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    01
    Q483083
    Ano: 2014
    Banca: INAZ do Pará
    Órgão: BANPARÁ
    Prova: Contador
    Vocações
    Luís Fernando Veríssimo.
    Todos diziam que a Leninha, quando crescesse, ia ser médica. Passava horas brincando de médico com as
    bonecas. Só que, ao contrário de outras crianças, quando largou as bonecas, não perdeu a mania. A primeira
    vez que tocou no rosto do namorado foi para ver se estava com febre. Só na segunda é que foi com carinho.
    Ia porque ia ser médica. Só tinha uma coisa. Não podia ver sangue.
    “Mas, Leninha, como é que...”
    “Deixa que eu me arranjo.”
    Não é que ela tivesse nojo de sangue. Desmaiava. Não podia ver carne malpassada. Ou ketchup. Um
    arranhãozinho era o bastante para derrubá-la. Se o arranhão fosse em outra pessoa ela corria para socorrê-la
    – era o instinto médico – , mas botava o curativo com o rosto virado.
    “Acertei? Acertei?”
    “Acertou o joelho. Só que é na outra perna!”
    Mas fez o vestibular para medicina, passou e preparou-se para começar o curso.
    “E as aulas de Anatomia, Leninha? Os cadáveres?”
    “Deixa que eu me arranjo.”
    Fez um trato com a Olga, colega desde o secundário. Quando abrissem um cadáver, fecharia os olhos. A
    Olga descreveria tudo para ela.
    “Agora estão no fígado. Tem uma cor meio...”
    “Por favor. Sem detalhes.”
    Conseguiu fazer todo o curso de medicina sem ver uma gota de sangue. Houve momentos em que precisou
    explicar os olhos fechados.
    “É concentração, professor.”
    Mas se formou. Hoje é médica, de sucesso. Não na cirurgia, claro. Se bem que chegou a pensar em convidar
    a Olga para fazerem uma dupla cirúrgica, ela operando com o rosto virado e a Olga dando as coordenadas.
    “Mais para a esquerda... Aí. Agora corta!”
    Está feliz. Inclusive se casou, pois encontrou uma alma gêmea. Foi num aeroporto. No bar onde foi tomar um
    cafezinho enquanto esperava a chamada para o embarque puxou conversa com um homem que parecia
    muito nervoso.
    “Algum problema?” – perguntou, pronta para medicá-lo.
    “Não” – tentou sorrir o homem. “É o avião...”
    “Você tem medo de voar?”
    “Pavor. Sempre tive.”
    “Então por que voa?”
    “Na minha profissão é preciso.”
    “Qual é a sua profissão?”
    “Piloto.”
    Casaram-se uma semana depois.
    Na passagem “Não é que ela tivesse nojo de sangue”, a expressão de sangue está funcionando sintaticamente como:

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