O sentido de "É para segmentar as castas." (parágrafo quarto...

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Q4409942 Não definido
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O papel higiênico da empregada


   Quando eu era criança, criancinha mesmo, achava quе todo mundo era do bem. Até que comecei a crescer e descobri que nem tanto assim. Lembro que, ainda menina, foi um choque quando descobri que as pessoas mentiam, engavam, eram agressivas. Não estou falando de bandidos da tevê, e sim de garotas da minha aula, vizinhos, gente conhecida. Eu ficava confusa. Fulana era generosa com as amigas e, ao mesmo tempo, estúpida com a própria mãe. Beltrana ia à missa todo domingo e nos outros dias remexia na mochila dos colegas para roubar material escolar. Sicrana era minha amigona na quarta-feira e na quinta me virava o rosto, por nada. Eu chegava em casa, pedia explicações pra família e recebia como resposta: bem-vinda ao planeta Terra.

   Eu queria o impossível: olhar para uma pessoa e saber o que poderia esperar dela. Seria do bem? Do mal? Viria a me decepcionar? Todas as pessoas decepcionam uma vez a outra, todas cometem erros, mas eu queria encontrar alguma espécie de comportamento-padrão que me desse uma pista segura sobre com quem eu estava lidando. Até que, certo dia, fui à casa de uma colega para estudar. De repente, precisei ir ao banheiro. Só havia um no apartamento, e ocupado. Eu estava apertada. Apertadissima. Minha amiga sugeriu que eu usasse o banheiro da empregada, topei na hora. E lá descobri que o papel higiênico da empregada era diferente do papel usado pelos outros membros da família. Era mais áspero. Parecia uma lixa. Muito mais barato.

   Era um costume, e talvez seja até hoje: comprar um tipo de papel higiênico para a família e outro, de pior qualidade, para o banheiro de serviço. Eis ali a pista que eu inocentemente buscava para descobrir a indole das pessoas.

   Hoje, adulta, sei que descobrir a índole de alguém é um processo muito mais complexo, mas ainda me surpreendo que algumas pessoas façam certas diferenciações. O relacionamento entre empregados e patrões ainda é uma maneira de perceber como certos preconceitos seguem bem firmes. Não é por economia que se compra papel higiênico mais barato para a empregada, por mais que seja este o argumento usado por quem o faz. É para segmentar as castas. É para manter a hierarquia. É pela manutenção do poder.

  As pessoas querem tanto acabar com as injustiças sociais, e às vezes não conseguem mudar pequenas regras dentro da sua própria casa. Cada um de nós tem um potencial revolucionário que pode se manifestar por meio de pequenos gestos. Comprar o mesmo papel higiênico para todos, quem diria, também é uma maneira de lutar por um mundo melhor. 


(MEDEIROS, Martha. O meu melhor. São Paulo: Planeta do Brail, 2019. p. 157/158.)
O sentido de "É para segmentar as castas." (parágrafo quarto), no texto é:
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