Nesse poema de Mia Couto, entre o poeta e a palavra, é estab...
TEXTO III
O poeta
O poeta não gosta de
palavras: escreve para se ver livre delas.
A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.
Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.
Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.
Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.
O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.
Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.
COUTO, Mia. Vagas e lumes. Lisboa: Editorial Caminho, 2014.
Nesse poema de Mia Couto, entre o poeta e a palavra, é estabelecida uma relação de
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Comentário – Interpretação de Texto (Mia Couto)
Tema central cobrado: Esta questão exige habilidade de interpretação de texto poético, mais especificamente a compreensão da relação entre o poeta e a palavra ao longo do poema.
Para esse formato de questão, a banca espera que o candidato localize elementos do texto, sem extrapolar seu sentido. O principal risco, muito comum em poesia, é interpretar por analogia pessoal ou fazer inferências indevidas.
Justificativa da alternativa A (correta):
A relação de confronto é explicitada desde o início: “O poeta não gosta de palavras: escreve para se ver livre delas.” Há tensão porque a palavra, longe de ser mero instrumento, impõe-se, limita e até “suja” ou “fere”: “cada palavra é um vidro em que se corta”; “a única veia que lhe dói é aquela que ele não sente” (no nível semântico, a palavra machuca e supera o poeta). Assim, o texto evidencia materialidade e até um certo poder da palavra sobre o poeta, que sai “sem invenção” ou diminuído (“torna o poeta pequeno”).
No plano da análise textual, é uma questão de relação semântica (conflito, oposição) entre sujeito (poeta) e objeto (palavra) – muito comum em questões de interpretação poética.
Análise das alternativas incorretas:
B) Rejeição: Erro semântico. Apesar do poeta dizer que “não gosta” de palavras, o poema não sugere rejeição absoluta ou morte literal; há pelo contrário, uma coexistência conflituosa. A banca usa aqui a extrapolação e literalização como armadilha típica.
C) Reciprocidade: Erro de sentido. Não há reciprocidade: não se vê desejo mútuo ou liberdade para ambos, mas uma tensão unilateral, em que o poeta se sente dominado ou ferido pela palavra.
D) Efemeridade: Erro de interpretação. Efemeridade refere-se ao passageiro, ao que dura pouco. No texto, há “sujar” e “apagar”, mas esses verbos não traduzem ideia de temporalidade limitada; reforçam mais a agressividade da palavra.
Estratégia para questões assim: Não se apegue apenas a termos isolados; busque o campo semântico construído. Observe verbos de comando (“relacione”, “caracteriza”) e termos absolutos ou hiperbolizados, que geralmente ocultam pegadinhas.
Referência normatizada: questões de interpretação textual baseiam-se na relação lógica estabelecida pelo texto (Bechara, “Modos de compreensão textual”).
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