A partir das afirmações de Luiz Roncari (2014) sobre a obra ...

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Q2719021 Português

Leia o poema abaixo, de Gregório de Matos Guerra:

À negra Margarida que acariciava um mulato

1 Carina, que acariais

aquele Senhor José

ontem tanga de guiné,

hoje Senhor de Cascais:

vós, e outras catingas mais,

outros cães, e outras cadelas

amais tanto as parentelas,

que imagina o vosso amor,

que em chamando ao cão Senhor

Ihe dourais suas mazelas.

2 Longe vá o mau agouro;

tirai-vos desse furor,

que o negro não toma cor,

e menos tomará ouro:

quem nasceu de negro couro,

sempre a pintura o respeita

tanto, que nunca o enfeita

de outra cor, pois fora aborto,

é, como quem nasceu torto,

que tarde, ou nunca endireita.

3 A nenhum cão chamais tal,

Senhor ao cão? isso não:

que o Senhor é perfeição,

e o cão é perro neutral:

do dilúvio universal

a esta parte, que é

desde o tempo de Noé,

gerou Cão filho maldito

negros de Guiné, e Egito,

que os brancos gerou Jafé.

4 Gerou o maldito Cão

não só negros negregados,

mas como amaldiçoados

sujeitos à escravidão:

ficou todo o canzarrão

sujeito a ser nosso servo

por maldito, e por protervo;

e o forro, que inchar se quer,

não pode deixar de ser

dos nossos cativos nervo.

5 Os que no direito expertos

penetram termos tão finos,

bem sabem, que os libertinos

distam muito dos libertos:

se há brancos tão inexpertos,

que dão benignos, ou bravos

alforrias por agravos:

os que destes são nascidos,

por libertinos são tidos,

porém são filhos de escravos.

6 O filho da minha escrava,

e dos meus vizinhos velhos,

que eu vejo pelos artelhos,

que ontem soltaram da trava;

porque tanto se deprava

com tal brio, e pundonor,

que quer Ihe chamem Senhor:

se consta o seu senhorio

de um bananal regadio,

que cavou com seu suor!

7 E se são justos os brios

daqueles, que escravos têm,

nisso a mor baixeza vêm,

pois têm por servos seu tios:

e se algum com desvarios

diz, que o ter por natural

sangue de branco o faz tal,

nisso a condenar-se vêm,

porque se o branco faz bem,

como o negro não faz mal?

8 Tomem de leite um cabaço,

lancem-lhe um golpe de tinta,

a brancura fica extinta,

todo o leite sujo, e baço:

assim sucede ao madraço,

que com a negra se tranca;

do branco o leite se arranca,

da negra a tinta se entorna,

o leite negro se torna,

e a tinta não se faz branca.

9 Mas tornando a vós, Carira,

que ao negro Senhor chamais,

porque é Senhor de Cascais,

quando vos casca, e atira:

crede, amiga, que é mentira

ser branco um negro da Mina,

nem vós sejais tão menina,

que creiais, que ele não crê,

que é negro, pois sempre vê

em casa a mãe Caterina.

10 Dizei ao Vosso Senhor

entre um, e outro carinho,

que o negro do seu focinho

é cor, que não toma cor:

e que dê graças a Amor

que vos pôs os olhos tortos

para não ver tais abortos,

mas que há de esbrugar mantenha

daqui até que Deus venha

julgar os vivos, e mortos.

(RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2014, p. 115-118.)

A partir das afirmações de Luiz Roncari (2014) sobre a obra “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, analise as afirmativas, identificando com “V” as VERDADEIRAS e com “F” as FALSAS, assinalando a seguir a alternativa CORRETA, na sequência de cima para baixo:


( ) Na obra, Manuel Antônio Almeida busca o ponto de encontro ou fronteira da sociedade da “ordem” com a da “desordem”. Como as duas não existiam separadamente, o que ele observa é o processo de relações e contato de uma com a outra e a contaminação de uma pela outra, através dos processos de transbordamento das personagens de um lugar social para o outro.

( ) Na descrição da preparação do parto organizado pela comadre, a madrinha de Leonardo, os elementos da religião católica são utilizados com finalidades mágicas, dentro de práticas típicas da crendice e da superstição popular, apontando, com isso, que o sincretismo ou a mistura é o elemento constante e organizador de quase todas as manifestações festivas, ritualísticas ou simplesmente da tradução dos costumes que o autor descreve.

( ) Na construção das personagens, Manuel Antônio Almeida ultrapassou as suas caracterizações como tipos, as suas individualidades não estão sujeitas e determinadas às suas condições sociais, raciais, profissionais, pois ao fixar o foco do romance na área de contato intersociais, raciais, éticos e culturais, faz com que as personagens consigam superar e ultrapassar suas condições, além de afirmarem-se como indivíduos de personalidades autônomas.

( ) Manuel Antônio Almeida buscou equilibrar duas forças de sentido oposto, uma coagindo para a “ordem” e outra para “desordem”, uma identificada com o Estado português, de origem externa e extração europeia e civilizada, e a outra identificada com as forças da “terra”, mameluca. No entanto, não conseguiu que tais forças opostas convivessem e criassem uma ordem em que as duas naturezas e dimensões do homem encontrassem espaço de realização e equilíbrio.

( ) Os melhores momentos de apreensão de contato e reunião de culturas e cores raciais diferentes, dentro da obra, são os encontros festivos e comemorativos, como o que ocorre no capítulo “Origem, Nascimento e Batizado”.

Alternativas