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Q3771366 Português
Letra e melodia

Cinco crianças se sentavam para assistir ao seriado favorito no tapete da sala, e eu era uma delas. Não lembro uma cena marcante sequer, mas a música de abertura está tatuada em minha mente. A letra dizia: "Ei, criança, não venda seus sonhos tão cedo. Pra onde você olhar haverá um coração, alguém para dar a mão". Só descobri seu sentido mais de uma década depois, quando aprendi um pouco de inglês.

Sempre me considerei do grupo que gosta da poesia dos versos, e me espanto ao perceber que já amava algumas músicas muito antes de saber sobre o que elas falavam. Minha mãe sempre foi fã dos hits dos anos 80 e 90, o tipo de música que todo mundo na minha família gosta. Ninguém precisa entender qualquer língua para sentir um arrepio com os acordes iniciais de Africa, do Toto.

Essa música, minha preferida, remete a tardes com minha mãe, quando eu não entendia nada do que dizia — e ainda assim já a amava. Crescer foi descobrir que essas canções tinham belas melodias e mensagens com as quais muitos podem se identificar.

Às vezes acontece o contrário: você descobre que a música que amava fala um bocado de abobrinhas. Outras, porém, revelam sentidos ainda melhores. Quem não achava a melodia de "Como nossos pais" bonita quando era pequeno? Mas talvez só alguém mais velho entenda a dor de Elis e Belchior no verso "eu sinto tudo na ferida viva do meu coração".

Talvez bom mesmo seja isso: amar algo mesmo sem compreendê-lo, permitir que desperte afeto, como uma criança que se apaixona pela melodia sem fazer ideia do que ela diz.

Texto Adaptado


PETROPOULEAS, Suzana Correa. Letra e melodia. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/7 30/648/2404 . Acesso em: 16 nov. 2025.
Com base na leitura analítica do texto "Letra e melodia", avalie as afirmativas a seguir quanto à presença de ideias implícitas, inferência e construção argumentativa.

I.Ao revelar a descoberta tardia do sentido da canção da infância, o narrador expõe uma contradição entre experiência estética e compreensão racional, sugerindo que a linguagem musical transcende os limites do entendimento literal.

II.O vínculo entre a canção "Africa", do Toto, e a memória afetiva da infância permite inferir que a música opera como mecanismo de evocação emocional, ainda que seu conteúdo semântico seja desconhecido pelo sujeito.

III.A crítica velada às canções com "letras de abobrinha" denuncia uma visão elitista da produção musical popular, sugerindo que o apreço musical legítimo requer sofisticação lírica e maturidade interpretativa.

IV.A menção à canção "Como nossos pais", associada à dor compreendida apenas com o tempo, sugere que a profundidade poética de certos textos musicais exige a vivência do sofrimento para que se revele por completo.


É correto o que se afirma em:
Alternativas

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Muito bem, vamos analisar:

I. VERDADEIRA O texto claramente apresenta essa contradição: a narradora amava a música da infância sem entender seu significado ("Só descobri seu sentido mais de uma década depois"). Ela também afirma: "já amava algumas músicas muito antes de saber sobre o que elas falavam" e "Ninguém precisa entender qualquer língua para sentir um arrepio". Isso demonstra que a experiência estética (o amor pela música) existia independentemente da compreensão racional (entender a letra).

II. VERDADEIRA O texto é explícito: "Essa música, minha preferida, remete a tardes com minha mãe, quando eu não entendia nada do que dizia — e ainda assim já a amava." A música funciona como gatilho de memória afetiva ("remete a tardes com minha mãe"), mesmo sem compreensão semântica. Isso confirma que a música opera como mecanismo de evocação emocional.

III. FALSA Esta é a pegadinha. O texto NÃO apresenta uma "crítica velada" ou "visão elitista". Observe o tom: "Às vezes acontece o contrário: você descobre que a música que amava fala um bocado de abobrinhas. Outras, porém, revelam sentidos ainda melhores."

O uso de "abobrinhas" é coloquial e descontraído, não crítico ou elitista. Além disso, a conclusão do texto é justamente o OPOSTO de exigir sofisticação: "Talvez bom mesmo seja isso: amar algo mesmo sem compreendê-lo". A narradora defende o valor da experiência musical pré-racional, como a criança que se apaixona pela melodia.

IV. VERDADEIRA O texto sugere que a compreensão plena da dor em "Como nossos pais" requer maturidade: "talvez só alguém mais velho entenda a dor de Elis e Belchior no verso 'eu sinto tudo na ferida viva do meu coração'". A palavra "talvez" indica inferência (ideia implícita), e a conexão entre idade/vivência e compreensão emocional está claramente sugerida.

A afirmativa III é incorreta porque interpreta erroneamente o tom do texto como elitista, quando na verdade ele celebra a experiência musical intuitiva e afetiva, independentemente da compreensão intelectual das letras.

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I, II e IV, apenas. 

Letra A.

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