Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha
estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por
seu professor de Português: saber se eu considerava o
estudo da Gramática indispensável para aprender e usar
a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava
seu gravador cassete e andava arrecadando opiniões.
Suspeitei que o tal professor lia esta coluna, se descabelava
diariamente com as suas afrontas às leis da língua, e
aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar.
Já estava até preparando minha defesa. Mas os alunos
desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles
mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados.
Vocês têm certeza que não pegaram o Verissimo errado?
Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem é um meio de comunicação e
que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas
algumas regras básicas da Gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A
sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever
bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por
exemplo: dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro,
certo? O importante é comunicar. (E quando possível
surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos
na área do talento, que também não tem nada a ver
com Gramática). A Gramática é o esqueleto da língua. Só
predomina nas línguas mortas.
Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores.
E adverti que minha implicância com a Gramática na certa
se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui
péssimo em Português. Mas – isso eu disse – vejam vocês,
a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu
ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência
na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas.
Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas
são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo
submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para
satisfazer um gosto passageiro. Maltrato‑as, sem dúvida.
E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua
vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens,
sua família nem o que outros já fizeram com elas.
VERISSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras.
In: Luís Fernando Verissimo. Para gostar de ler; Luís Fernando
Verissimo: o nariz e outras crônicas. 10a . ed. São Paulo:
Ática, 2002. p. 77 (com adaptações).
Com base nos aspectos gramaticais do texto apresentado,
julgue o item seguinte.
Tanto na palavra “Farroupilha”, presente no trecho
“Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do
Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão,
designada por seu professor de Português”, como
na palavra “necessariamente”, presente no trecho
“Escrever bem é escrever claro, não necessariamente
certo”, identificam‑se dois dígrafos.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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