido da expressão destacada no trecho.

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