Questões de Concurso Público Prefeitura de Tailândia - PA 2019 para Nível Fundamental Completo

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Q4415894 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
O título "Água para o além" deve-se:
Alternativas
Q4415895 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Não identifica o sujeito da oração:
Alternativas
Q4415896 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas (...)". O conectivo "Se" dá sentido de:
Alternativas
Q4415897 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Os parênteses, no parágrafo (5), foram usados para:
Alternativas
Q4415898 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
No último parágrafo, os travessões destacam um:
Alternativas
Q4415899 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"'Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforos usado?',indignava-se.". O provável objetivo do teste à candidata ao emprego foi: 
Alternativas
Q4415900 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Não está correto o significado da palavra em:
Alternativas
Q4415901 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Asílaba tônica difere de "nenhum" em:
Alternativas
Q4415902 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato.". O conectivo que não poderia substituir"porém" no excerto é:
Alternativas
Q4415903 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
As palavras destacadas não se referem às almas do outro mundo: 
Alternativas
Q4415904 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
O acento grave não está correto como em "Venho à tarde (...)":
Alternativas
Q4415905 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
O termo "Consagrada" em: "Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério (...)" concorda nominalmente com: 
Alternativas
Q4415906 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"À época, não se identificaram dezenas de cadáveres (...)". A voz verbal exemplificada pelo excerto é:
Alternativas
Q4415907 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Para evitar repetições, os escritores utilizam estruturas diversa como em: "O calor, idem.". Alternativa em que consta o termo que "idem" substitui: 
Alternativas
Q4415908 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Sobre o excerto "O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.", é correto afirmar:
Alternativas
Q4415909 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
'Refrescar as almas' que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam.". Sobre a estrutura é incorreto afirmar:
Alternativas
Q4415910 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Assinale o fragmento que justifica a frase: "Somente Deus conhece seus nomes."
Alternativas
Q4415911 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"(...)e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras (...)". "Comuns" é adjetivo, então, sintaticamente, "às religiões" classifica-se como:
Alternativas
Q4415912 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Afrase em que não há sentido conotativo está em:
Alternativas
Q4415913 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório (...)". O emprego do acento grave deve-se:
Alternativas
Respostas
1: C
2: B
3: A
4: A
5: B
6: C
7: C
8: D
9: A
10: D
11: B
12: D
13: B
14: A
15: C
16: D
17: B
18: C
19: B
20: C