A manchete de 14.05.2020 na Folha despeja água fria
sobre a esperança de que a tecnologia pudesse mitigar o impacto negativo da pandemia na educação: “Menos da metade
dos alunos acessa ensino on-line em São Paulo”.
As dificuldades, decerto, não inerem ao ensino a distância como tal. Ferramentas de aulas, atividades e exercícios
nas telas de TV, computador ou telefone celular representam
recurso adicional que pode e deve ser empregado.
O distanciamento forçado pelo coronavírus terá talvez o
efeito paradoxal de abater algo do preconceito contra essas
técnicas por uma visão tradicionalista. Têm e terão papel
valioso, sobretudo como canais complementares para reforço
e solução de dúvidas.
Persiste o problema da equidade, contudo. Verdade que
96% dos domicílios brasileiros contam com aparelhos de TV,
93% com celulares e 79% com acesso à internet. Por mais
que tenha progredido a penetração dos meios, contudo, ainda
estamos longe da universalização que excluiria o prejuízo de
alguns estudantes pela falta de acesso.
O governo estadual paulista, ciente de que o tráfego de
dados tem custo crescente na despesa domiciliar, tornou-os
gratuitos para uso do aplicativo educacional. Mesmo assim,
só 1,6 milhão dos 3,5 milhões de alunos (47%) completaram
acesso ao programa pelo celular pelo menos uma vez.
Isso nem mesmo garante que tenham assistido a todas
as aulas. Para cumular, há deficiência na comunicação, dado
que muitos estudantes relatam não saber que aulas estão
disponíveis na TV. Isso no estado mais desenvolvido do país;
pior tende a ser em outros.
Não é só questão de acesso, vê-se. No ensino convencional, há a rotina de frequência à escola e o estímulo da
merenda. Sob a pandemia, existe pouco incentivo para concentrar-se na frente de uma tela, muitas vezes sem ambiente tranquilo ou adultos para supervisionar o cumprimento de
atividades.
Sairão mais prejudicados desses tempos de coronavírus
aqueles jovens e crianças que, em condições normais, já carecem de suportes familiares e sociais para perseverar na educação. A tecnologia pode até agravar vetores de desigualdade
e contribuir para aumentar futuras taxas de evasão.
(Editorial. Folha de S.Paulo, 15.05.2020)
No trecho do 3° parágrafo – Têm e terão papel valioso...
–, os verbos estão flexionados no plural, pois concordam
com a expressão