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Q3736623 Português
A visita do casal

    Um casal de amigos vem me visitar. Vejo-os que sobem lentamente a rua. Certamente ainda não me viram, pois a luz do meu quarto está apagada.
    É uma quarta-feira de abril. Com certeza acabaram de jantar, ficaram à toa, e depois disseram: Vamos passar pela casa do Rubem? É, podemos dar uma passadinha lá. Talvez venham apenas fazer hora para a última sessão de cinema. De qualquer modo, vieram. E me agrada que tenham vindo. E dá-me prazer vê-los assim subindo a rua vazia e saber que vêm me visitar.
   Penso um instante nos dois; refaço a imagem um pouco distraída que faço de cada um. Sei há quantos anos são casados, e como vivem. A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina. Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam, mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas.
    Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos. Ele com seu passo largo e um pouco melancólico, a pensar suas coisas; ela com aquele vestido branco tão conhecido que “me engorda um pouco, chi, meu Deus, estou vendo a hora que preciso comprar esse livro Coma e Emagreça, meu marido vive me chamando de bola de sebo, você acha, Rubem?”.
    Eu gosto do vestido. Quanto a ela própria, eu já a conheço tanto, nesta longa amizade, em seus encantos e em seus defeitos, que não me lembro de considerar se em conjunto é bonita ou não, e tenho uma leve surpresa sempre que ouço alguma opinião de uma pessoa estranha; não posso imaginar qual seria minha impressão se a visse agora pela primeira vez. “Ele diz que eu tenho corpo de mulata, você acha Rubem? Diz que quando eu engordo minha gordura vem toda para aqui” – e passa as mãos nas ancas, rindo. “Nesse negócio de corpo de mulata você deve mesmo consultar o Rubem, mulher.” Um gosta de mexer com o outro falando comigo. “Você já reparou nessa camisa dele? Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?”
    Penso essas bobagens em um segundo, enquanto eles se aproximam de minha casa. Na tarde que vai anoitecendo tem alguma coisa tocante esse casal que anda em silêncio na rua vazia; e eu sou grato a ambos por virem me visitar. Estou meio comovido.
    A campainha bate. Acendo a luz e vou lhes abrir a porta e também discretamente, o coração. “Quase que não batemos, vimos a luz apagada. O que é que você faz aí no escuro?”
    Digo que nada, às vezes gosto de ficar no escuro. “Eu não disse que ele era um morcegão?”
    Sou um morcegão cordial; trago um conhaque para ele e um vinho do Porto para ela. 


(BRAGA, Rubem. 1913-1990. 100 Crônicas Escolhidas – 31ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.)
A compreensão de um texto se dá não apenas pelo processamento de informações explícitas, mas também por meio de informações implícitas, ou seja, a compreensão se dá pela mobilização de um modelo cognitivo, que integra as informações expressas com os conhecimentos prévios do leitor ou com elementos pressupostos no texto. Dessa forma, sobre as ideias evidenciadas no texto, é possível inferir que:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Tema central: O foco da questão é interpretação de texto, especialmente a capacidade de realizar inferências e identificar informações implícitas a partir de pistas textuais. Esse tema exige atenção à coerência semântica e ao modo como as ideias do texto se articulam, conforme orientações da norma-padrão.

Justificativa para a alternativa correta (D):

O texto propõe uma reflexão sobre casais enquanto unidade social, demonstrando que, aos olhos do narrador, cada um perde parte de sua individualidade e passa a compor uma “identidade comum”. Isso é inferido nos trechos em que o narrador afirma: “A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos” e “Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas”. A resposta correta exige o reconhecimento desse implícito: mesmo que o autor comente traços pessoais dos cônjuges, percebe-se uma fusão de identidades enquanto casal, formando uma entidade única para quem os observa. Trata-se de um processo de inferência, competência fundamental na banca.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) A questão da saúde mental e dos filhos não aparece em nenhum momento do texto. Trata-se de extrapolação, não de interpretação.
  • B) O texto não discute expectativas futuras como critério para o comprometimento do casal. A alternativa utiliza um conceito psicológico, estranho ao que se narra.
  • C) Embora o texto mencione casais que permanecem juntos, a justificativa dada na alternativa (“esperar melhora”) não é apresentada pelo autor, que foca na visão de quem observa, não na dos membros do casal.

Pontos centrais do texto:

Ao interpretar, observe palavras-chave, como “realidade para nós” e “quando deixa de haver [o casal]”, que são fundamentais para perceber que o olhar do narrador se volta para a identidade do casal como unidade indivisível aos olhos dos amigos. Segundo Ingedore Koch (“Coesão e Coerência”), essa habilidade de reconstruir implícitos é crucial para a interpretação madura de textos.

Dica de concurso: Sempre que uma alternativa extrapolar o que está no texto, desconfie! Foque nos elementos subentendidos pelo discurso, sem trazer conhecimentos de fora.

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Comentários

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Gabarito D

Por que as outras alternativas estão incorretas (Extrapolação)?

As letras A, B e C cometem o erro mais comum em provas de interpretação: a extrapolação (quando a alternativa afirma algo que até pode ser verdade na vida real, mas que não está escrito nem sugerido no texto).

​A) INCORRETA. O texto não menciona absolutamente nada sobre "filhos" ou sobre laudos de "saúde mental".

​B) INCORRETA. O texto não analisa a expectativa de futuro do casal (se eles acham que vão ser felizes lá na frente). O autor foca no presente e em como os amigos os enxergam.

​C) INCORRETA. A crônica não diz que eles continuam casados porque acreditam que vai melhorar. Na verdade, o narrador diz de forma irônica que nós (os amigos) preferimos que eles continuem juntos, mesmo que vivam mal e briguem ("Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós"), pois não sabemos lidar com eles separados.

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