Não é bom que o homem esteja só; apesar disso hesitei
muito em arranjar um passarinho, pelo mesmo motivo que
hesito em tomar uma mulher. Pede muita assistência, requer
muito cuidado, e sou um homem distraído que de vez em quando
precisa viajar.
Tenho uma experiência triste no assunto. Não de mulher,
mas de passarinho.
Uma vez José Olympio, editor e amigo velho, me trouxe de
São Paulo um bicudo, e outra pessoa me deu um galo-de-campina. Este era muito espantado e não chegamos a nos afeiçoar.
Mas o bicudo ficou logo meu amigo — ou, mais precisamente,
meu inimigo cordial. Podia se assustar com outras pessoas, mas
logo me reconhecia quando eu me aproximava da gaiola. Sabia
que estava na hora da briga. Eu o aborrecia de toda maneira,
metendo os dedos na gaiola, jogando-lhe água na cabeça, assobiando alto. Ele se eriçava um pouco, fingia-se desentendido, e
de repente me dava uma bicada. Fiz verdadeiras chantagens
sentimentais para conquistá-lo. Privei-o dois dias de sua comida
predileta, sementes de cânhamo. Ele não reclamou, mas era
visível que estava zangado.
No terceiro dia ofereci-lhe as sementes — na mão. Ficou
quieto, me olhando de banda. Saltou para um lado e outro mais
de uma vez, mas se deteve novamente perto de minha mão,
sempre olhando de lado as sementes. Mais de cinco minutos
ficou nesse conflito íntimo. Afinal pegou uma semente, mas
logo a deixou cair no fundo da gaiola — e bicou com toda a
força o meu dedo. Era um caráter.
Eu tinha de passar muitos meses no estrangeiro e levei dias
ponderando as virtudes e defeitos de meus amigos, para ver
com quem podia deixar os passarinhos.
Excluí os solteiros. São sujeitos desorganizados, que podem
ser arrastados por algum rabo-de-saia a passar um fim de semana em Petrópolis ou Cabo Frio e deixar um bichinho morrer
de fome ou de sede. A respeito dos casados pensei muito em
suas esposas. Nada de senhoras que varam madrugada jogando
biriba ou frequentam boates. Isso é gente capaz de esquecer os
próprios filhos, que dirá meu bicudinho. Sondei em vários lares a
existência de gatos ou de meninos pequenos. Eliminei da lista
uma das casas porque a cara da empregada não me agradou —
e acabei decidindo pela casa de um amigo nordestino (o engenheiro Jucá), que me pareceu o melhor lar para o cuidado e educação de meus pássaros. Viajei saudoso, mas tranquilo.
No dia seguinte à minha volta peguei meu amigo no escritório, à tarde, com a intenção de passar pela sua casa e
apanhar meus passarinhos. Ele perguntou se eu queria mesmo
os bichos de volta; por que não os deixava mais algum tempo
em sua casa? Achei que ele estava desconversando; vai ver que
algum passarinho tinha morrido. Jurou que não. De toda maneira, relutou em vir para Ipanema comigo; senti que não queria
que eu fosse à sua casa. Quando insisti, ele disse com ar misterioso: — Bem, se você puder levar… Quando cheguei à casa é que senti o drama. A mulher de meu amigo não estava
de maneira alguma disposta a me devolver os passarinhos,
e teve uma discussão com ele a esse respeito. Não me meto
em discussão de casais, e embora fosse a parte mais interessada, fiquei quieto. Deixei passar o tempo. Depois do jantar
com um bom vinho, entrei jeitosamente na conversa com a
senhora. Ela relutava, punha a culpa nas crianças que iriam ficar
muito tristes, uma empregada até chorara quando soube que
eu ia levar os passarinhos.
Fiz uma pergunta: ficasse com o galo-de-campina; mas
meu bicudo…
Percebendo nossa conversa, o marido entrou no meio,
disse que não ficava bem aquilo que ela estava fazendo, que
ele até sentia vergonha. Aí a discussão recomeçou, e eu me
limitei a declarar que, de toda maneira, ia levar para casa o
meu bicudo.
–Você tem certeza? — perguntou a senhora.
– Claro que tenho certeza. O Jucá me deu a palavra!
Ela ficou um momento quieta, me olhando. Pensei que
estivesse conformada.
Mas depois disse calmamente, com a voz lenta e firme.
– É? O Jucá lhe deu a palavra? Então está bem. Você pegue
o Jucá, ponha dentro de uma gaiola e pendure na sua varanda.
Ele faz muito menos falta nesta casa do que o bicudo.
Passarinho não se empresta a ninguém. Nem a quem
não gosta de passarinho, nem, muito menos, a quem gosta
de passarinho.
“Ele se eriçava um pouco, fingia-se desentendido, e de repente me dava uma bicada.” [...] Ele não reclamou, mas era
visível que estava zangado.” (3º§) O excerto anterior contém um recurso de linguagem denominado: