Genética da orquídea-da-praia favorece tolerância
a mudanças climáticas
A orquídea-da-praia (Epidendrum fulgens) não é como a
maioria das orquídeas, que vive sobre galhos e troncos de
árvores em florestas úmidas. Na forma de touceira com
1 metro de altura e cachos de flores amarelas, laranja e
vermelhas, ela cresce em restingas e dunas, onde o sol é
intenso e a areia seca é pobre em nutrientes. Uma equipe
de pesquisadores brasileiros e norte-americanos sequenciou
o genoma completo da planta e identificou mais de mil grupos de genes exclusivos dessa espécie relacionados a características fisiológicas que podem contribuir para respostas
a uma variedade de estressores ambientais, segundo artigo
publicado em março na revista científica Genome Biology
and Evolution.
“O que torna a planta mais resistente a condições
extremas é o grande número de cópias de cada um desses
genes”, observa o biólogo Fábio Pinheiro, da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp), coautor do artigo. Cada
conjunto de cópias forma o que os pesquisadores chamam
de família de genes.
“Cada gene pode sofrer pequenas modificações no processo de cópia, aumentando a variabilidade genética”, ressalta Pinheiro. O trabalho foi baseado em uma única planta da praia de Prumirim, no município de Ubatuba, no litoral
paulista. Os pesquisadores identificaram esses genes depois
de concluída a leitura completa do genoma, recurso usado
com frequência no melhoramento genético de plantas de interesse comercial, mas pouco adotado em estudos de espécies nativas.
“Essas espécies nos ajudaram a localizar genes semelhantes e entender a estrutura do genoma da orquídea-da-praia”, ressalta Pinheiro. Os pesquisadores também usaram
como referência o genoma do arroz (Oryza sativa) e da arabeta (Arabidopsis thaliana), muito usada como modelo em
estudos de fisiologia vegetal. “Apesar de mais distantes evolutivamente, essas plantas compartilham trechos de DNA que
servem como referência mais ampla da estrutura do genoma”, observa Pinheiro.