Leia o texto a seguir para responder à questão.
A raça superior
A espécie humana acredita ser a única inteligente.
Puro engano. Há tempos imemoriais nós, os
humanos, fomos derrotados por uma raça superior,
muito mais esperta. Mais que derrotados, fomos
domesticados. Pelos cachorros.
De fato, sob qualquer índice de avaliação, a raça
canina se mostra superior. Quem convive com um
cão gosta de dizer que é “dono”. Como acreditar, se
tudo prova que o cachorro é dono do homem? Na
questão da alimentação, por exemplo.
Qualquer pessoa gasta dinheiro e tempo para
comprar ração. Analisa os vários tipos e até
experimenta uns pedacinhos para avaliar o sabor.
Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de
degustação ao cachorro. Compra imitações de
borracha. Indústrias pesquisam novas rações
nutritivas.
Gastam uma fábula em propaganda. Ou seja: sem
levantar uma pata, o cachorro faz com que os seres
humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e
dinheiro simplesmente para alimentá-los! Certa vez
tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com
cenoura e carne moída. Estava sem empregada.
Durante um mês levantava uma hora antes,
preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar,
servia uma nova refeição e lavava o prato. Em troca,
ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da
felicidade só de receber essas lambidinhas! Seja dita
a verdade: quem era dono de quem?
E na questão amorosa? Quando gosta, de alguém, o
cão abana o rabo.
Pode ser um desconhecido. Gostou, abanou. Quando
está a fim, deita-se de patas para cima e lança um
olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não
resiste a dar carinho, coçar as orelhas, fazer uns
afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar
me oferecendo. Vontade não faltou, mas e a
coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios.
Gastamos dinheiro em perfumes, em cabeleireiros,
em dermatologistas. Vamos a happy hours, jantares,
festas, barzinhos da moda, entramos em chats da
internet, só para achar quem nos coce as orelhas. Se
alguém faz festa para todo mundo que conhece,
rebolando como um cãozinho, vem o veredicto:
— Ih! Está com carência afetiva.
Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a
analisar a pura vontade de buscar amor! Revistas
dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução.
Como olhar de lado, como sorrir, como se oferecer
sem dar na vista.
Mais: como ter coragem de expressar os sentimentos.
Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes,
com ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao
contrário, sorri simpaticamente enquanto o sangue
fervia. Cães não possuem esse tipo de
constrangimento. Atiram-se em cima do rival. Mordem
a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu
quinhão de afeto. Mas também não guardam raiva.
Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem
pulando e brincando juntos.
Que espécie sabe lidar melhor com as próprias
emoções?
A questão da pele também é importante. Criamos
indústrias do vestuário porque não estamos
satisfeitos com a própria pele, e inventamos
estratagemas para cobri-la. Boa parte da humanidade
se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender
roupas. Qualquer pessoa ambiciona se vestir bem.
Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas.
A moda vira, e toca a gastar tudo outra vez.
Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se quanto
delírio, quanta mão de obra seria evitada se o ser
humano tivesse a mesma tranquilidade a respeito da
própria aparência.
Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias,
escrevemos livros. Há quem faça ioga, meditação.
Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O
cão já nasce aceitando. A vida é e não é, deve pensar
o cão, com a, sabedoria de um mestre zen. É o que
constato todo dia ao chegar em casa exausto do
trabalho, de mau humor com o chefe, com a fatura do
cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque
especial batendo as folhas em torno de minhas
orelhas como uma ave de rapina.
Sento na varanda e meu cachorro se aproxima: Sem
nenhuma preocupação na vida. Deita-se aos meus
pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de
carinho. Eu me submeto. Raça superior é isso aí.
(Disponível em: https://www.refletirpararefletir.com.br/4-cronicasdo-walcyr-carrasco)