No parágrafo final, o autor do texto considera que

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Q3883920 Português
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto a seguir.


Um pai autoritário


    No romance Paradiso, o grande escritor cubano José Lezama Lima diz que um ser humano só começa a envelhecer depois da morte do pai. Freud atribui a essa morte um dos grandes traumas de um filho.

    Mas há também pais terríveis, opressores e tirânicos, na vida e na literatura. Carta ao pai, de Franz Kafka, é um dos exemplos notáveis de pai repressivo, que interfere nas relações amorosas e na profissão do filho. Um pai que não se conforma com um grão de felicidade do jovem Franz. A Carta é o inventário de uma vida infernal.

    É difícil saber até que ponto o pai de Kafka na Carta é totalmente verdadeiro. Pode ser uma construção ficcional ou um pai figurado, mais ou menos próximo do verdadeiro. Mas isso atenua o sofrimento do narrador? O leitor acredita na figuração do pai. Em cada página, o que prevalece é uma alternância de sofrimentos e humilhações, imposta por um homem prepotente e autoritário. Um grande escritor não depende de que ele seja inteiramente fiel aos fatos; sua fidelidade é com a força das palavras que é capaz de escrever.


(Adaptado de: HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, р. 204)
No parágrafo final, o autor do texto considera que
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo está no parágrafo final: "Um grande escritor não depende de que ele seja inteiramente fiel aos fatos; sua fidelidade é com a força das palavras que é capaz de escrever." A oposição semântica entre fidelidade aos fatos e força das palavras define que o valor literário é situado na potência expressiva da linguagem.

Tema central: força da linguagem
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque inverte o sentido do trecho decisivo. O texto não diz que sentimentos profundos dispensam as palavras; diz exatamente o contrário, ao afirmar que a fidelidade do grande escritor está "com a força das palavras que é capaz de escrever".
B
Errada
Está errada por extrapolação indevida. O texto não trata de variação da admiração do leitor conforme o grau de experiência real do autor. O que ele afirma é que "O leitor acredita na figuração do pai", mesmo quando se admite que essa figura possa ser construção ficcional.
C
Errada
Está errada porque submete o valor da ficção à reprodução direta da realidade histórica, ponto negado no parágrafo final. O texto sustenta que o grande escritor não depende de fidelidade integral aos fatos, mas da força expressiva da linguagem.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque retoma, no contexto do trecho final, a ideia de que "sua fidelidade é com a força das palavras que é capaz de escrever". Nesse sentido, "energia" funciona como paráfrase contextual de "força das palavras", sem deslocar o sentido defendido pelo autor.
E
Errada
Está errada porque transforma a obra em documento realista e ainda acrescenta uma leitura psicologizante não autorizada pelo texto. O parágrafo final admite que o pai possa ser "uma construção ficcional ou um pai figurado" e não define a Carta como testemunho factual nem fala em "ressentimento filial".
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre efeito de verdade literária e verdade factual: o texto admite possível ficcionalização, mas afirma que isso não reduz a força da obra, porque o critério de valor está na construção verbal, não na prova documental dos fatos.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto opuser dois critérios, identifique qual deles é explicitamente privilegiado na conclusão.
  • Se a alternativa trocar força expressiva por fidelidade factual, ela contraria o eixo do parágrafo final.
  • Diferencie crença do leitor na figuração literária de comprovação objetiva dos fatos narrados.

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Comentários

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GAB: D

"Um grande escritor não depende de que ele seja inteiramente fiel aos fatos; sua fidelidade é com a força das palavras que é capaz de escrever."

A alternativa correta é a D.

O foco do parágrafo final de Milton Hatoum é a autonomia da literatura em relação à realidade biográfica. Ele desloca o valor da obra da "verdade dos fatos" para a "potência da escrita".

O autor encerra o texto afirmando:

"Um grande escritor não depende de que ele seja inteiramente fiel aos fatos; sua fidelidade é com a força das palavras que é capaz de escrever."

Essa frase deixa claro que, para Hatoum, o compromisso do escritor (especialmente um "grande escritor") não é com o compromisso documental ou histórico, mas com a energia estética e emocional que a linguagem produz no leitor.

  • A) Errada: O texto diz exatamente o contrário. Ele valoriza a "potência das palavras" como o meio essencial para expressar esses sentimentos.
  • B) Errada: O autor afirma que o leitor "acredita na figuração", independentemente de ser real ou não. A admiração vem da força narrativa, não da checagem de fatos.
  • C) Errada: Hatoum defende que o escritor não precisa ser fiel aos fatos. Portanto, a ficção valiosa não é a que "reflete de modo direto a realidade", mas a que possui força literária.
  • E) Errada: A alternativa foca no "ressentimento filial", mas o autor foca na capacidade artística de Kafka. Além disso, o texto questiona o realismo (se é verdadeiro ou ficção), enquanto a alternativa o crava como "testemunho vivo e realista".

GAB D

Na literatura, trabalhamos com a Verossimilhança: algo não precisa ter acontecido, mas precisa parecer verdade dentro daquele universo para que o leitor sinta o impacto. Hatoum mostra que a "energia" das palavras de Kafka é o que convence o leitor da dor do narrador, mesmo que o pai real de Kafka não fosse exatamente aquele "monstro" descrito.

BIZU CRISTÃO: “As palavras dos sábios são como aguilhões, e como pregos bem fixados...” Eclesiastes 12:11

O rei Salomão, em sua sabedoria, já apontava para essa "energia" das palavras mencionada por Hatoum. As palavras certas têm o poder de "cutucar" (como aguilhões) e de se estabelecerem como verdades profundas na alma de quem as ouve. Kafka usou suas palavras como aguilhões para expressar sua dor, e essa força é o que as torna permanentes, independentemente do rigor histórico dos fatos.

D

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