O Brasil é conhecido como o país do
futebol. Não que eu aprecie muito esse título.
Pouco compreendo do assunto, mas na Copa até
eu torço, nem que seja por uma questão de amor
à pátria. É uma época em que, durante os jogos, o
país parece, numa espécie de surto psicodélico
coletivo, esquecer por noventa minutos que não
está com essa bola toda em vários sentidos.
O que quero abordar aqui sai do futebol e
entra na política, economia e sociedade, pois me
veio uma preocupação recente que gostaria de
compartilhar com meus pares: os jornalistas. A
preocupação atende por um velho nome: pão e
circo.
Boa parte de vocês já conhece a
expressão. Como já faziam os romanos com sua
política do “pão e circo”, especialistas em distrair a
população enquanto os problemas reais
continuavam ali. Mudam-se os impérios,
permanecem os truques.
E é justamente aí que mora o meu receio.
O Brasil atravessa uma fase política
problemática, com corrupção, violência crescente,
empresas estatais quase à beira de um colapso e
uma população cada vez mais cansada de pagar
a conta de tudo. Poderíamos citar mais vinte
problemas sem esforço algum, e nós, brasileiros,
conhecemos cada um deles e sentimos na pele
suas consequências. Não é necessário aprofundar
todas essas mazelas porque elas já batem
diariamente à nossa porta.
Ainda assim, quando chega a Copa do
Mundo, parte da imprensa entra num estado
quase hipnótico: tabelas, treinos, tornozelos
lesionados, cabelo de jogador, análise emocional
de técnico, grama usada no estádio da seleção e,
se deixar, até reportagem investigativa sobre o
cachorro do camisa 10 ou previsão astrológica da
seleção.
Isso começa a parecer uma espécie de
loucura coletiva. Um excesso de zelo que, se
fosse aplicado a temas realmente importantes,
talvez deixasse a população muito mais bem
informada sobre aquilo que impacta diretamente
sua vida.
Não digo que não haja pauta no futebol. Claro que
há. Copa do Mundo movimenta economia, cultura,
comportamento e audiência. Ignorar isso seria
tolice. Minha questão começa quando todo o resto
desaparece do noticiário como mágica. Como se
os problemas do país tirassem férias durante os
jogos. Como se a violência aguardasse
educadamente o apito final.
Nós, jornalistas, não podemos nos dar ao
luxo de embarcar completamente nesse
espetáculo enquanto os problemas reais das
famílias brasileiras continuam acontecendo fora
do estádio, muito longe dos camarotes e dos
flashes psicodélicos.
Cobrir futebol é legítimo. Transformar a
cobertura esportiva em anestesia coletiva já é
outra coisa. E é exatamente esse o meu alerta.
Talvez nossa obrigação, justamente durante
grandes eventos, seja redobrar a atenção ao que
tentam empurrar para debaixo do tapete enquanto
o país está distraído gritando “gol”.
Precisamos de um jornalismo mais crítico,
inteligente e audaz. Um jornalismo que não fale
apenas mais do mesmo, que não viva
requentando matérias ou reciclando opiniões
prontas. Pior ainda: precisamos fugir de um
jornalismo militante, que utiliza essa profissão,
uma das mais importantes para a democracia,
para induzir pensamentos, comportamentos e
interpretações em uma população que, muitas
vezes, desconhece os mecanismos de influência
e o poder do chamado gatekeeping na formação
das narrativas.
A teoria da comunicação já mostrou há
muito tempo que a imprensa não determina
exatamente o que as pessoas devem pensar, mas
influencia fortemente sobre o que elas irão pensar.
E isso traz uma responsabilidade gigantesca para
quem escolhe quais assuntos terão destaque e
quais serão deixados em segundo plano.
No fim das contas, talvez o verdadeiro
papel do jornalista não seja apenas informar sobre o espetáculo, mas garantir que o espetáculo não
seja usado para esconder a realidade.
O gênero textual caracteriza-se pela situação
comunicativa da qual faz parte. Ciente disso, ao
analisar o texto intitulado O surto psicodélico da
Copa, de autoria de Neide Fischer, percebe-se
que se trata do gênero:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Errou um tema comum da banca? Veja o que mais costuma cair no Raio-X. Ver raio-X
teste
Parabéns! Você acertou!
Essa questão segue o padrão da banca! Veja o que mais costuma cair. Ver raio-X