Como Hilária Batista de Almeida se tornou uma figura
essencial para o surgimento do samba?
O samba é uma das maiores expressões culturais do
Brasil, e sua popularização deve muito a uma mulher que,
mesmo sem ser musicista, exerceu papel fundamental em sua
origem. Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata
ou Aciata, nasceu em 13 de janeiro de 1854, em Santo Amaro,
no Recôncavo Baiano. Desde jovem, a religiosidade esteve
presente em sua vida, e aos 16 anos, ela foi uma das fundadoras
da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira (Bahia). Filha de
Oxum e iniciada no Candomblé, mudou-se para o Rio de
Janeiro aos 22 anos, com o marido, e teve 14 filhos. Lá, deu
continuidade aos preceitos religiosos na casa de João Alabá,
tornando-se Mãe-Pequena, importante cargo na Umbanda.
Tia Ciata sempre foi uma mulher cuja vida se
entrelaçava com o trabalho e a religião, desempenhando um
papel fundamental na construção da tradição das baianas
quituteiras no Rio de Janeiro. Com suas roupas majestosas,
adornadas com colares e pulseiras, ela simbolizava a força e a
presença de uma cultura afro-brasileira rica e vibrante. Suas
atividades profissionais eram sempre acompanhadas de uma
profunda conexão com suas crenças, o que a tornava uma figura
respeitada tanto na comunidade religiosa quanto na sociedade
carioca.
[...]
Essas festas se tornaram uma verdadeira tradição,
sempre seguidas de uma cerimônia religiosa, muitas vezes
precedida por uma missa cristã. Após os rituais, músicos e
capoeiristas amigos da casa armavam um pagode, com violões,
pandeiros, ganzás e muito samba, criando uma atmosfera única
de celebração. Sua casa se tornava um centro cultural, onde
eram promovidos saraus com chorões (músicos de choro) e
bailes dançantes no salão da frente, enquanto, no fundo do
quintal, o samba fluía sem parar. E, para encerrar as
festividades, sempre havia a cerimônia de candomblé, que unia
todas essas manifestações culturais e religiosas em uma
celebração completa.
Foi nesses encontros, que duraram por 20 anos e se
concentraram nas proximidades da Praça Onze, no Rio de
Janeiro, perto da Sociedade Recreativa Paladinos da Cidade
Nova e, mais tarde, da Sociedade Carnavalesca Kananga do
Japão (fundada em 1910 como rancho), que se formou um dos
maiores núcleos de músicos negros brasileiros. Nomes como
Donga, João da Baiana, Chico da Baiana, Pixinguinha, Heitor
dos Prazeres, Sinhô, Caninha, Didi de Gracinda, Marinho que
Toca, Mauro de Almeida, João da Mata, Mirandella, Mestre
Germano, China, Catulo da Paixão Cearense, entre outros,
frequentavam essas festas, inicialmente ainda crianças e depois
já consagrados artistas, trocando experiências e criando laços
que ajudaram a moldar a música popular brasileira.
Contudo, no início do século XX, apenas alguns anos
após a abolição da escravidão, a comunidade negra ainda
enfrentava um forte preconceito cultural, e a discriminação era
uma realidade constante. As rodas de samba, por exemplo, eram
frequentemente alvo de repressão. A polícia, alegando
“vadiagem”, encerrava as festas com o pretexto de que essas
reuniões eram proibidas pelas autoridades. No entanto, esse
cenário de hostilidade começou a mudar após um episódio
específico que transformou a dinâmica dessas celebrações e
possibilitou uma maior liberdade para o samba se expandir.
O presidente da época, Venceslau Braz, que governou o
Brasil entre 1914 e 1918, enfrentava um problema de saúde
grave: uma ferida na perna que, apesar dos esforços dos
melhores médicos do país, não apresentava sinais de cura. Já
sem alternativas na medicina tradicional, Venceslau Braz,
sabendo da fama de curandeira de Tia Ciata, decidiu chamá-la
ao Palácio do Catete para tratar de sua enfermidade. E, como
que por milagre, dias depois a ferida cicatrizou. Em
agradecimento, o presidente não apenas autorizou todas as
festas promovidas por Ciata, mas também deu um emprego a
seu marido, nomeando-o Chefe de Gabinete na polícia, além de
ordenar que dois soldados realizassem a segurança das
reuniões. Com esse apoio oficial, as festas passaram a ser mais
seguidas e frequentadas, e os músicos, agora com mais
liberdade, começaram a se sentir mais à vontade para criar e
inovar.
Foi nesse contexto que, no final de 1916 e início de
1917, na casa de Tia Ciata, surgiram os primeiros sinais do que
seria o primeiro samba gravado no Brasil: Pelo Telefone, de
autoria de Donga e Mauro de Almeida. Esse samba, composto
durante uma das muitas reuniões que aconteciam na casa de Tia
Ciata, é considerado um marco na história da música brasileira.
As raízes africanas e a influência adquirida por Tia Ciata
tiveram um impacto profundo e duradouro na história da
música brasileira, alterando para sempre o curso do samba e o
status cultural que ele possui atualmente. A importância de
Hilária Batista de Almeida, tanto para a popularização do
samba quanto para a preservação e evolução das tradições
culturais afro-brasileiras, é inquestionável. Seu legado
permanece vivo nos terreiros, nas escolas de samba, nas rodas
de choro e samba, e em cada aspecto da cultura negra brasileira
que continua a florescer e a enriquecer o país. Tia Ciata não
apenas ajudou a moldar o samba, mas também garantiu que as
tradições afro-brasileiras seguissem sendo celebradas e
respeitadas, mantendo-se vibrantes nas gerações seguintes.
Disponível em https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/blog-espaco/tiaciata-a-matriarca-do-samba/
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