Antonio Candido, na obra “Literatura e Sociedade” (2014), ab...
Leia o poema abaixo, de Gregório de Matos Guerra:
À negra Margarida que acariciava um mulato
1 Carina, que acariais
aquele Senhor José
ontem tanga de guiné,
hoje Senhor de Cascais:
vós, e outras catingas mais,
outros cães, e outras cadelas
amais tanto as parentelas,
que imagina o vosso amor,
que em chamando ao cão Senhor
Ihe dourais suas mazelas.
2 Longe vá o mau agouro;
tirai-vos desse furor,
que o negro não toma cor,
e menos tomará ouro:
quem nasceu de negro couro,
sempre a pintura o respeita
tanto, que nunca o enfeita
de outra cor, pois fora aborto,
é, como quem nasceu torto,
que tarde, ou nunca endireita.
3 A nenhum cão chamais tal,
Senhor ao cão? isso não:
que o Senhor é perfeição,
e o cão é perro neutral:
do dilúvio universal
a esta parte, que é
desde o tempo de Noé,
gerou Cão filho maldito
negros de Guiné, e Egito,
que os brancos gerou Jafé.
4 Gerou o maldito Cão
não só negros negregados,
mas como amaldiçoados
sujeitos à escravidão:
ficou todo o canzarrão
sujeito a ser nosso servo
por maldito, e por protervo;
e o forro, que inchar se quer,
não pode deixar de ser
dos nossos cativos nervo.
5 Os que no direito expertos
penetram termos tão finos,
bem sabem, que os libertinos
distam muito dos libertos:
se há brancos tão inexpertos,
que dão benignos, ou bravos
alforrias por agravos:
os que destes são nascidos,
por libertinos são tidos,
porém são filhos de escravos.
6 O filho da minha escrava,
e dos meus vizinhos velhos,
que eu vejo pelos artelhos,
que ontem soltaram da trava;
porque tanto se deprava
com tal brio, e pundonor,
que quer Ihe chamem Senhor:
se consta o seu senhorio
de um bananal regadio,
que cavou com seu suor!
7 E se são justos os brios
daqueles, que escravos têm,
nisso a mor baixeza vêm,
pois têm por servos seu tios:
e se algum com desvarios
diz, que o ter por natural
sangue de branco o faz tal,
nisso a condenar-se vêm,
porque se o branco faz bem,
como o negro não faz mal?
8 Tomem de leite um cabaço,
lancem-lhe um golpe de tinta,
a brancura fica extinta,
todo o leite sujo, e baço:
assim sucede ao madraço,
que com a negra se tranca;
do branco o leite se arranca,
da negra a tinta se entorna,
o leite negro se torna,
e a tinta não se faz branca.
9 Mas tornando a vós, Carira,
que ao negro Senhor chamais,
porque é Senhor de Cascais,
quando vos casca, e atira:
crede, amiga, que é mentira
ser branco um negro da Mina,
nem vós sejais tão menina,
que creiais, que ele não crê,
que é negro, pois sempre vê
em casa a mãe Caterina.
10 Dizei ao Vosso Senhor
entre um, e outro carinho,
que o negro do seu focinho
é cor, que não toma cor:
e que dê graças a Amor
que vos pôs os olhos tortos
para não ver tais abortos,
mas que há de esbrugar mantenha
daqui até que Deus venha
julgar os vivos, e mortos.
(RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2014, p. 115-118.)
Antonio Candido, na obra “Literatura e Sociedade” (2014), aborda vários níveis da correlação entre literatura e sociedade, sendo este o tema que percorre os ensaios que compõem o livro e que dão unidade a esta obra. Ele analisa o vínculo entre obra e ambiente, sem perder a dimensão estética do literário. Em suas palavras, “O externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno” (CANDIDO, p. 14). Considerando a obra como um organismo, o autor ainda aponta: “Hoje sentimos que, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, é justamente esta concepção da obra como organismo que permite, no seu estudo, levar em conta e variar o jogo de fatores que a condicionam e motivam; pois quando é interpretado como elemento da estrutura, cada fator se torna componente essencial do caso em foco […]” (CANDIDO, p. 25).
O último ensaio da obra “Literatura e Sociedade” (2014) é voltado à estrutura literária e função histórica, no qual o autor opera, na prática, as diretrizes teórico-metodológicas apresentadas nos ensaios anteriores. Com base neste último ensaio, analise as assertivas:
I. Candido, ao analisar a estrutura da obra Caramuru, de José de Santa Rita Durão, identifica a colonização, a natureza e o índio como os princípios estruturais que ordenam as partes, os motivos e os episódios e que todos os três são perpassados pela ambiguidade, cuja análise permite perceber que o princípio organizador do poema, que liga as partes e dissolve as contradições, é a religião e, devido a ele, os princípios estruturais se vinculam uns aos outros sutilmente. Tal caráter ambíguo permitiu o reaproveitamento da obra pelo Romantismo em sua faceta indianista.
II. Na formação de uma consciência literária de autonomia no Brasil, eclodida com o Romantismo, Caramuru, de José de Santa Rita Durão, que teve então seu grande momento, desempenhou uma função fundamental devido ao caráter de paradigma ressaltado pelos escritores franceses, o que foi possível, em grande parte, por causa da natureza ambígua do poema, permitindo que os precursores franceses e os primeiros românticos brasileiros operassem nele uma dupla distorção e um duplo aproveitamento, o ideológico e o estético.
III. O aproveitamento dos textos poéticos O Uraguai, de José Basílio da Gama, e Caramuru, de José de Santa Rita Durão para a prosa em língua francesa, vertidas por François Eugène Garay de Monglave, consistiu num processo de descaracterização, conforme aponta Candido, imprimindo aos textos um “caráter intermediário”, de passagem, entre poema e romance. Essas adaptações, assim como outras operadas na França, aproximam tais obras brasileiras do momento romântico francês, e as traduções, adaptações e recepções que tiveram em território francês foram importantes para estabelecerem um aspecto específico do romantismo brasileiro, o Indianismo. A escolha da substância novelística, em lugar da épica, diz Candido, tornou O Uraguai e Caramuru mais próximos e familiares à sensibilidade romântica, voltada para ficção e lirismo e que, observando tal fato, é possível avaliar a importância do trabalho realizado pelos franceses, em uma sequência coerente e progressiva que preludiou a ficção romântica brasileira.
Assinale a alternativa em que todas a(s) afirmativa(s) está(ão) CORRETA(S):