É preciso corrigir, por falha estrutural, a redação da frase:

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Q2902938 Português
Atenção: A questão refere-se ao texto seguinte, do filósofo francês Montaigne, influente pensador do século XVI.

Da moderação

    Como se tivéssemos infeccioso o tato, ocorre-nos corromper, se as manusearmos em excesso, as coisas que em si são belas e boas. A virtude pode tornar-se vício se ao seu exercício nos dedicarmos com demasiada avidez e violência. E jogam com as palavras os que dizem não haver excesso na virtude porque não há virtude onde há excesso: “Não é sábio o sábio, nem justo o justo, se seu amor à virtude é exagerado”.

    Trata-se de uma sutileza filosófica. Pode-se dedicar imoderado amor à virtude e ser excessivo em uma causa justa. Preconiza o apóstolo São Paulo, a esse respeito, um equilíbrio razoável: “Não sejais mais comportados do que o necessário; ponde alguma sobriedade no bom comportamento”. Vi um dos grandes deste mundo prejudicar a religião por se entregar a práticas religiosas incompatíveis com a sua condição social. Aprecio os caracteres moderados e prudentes: ultrapassar a medida, ainda que no sentido do bem, é coisa que me espanta, se não me incomoda, e a que não sei como chamar. Mais estranha do que justa se me afigura a conduta da mãe de Pausânias, que foi a primeira a denunciá-lo e a contribuir com a primeira pedra para a morte do filho*; nem tampouco aprovo a atitude do ditador Postúmio, mandando matar o filho que, no entusiasmo da mocidade, saíra das fileiras para atacar o inimigo, com felicidade, aliás. Não me sinto propenso nem a aconselhar nem a imitar tão bárbara virtude.

    Falha o arqueiro que ultrapassa o alvo, da mesma maneira que aquele que não o alcança. Minha vista se perturba se de repente enfrenta uma luz violenta, quando então vejo tão pouco como na mais profunda escuridão.

*Nota: A mãe de Pausânias depositara um tijolo diante do templo de Minerva, onde se refugiara o rei, seu filho. Os lacedemônios, aprovando-lhe o julgamento simbólico, ergueram muros em torno do refúgio e deixaram o prisioneiro morrer de fome.

(Adaptado de Montaigne, Ensaios)

É preciso corrigir, por falha estrutural, a redação da frase:

Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando pede a frase com falha estrutural, e isso ocorre na alternativa B: em "o mesmo defeito do qual, por princípio, se desejaria combater", o relativo "do qual" cria encadeamento sintático inadequado com "combater" e com o antecedente "defeito"; a redação exige outro relativo, como "que". Por isso, B é a frase a ser corrigida.

Tema central: regência e relativo
Análise das alternativas
A
Errada
A frase não tem falha estrutural. A construção “os defeitos que representam os excessos com que podem ser exercidas” é sintaticamente regular, e o sentido se mantém compatível com a ideia do texto de que o excesso pode corromper a virtude. Pode soar densa, mas densidade de formulação não configura erro estrutural.
B
Certa
A alternativa B é a correta porque é a única cuja redação apresenta vício estrutural real. O problema está na relação entre o antecedente "defeito", o pronome relativo "do qual" e o verbo "combater". Nessa construção, combate-se o defeito; logo, "defeito" deve funcionar como objeto direto do verbo, sem preposição. Ao usar "do qual", a frase cria uma regência inadequada e um encadeamento sintático-semântico defeituoso. O ponto decisivo não é o conteúdo temático da alternativa, que até se aproxima do texto, mas a construção gramatical viciada.
C
Errada
A redação é estruturalmente aceitável. Há coesão suficiente em “o que expressa o texto citado, no qual também acusa um jogo de palavras”, e a formulação se apoia em passagens do texto que mencionam “sutileza filosófica” e “jogam com as palavras”. Pode haver condensação interpretativa, mas não há inadequação sintática determinante.
D
Errada
A construção é correta. A expressão “não vê senão excesso” está bem articulada e equivale a restringir a leitura desses atos a excesso, o que se sustenta na rejeição do autor à “tão bárbara virtude”. Não há problema de regência, concordância ou organização do período.
E
Errada
A frase é estruturalmente regular. A formulação resume a imagem final do texto — “Falha o arqueiro que ultrapassa o alvo, da mesma maneira que aquele que não o alcança.” — para afirmar a recusa dos extremos. A expressão avaliativa “de modo prático e objetivo” não gera falha estrutural.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de o candidato julgar as alternativas pelo conteúdo do texto e deixar passar o defeito de construção em B. Como a ideia geral da frase parece compatível com o texto, o erro de regência no segmento “do qual ... combater” pode ser ignorado.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando mencionar “falha estrutural”, procure primeiro erro de construção sintática, não divergência de interpretação.
  • Em orações com pronome relativo, teste a regência do verbo da subordinada: veja se o antecedente entra com ou sem preposição.
  • Se a ideia da alternativa parecer correta, ainda assim verifique se a frase está gramaticalmente bem montada; conteúdo plausível não salva estrutura defeituosa.

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