O uso do vocábulo ‘carrinho’ (linha 14), no trecho em que oc...

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Q2723234 Português

Leia o texto que se segue e responda às questões de 1 a 10.


Degraus da ilusão


01 Fala-se muito na ascensão das classes menos favorecidas, formando uma “nova classe média”,

02 realizada por degraus que levam a outro patamar social e econômico (cultural, não ouço falar). Em teoria, seria

03 um grande passo para reduzir a catastrófica desigualdade que aqui reina.

04 Porém receio que, do modo como está se realizando, seja uma ilusão que pode acabar em sérios

05 problemas para quem mereceria coisa melhor. Todos desejam uma vida digna para os despossuídos, boa

06 escolaridade para os iletrados, serviços públicos ótimos para a população inteira, isto é, educação, saúde,

07 transporte, energia elétrica, segurança, água, e tudo de que precisam cidadãos decentes.

08 Porém, o que vejo são multidões consumindo, estimuladas a consumir como se isso constituísse um bem

09 em si e promovesse real crescimento do país. Compramos com os juros mais altos do mundo, pagamos os

10 impostos mais altos do mundo e temos os serviços (saúde, comunicação, energia, transportes e outros) entre

11 os piores do mundo. Mas palavras de ordem nos impelem a comprar, autoridades nos pedem para consumir,

12 somos convocados a adquirir o supérfluo, até o danoso, como botar mais carros em nossas ruas atravancadas

13 ou em nossas péssimas estradas.

14 Além disso, a inadimplência cresce de maneira preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho

15 a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo

16 vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.

17 Estamos enforcados em dívidas impagáveis, mas nos convidam a gastar ainda mais, de maneira

18 impiedosa, até cruel. Em lugar de instruírem, esclarecerem, formarem uma opinião sensata e positiva, tomam

19 novas medidas para que esse consumo insensato continue crescendo – e, como somos alienados e pouco

20 informados, tocamos a comprar.

21 Sou de uma classe média em que a gente crescia com quatro ensinamentos básicos: ter seu diploma, ter

22 sua casinha, ter sua poupança e trabalhar firme para manter e, quem sabe, expandir isso. Para garantir uma

23 velhice independentemente de ajuda de filhos ou de estranhos; para deixar aos filhos algo com que pudessem

24 começar a própria vida com dignidade.

25 Tais ensinamentos parecem abolidos, ultrapassadas a prudência e a cautela, pouco estimulados o desejo

26 de crescimento firme e a construção de uma vida mais segura. Pois tudo é uma construção: a vida pessoal, a

27 profissão, os ganhos, as relações de amor e amizade, a família, a velhice (naturalmente tudo isso sujeito a

28 fatalidades como doença e outras, que ninguém controla). Mas, mesmo em tempos de fatalidade, ter um pouco

29 de economia, ter uma casinha, ter um diploma, ter objetivos certamente ajuda a enfrentar seja o que for.

30 Podemos ser derrotados, mas não estaremos jogados na cova dos leões do destino, totalmente desarmados.

31 Somos uma sociedade alçada na maré do consumo compulsivo, interessada em “aproveitar a vida”, seja o

32 que isso for, e em adquirir mais e mais coisas, mesmo que inúteis, quando deveríamos estar cuidando, com

33 muito afinco e seriedade, de melhores escolas e universidades, tecnologia mais avançada, transportes muito

34 mais eficientes, saúde excelente, e verdadeiro crescimento do país. Mas corremos atrás de tanta conversa vã,

35 não protegidos, mas embaixo de peneiras com grandes furos, que só um cego ou um grande tolo não vê.

36 A mais forte raiz de tantos dos nossos males é a falta de informação e orientação, isto é, de educação. E o

37 melhor remédio é investir fortemente, abundantemente, decididamente, em educação: impossível repetir isso

38 em demasia. Mas não vejo isso como nossa prioridade.

39 Fosse o contrário, estaríamos atentos aos nossos gastos e aquisições, mais interessados num crescimento

40 real e sensato do que em itens desnecessários em tempos de crise. Isso não é subir de classe social: é

41 saracotear diante de uma perigosa ladeira. Não tenho ilusão de que algo mude, mas deixo aqui meu quase

42 solitário (e antiquado) protesto.


LUFT, Lya. Degraus da ilusão. Disponível em http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/lya-luft-vejo-multidoes-consumindo-estimuladas-a-consumircomo-se-isso-constituisse-um-bem-em-si-e-promovesse-real-crescimento-do-pais-isso-nao-e-subir-de-classe-social/. Acesso em 01 de setembro de 2013.

O uso do vocábulo ‘carrinho’ (linha 14), no trecho em que ocorre, está devidamente interpretado em:

Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor semântico-discursivo do diminutivo no contexto do período em que aparece. Em “Além disso, a inadimplência cresce de maneira preocupante, levando famílias que compraram seu carrinho a não ter como pagar a gasolina para tirar seu novo tesouro do pátio no fim de semana. Tesouro esse que logo vão perder, pois há meses não conseguem pagar as prestações, que ainda se estendem por anos.”, “carrinho” só se interpreta pelo encadeamento com inadimplência, custo de uso e perda do bem; por isso, o gabarito depende da leitura contextual da precariedade da posse, e não de tamanho ou afeto.

Tema central: sentido contextual do diminutivo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não usa “carrinho” para ofender pessoas pobres. O vocábulo recai sobre o objeto comprado, e a crítica da autora dirige-se ao consumo incentivado e às consequências econômicas dele, não a uma desqualificação ofensiva dos consumidores.
B
Errada
Está errada porque não há no trecho nenhum dado que autorize concluir que se trata de carro de pequeno porte. Ler o diminutivo apenas como indicação de tamanho ignora o contexto imediato de inadimplência, falta de recursos para usar o bem e perda do veículo.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque interpreta “carrinho” a partir do contexto imediato: as famílias compram o veículo, mas “não ter como pagar a gasolina” e “logo vão perder” o bem por não conseguirem pagar as prestações. Assim, o diminutivo participa da crítica à posse ilusória e economicamente frágil do carro dentro do consumo insensato denunciado no texto. Há, na formulação da alternativa, uma menção à intenção autoral; pela base, isso é mais seguramente sustentado como efeito de sentido contextual, mas ainda assim é a única leitura compatível com o trecho.
D
Errada
Está errada porque a presença da palavra “carros” em outro ponto do texto não anula o efeito de sentido de “carrinho” no trecho específico analisado. A escolha lexical tem relevância contextual e, ali, está vinculada à precariedade da posse do bem.
E
Errada
Está errada porque não há marca textual de carinho ou afeto pelas pessoas de baixo poder aquisitivo. Além disso, o termo refere-se ao bem material, não às pessoas, e surge em um contexto de denúncia da ilusão consumista, incompatível com leitura afetiva.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de associar automaticamente o diminutivo a tamanho reduzido ou afeto. Aqui, o sentido só se define pelo contexto de “inadimplência”, “não ter como pagar a gasolina” e “logo vão perder”.
Dica para questões semelhantes
  • Não atribua valor fixo ao diminutivo; confirme no contexto se ele indica tamanho, afeto, ironia, atenuação ou avaliação subjetiva.
  • Leia o período seguinte ao vocábulo destacado: muitas vezes é nele que o texto explica o efeito de sentido decisivo.
  • Se a palavra estiver em texto argumentativo, teste a interpretação pelo eixo temático central; aqui, a crítica é ao consumo ilusório e à fragilidade da posse do bem.

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