Questões de Concurso
Sobre tipologia textual em português
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INSTRUÇÃO: A questão refere-se ao texto abaixo.
Qual é a origem da palavra “tarifa”?

(Disponível em: super.abril.com.br/historia/qual-e-a-origem-da-palavra-tarifa/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Emoção em família: mãe e filha se formam juntas na faculdade
As britânicas Vicki Lawlor, de 43 anos, e sua filha Hannah, de 21, se formaram juntas na Universidade de Stirling, na Escócia, nessa semana (06/2021). A emoção de receber o diploma ao mesmo tempo levou mãe e filha a planejar uma festa no jardim de sua casa para comemorar a dupla conquista. Em entrevista ao Daily Mail, Vicki disse: “É uma coincidência estarmos nos formando juntas. Levei um pouco mais de tempo do que Hannah para concluir meu curso e não foi uma jornada fácil, mas tê-la ao meu lado e compartilhar experiências semelhantes de cumprimento de prazos e conclusão de tarefas foi muito gratificante”. Vicki concluiu o bacharelado em Ciências, enquanto Hannah se formou como bacharel em Artes.
Disponível em: https://entretenimento.r7.com/virtz/fotos/emocao-emfamilia-mae-e-filha-se-formam-juntas-na-faculdade-25062021/. Acesso em: 4 jul. 2026.
Considerando a estrutura e a linguagem empregadas no texto, a finalidade da mensagem é a de
Considere o fragmento a seguir para a questão:
Os modelos familiares ao longo da história foram se alterando por diversos motivos socioculturais. Perceber essas mudanças é de extrema importância para compreender os modelos atuais de família. Inicialmente a família não se importava com seus filhos, eram apenas frutos de uma relação sexual; contudo, a criança acaba marcando seu espaço, e a família passa por uma reestruturação. Ao olhar para esta criança, a família se reinventa e se assenta num modelo aristocrático, onde o pai é o provedor. Com a industrialização, a família passa por outras alterações e aí se reestrutura de forma a privilegiar a privacidade e formas sociais de convivência em massa. Com a emancipação da mulher, um novo cenário se instala, e a família tenta encontrar seu modelo, pois, com a autonomia feminina, o pai perde sua autoridade, e o modelo tradicional de pai, mães e filhos dá lugar a uma verdadeira desordem de estrutura, na qual a vivência dos desejos individuais é evidenciada. E, frente a esse panorama, o conceito de família fica frágil, e generalizá-lo é impossível.
Fonte: https://revistaft.com.br/o-modelo-familiar-nos-dias-atuais-uma-releitura-do-conceito-de-familia/ (adaptado)
A Casa do Silêncio
O menino descobriu cedo que a janela era maior que o mundo.
Por ela, via nuvens que se inventavam de animais, de barcos, de gigantes. O céu lhe contava histórias que ninguém mais parecia ouvir.
A mãe, sempre apressada, dizia:
— Menino, larga essa janela, o mundo não se cabe aí!
Mas o menino sabia que a mãe se enganava. A janela era feita de silêncio, e no silêncio cabia tudo.
Quando o vento brincava com a cortina, ele acreditava que o tempo queria entrar. Estendia a mão, mas o tempo nunca se deixava segurar.
O pai, atrás do jornal, ria da distração do filho:
— Esse menino não vai crescer se viver de olhar o nada.
Mas o menino entendia que o nada era cheio de segredos.
Certa manhã, um pássaro pousou no fio. O bico aberto parecia uma palavra que não queria nascer.
E o menino aprendeu, sem professor algum, que nem todo canto precisava de som.
Anos se passaram.
Já homem, voltou à casa.
A janela estava menor, o vidro um pouco embaçado, a cortina cansada de tanto vento. Mas, ao abri-la, o mesmo pássaro — ou outro que o destino escolheu — pousava ali, silencioso.
O homem sorriu.
Percebeu, então, que não era ele quem olhava o mundo pela janela.
Era a janela que, desde sempre, olhava dentro dele.
(TORRES, Samuel – Bartolomeu C. Queiroz na escrita jovem – Ed. Literíssima; p.30)
Texto para a questão.
O RELÓGIO QUE INTERROMPEU A PRAÇA
Às 14h17 de uma terça-feira, o relógio da praça parou. Nenhum estrondo anunciou o defeito, nenhuma engrenagem caiu sobre os bancos e ninguém pareceu perceber o silêncio dos ponteiros. Na manhã seguinte, porém, moradores que habitualmente atravessavam o lugar sem levantar os olhos passaram a consultar o mostrador imóvel. Era como se esperassem que o relógio confirmasse, por conta própria, a notícia de sua inutilidade.
Durante anos, ele fora obedecido sem ser propriamente observado. Indicava a hora das lojas, apressava estudantes e advertia os atrasados, mas permanecia tão integrado à paisagem quanto as árvores e o calçamento. Bastou que deixasse de funcionar para adquirir biografia: alguns se lembraram de quando fora instalado; outros discutiram se já atrasava antes da pane. O defeito, que duraria quatro dias, transformou um mecanismo discreto em assunto coletivo.
A prefeitura afixou no pedestal um aviso: “Informamos que o equipamento se encontra temporariamente indisponível para a marcação das horas.” A frase não continha erro e descrevia com precisão o estado do relógio; ainda assim, parecia incapaz de responder à pergunta que todos realmente faziam: quando ele voltaria a funcionar? Esse descompasso entre correção formal e utilidade comunicativa fez do aviso uma segunda atração da praça.
Um comerciante reclamou que, sem o relógio, os clientes demoravam mais diante das vitrines. Uma criança perguntou se o tempo também havia parado nas ruas vizinhas. Já o homem encarregado do conserto limitou-se a dizer que uma peça precisaria ser substituída. Cada pessoa explicava a pane com os instrumentos de que dispunha: o comerciante calculava seus efeitos, a criança ampliava suas possibilidades e o técnico delimitava suas causas.
Na sexta-feira, os ponteiros voltaram a avançar. Não houve cerimônia, mas algumas pessoas permaneceram diante do relógio até que o primeiro minuto se completasse. O conserto devolveu movimento ao mecanismo; não devolveu, porém, à praça a antiga indiferença. Por alguns dias, quem passava por ali olhava simultaneamente para a hora e para os demais observadores.
Não se tratava de elogiar o defeito. Serviços públicos existem para funcionar, e a eficiência não precisa do espetáculo da falha para ser reconhecida. O episódio apenas revelou algo menos evidente: certos objetos organizam silenciosamente a vida comum. Embora quase desapareçam quando cumprem bem sua finalidade, tornam-se visíveis quando falham — e, às vezes, também tornam visível a comunidade que se formou ao redor deles.
Texto autoral, elaborado especialmente para esta prova.
A classificação de um texto deve considerar a função exercida pelas diferentes sequências discursivas em sua organização global. Assim, a presença de acontecimentos não impede que uma narrativa desenvolva reflexão argumentativa, da mesma forma que a reprodução de diferentes falas pode contribuir para a construção temática.
Analise as afirmativas:
I. A paralisação e o posterior conserto do relógio formam o eixo narrativo responsável pela progressão temporal do texto.
II. As reações do comerciante, da criança e do técnico funcionam como perspectivas distintas sobre o mesmo acontecimento.
III. O último parágrafo assume função argumentativa ao afastar uma possível valorização da falha e explicitar a reflexão extraída do episódio.
IV. A fala do técnico estabelece uma explicação objetiva que prevalece sobre as interpretações dos demais personagens e determina a finalidade expositiva do texto.
Está correto o que se afirma em:
TEXTO PARA A QUESTÃO.
O desafio da convivência em uma sociedade conectada.
Nunca a humanidade produziu e compartilhou tantas informações quanto na atualidade. Em poucos segundos, notícias atravessam continentes, opiniões se multiplicam nas redes sociais e acontecimentos locais tornam-se conhecidos em escala mundial. Paradoxalmente, essa facilidade de comunicação não tem sido suficiente para fortalecer o diálogo entre as pessoas. Em muitos casos, observa-se justamente o contrário: opiniões divergentes passam a ser tratadas como ofensas pessoais, o respeito cede espaço à intolerância e o debate perde qualidade.
Nesse contexto, torna-se evidente que o acesso à informação, embora indispensável, não garante, por si só, uma convivência democrática. Saber ouvir, interpretar diferentes pontos de vista e fundamentar argumentos com responsabilidade constituem habilidades tão importantes quanto dominar tecnologias ou acumular conhecimentos técnicos. Afinal, a informação somente produz transformação quando é acompanhada de reflexão crítica.
A escola, por sua vez, desempenha papel essencial na formação de cidadãos capazes de exercer a participação social de forma ética e consciente. Mais do que transmitir conteúdos, ela deve promover experiências que desenvolvam a autonomia intelectual, o pensamento crítico e o respeito às diferenças. Esse compromisso ultrapassa os limites da sala de aula, pois prepara indivíduos para enfrentar desafios sociais cada vez mais complexos.
Assim, em uma sociedade marcada pela velocidade das mudanças, o verdadeiro diferencial não está apenas na quantidade de informações disponíveis, mas na capacidade de utilizá-las com discernimento, responsabilidade e compromisso com o bem coletivo. O desenvolvimento de uma comunidade mais justa depende menos da tecnologia em si e muito mais da forma como as pessoas escolhem agir diante dela.
No último parágrafo, o autor afirma que:
"O desenvolvimento de uma comunidade mais justa depende menos da tecnologia em si e muito mais da forma como as pessoas escolhem agir diante dela."
A principal estratégia argumentativa utilizada nesse trecho consiste em:
Texto: BRASIL TEM MENOR TAXA DE ANALFABETISMO DA SÉRIE HISTÓRICA EM 2025
Pesquisa do IBGE mostra queda no analfabetismo, mas desigualdades entre regiões, faixas etárias e grupos raciais seguem marcantes
O Brasil tinha, em 2025, 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais de idade analfabetas, o que representa uma taxa de 4,9%. Em relação a 2024, houve queda de 0,4 ponto percentual, com redução de cerca de 592 mil pessoas no país.
Em nove anos, o índice nacional recuou de 6,7%, em 2016, para 4,9%, em 2025, alcançando o menor patamar da série histórica iniciada naquele ano. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2025, divulgada pelo IBGE.
A Região Nordeste concentrava 57,4% do total de analfabetos do país, com 4,8 milhões de pessoas. O analfabetismo também atingia principalmente a população idosa: havia 4,8 milhões de analfabetos com 60 anos ou mais, o equivalente a 14,9% desse grupo etário.
Entre pessoas com 60 anos ou mais, pretos ou pardos tinham taxa de analfabetismo de 20,6%, quase três vezes a de brancos, de 7,3%. Quando se considera a população de 15 a 59 anos, a taxa cai para 2,6%, sinalizando maior acesso à escolarização nas gerações mais jovens.
Em 2025, a taxa de analfabetismo entre mulheres de 15 anos ou mais foi de 4,6%, ante 5,2% entre os homens. Na população com 60 anos ou mais, as mulheres passaram a ter índice menor que o dos homens, com 13,7% contra 14,1%, indicando avanço histórico na escolarização feminina.
Entre as pessoas de 25 anos ou mais, 59,4% das mulheres e 55,2% dos homens haviam concluído ao menos a educação básica obrigatória. Já entre brancos, 64,9% tinham completado esse ciclo, contra 51,3% entre pretos ou pardos, diferença de 13,6 pontos percentuais que ainda mostra desigualdade educacional relevante.
No caso das crianças de 0 a 3 anos que não frequentavam creche, a principal justificativa dos pais ou responsáveis foi a decisão da própria família. A falta de escola ou creche na localidade, ausência de vaga ou recusa por idade também apareceram entre os motivos mais citados.
Entre jovens de 14 a 29 anos, 7,7 milhões não haviam concluído o ensino médio em 2025. A maior razão apontada para abandono ou nunca ter frequentado a escola foi a necessidade de trabalhar, seguida por falta de interesse em estudar, gravidez e problemas de saúde.
O país tinha ainda 46,6 milhões de jovens de 15 a 29 anos, dos quais 17,5% não trabalhavam, não estudavam e nem frequentavam curso de qualificação profissional. O percentual caiu em relação a 2019, mostrando melhora, embora o desafio de inclusão educacional e produtiva siga relevante. (com informações de Ana Cristina Campos, da Agência Brasil)
Fonte: https://www.jb.com.br/brasil/educacao/2026/06/1060021-brasil-reduz-taxa-de-analfabetismo-para-49-em-2025-diz-ibge.html. Acesso em 21/06/2026. Texto adaptado.
Diagnóstico do câncer: estamos diante da próxima grande transformação?
Por Fernando Maluf

(Disponível em: forbes.com.br/colunas/2026/07/diagnostico-do-cancer-estamos-diante-da-proxima-grandetransformacao/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Leia o fragmento de “Canto de Curundingo” para responder à questão:
Sshhhhh...! Vem aí Curundingoooo...!!! Sshhhhh... Cala a boca, agacha, baixa a cabeça, rápido...! para que ele não lhe crave os olhos sombrios e você morra aí mesmo...!
Não olhe para ele: seus dentes são amarelos, e ele fede a mijo e sangue.
Não lhe dê ouvidos: ele saiu do inferno, e centenas de demônios vêm rastejando e gritando atrás dele.
Não fale com ele: porque ele vai rasgar sua pele com unhas pretas e afiadas enquanto você dorme...
Sshhhh, vamos lá...! de seus braços curvos saem pelos e garras que cavam a terra. Passa pelo batey * como um vapor, entre assobios e grilhões que estremecem a noite.
Os que estão na Senzala escutam e cobrem a cabeça com um pedaço de pano em meio a calafrios. Eles colocam seus deuses e patuás atrás da porta para defendê-los. Se amontoam perto um do outro para se sentirem a salvo.
Sshh... Todo mundo o teme. Até os cães que sempre o seguem, fiéis e tão imundos quanto ele.
– Curundingo... Curundingooooo... – fala na penumbra.
– Curundingoo... – rugem os trovões quebrando a escura abóbada celeste.
Curiundingo Capataz, filho de escrava e estuprador. Procriado como os cães que caçavam fugitivos. Comendo no chão, dormindo no matagal. Ninguém amou ou cuidou dele e, de repente, a criança suja e abandonada tornou-se Curundingo, o monstro, o Capataz.
(Teresa Cárdenas, Awon Baba, 2022. Adaptado)
* Batey: designação, em Cuba, do lugar onde ficam as casas, as oficinas e o comércio açucareiro central.
Cidade de Goiânia, Brasil, setembro de 1987: dois papeleiros encontram um tubo de metal num terreno baldio. Quebram-no a marretadas e descobrem uma pedra de luz azul. A pedra mágica transpira luz, azulece o ar e dá fulgor a tudo o que toca.
Os papeleiros partem em pedaços essa pedra de luz e os oferecem aos vizinhos. Quem passa a pedra na pele, brilha à noite. O bairro todo é uma lâmpada. O pobrerio, subitamente rico de luz, está em festa.
No dia seguinte, os papeleiros vomitam. Comeram manga com coco, será por isso? Mas todo o bairro vomita e todos estão inchados, com queimaduras. A luz azul queima, devora, mata, e se dissemina levada pelo vento, pela chuva, pelas moscas, pelos pássaros.
Foi uma das maiores catástrofes nucleares da história. Muitos morreram e muitos ficaram inutilizados para sempre. Naquele bairro do subúrbio de Goiânia ninguém sabia o que significava radioatividade e ninguém jamais ouvira falar em césio 137.
Um mês depois da tragédia, o chefe da Polícia Federal em Goiás declarou:
– A situação é absurda. Não existe ninguém responsável pelo controle da radioatividade que se usa para fins medicinais.
(Eduardo Galeano, De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, 2020. Adaptado)
( ) Predomina no texto a tipologia narrativa, caracterizada pela presença de um narrador que descreve a evolução de teorias econômicas ao longo do tempo.
( ) A citação às disciplinas de economia, ciência política e sociologia no segundo parágrafo do texto atua como ideia secundária, cuja função é explicitar o caráter interdisciplinar do institucionalismo.
( ) O texto responde de forma oposta à provocação do título, sustentando que a governança nacional constitui um entrave burocrático que desacelera a expansão econômica dos países.
Qual alternativa preenche, CORRETAMENTE, de cima para baixo, os parênteses acima?
Leia o texto a seguir para responder à questão
O piquenique das tartarugas
A família de tartarugas decidiu sair para um piquenique, e, por serem naturalmente lentas, levaram alguns dias para prepararem-se para seu passeio. Finalmente a família de tartarugas saiu de casa para procurar um lugar apropriado, e durante o segundo dia da viagem encontraram o lugar ideal!
Elas levaram algumas horas para limpar a área, desembalaram a cesta de piquenique e terminaram os arranjos. Quando elas estavam prontas pra comer, descobriram que tinham esquecido o sal. Poxa, todas concordaram que um piquenique sem sal seria um desastre, e, após uma longa discussão, a tartaruga mais nova foi escolhida para voltar em casa e pegar o sal, pois era a mais rápida das tartarugas.
A pequena tartaruga lamentou, chorou e esperneou, mas concordou em ir com uma condição: que ninguém comeria até que ela retornasse. A família concordou e a pequena tartaruga então saiu para buscar o sal.
Três dias se passaram e a pequena tartaruga ainda não havia retornado. Cinco dias... Seis dias... Então, no sétimo dia, a tartaruga mais velha, que já não aguentava de tanta fome, anunciou que ia comer, e começou a desembalar um sanduíche.
Quando ela deu a primeira “dentada” no sanduíche, a pequena tartaruga saiu de trás de uma árvore e gritou:
— Ahhãããããã! Eu tinha certeza que vocês não iam me esperar. Agora é que eu não vou mesmo buscar o sal! (...)
FABOSSI, Marco. O piquenique das tartarugas. Blog da
liderança.
Disponível em: https://www.blogdofabossi.com.br/2010/03/0-piquenique-das-tartarugas-trabalho-em-equipe/>
Leia o texto a seguir para responder à questão.
O homem no orelhão
Muitas vezes já se decretou a inutilidade dos orelhões em tempos de telefonia móvel e a maioria já foi inclusive retirada das ruas, mas a verdade é que aqueles que existem ainda são bastante utilizados - às vezes, tem até fila diante deles.
Eu mesmo fiz muito uso desse tipo de serviço há poucos anos, logo que me mudei para Brasília e não tinha dinheiro para comprar um celular. Com um cartão de 20 ligações, eu telefonava para a minha mãe em Curitiba, o que me garantia uns cinco minutos de conversa, se o horário fosse bom.
Isto é, eu telefonava, mas apenas quando encontrava um orelhão que funcionasse. Por vezes, era preciso andar até duas quadras para conseguir um que estivesse em condições de uso. Depois que arrumei um celular, não precisei mais de orelhão, a não ser no dia em que perdi meu aparelho e precisei telefonar para mim mesmo. Com essas experiências, de toda forma, eu não estranhei nem um pouco quando vi que estava ocupado o orelhão logo ao lado da parada em que eu esperava pelo meu ônibus.
Um pouco menos normal eu achei quando o homem que lá estava aumentou o tom de voz, contrariado com alguma coisa que havia acabado de ouvir do outro lado da linha. Mas, bastante incomum mesmo foi quando ele começou a gritar, visivelmente alterado.
Pelo que entendi, a pessoa com quem conversava era uma mulher que havia prometido alguma coisa e depois não cumpriu. Seja lá o que tenha prometido a mulher, o fato é que o homem precisava muito daquilo, muito mesmo. E por isso ele não conseguia aceitar de jeito nenhum a explicação que ela lhe dava e nem as sugestões que fazia para remediar a situação.
Sua raiva foi crescendo e dali a pouco disparou a xingar a mulher, que imagino ter então desligado, pois ele começou a dizer “Alô? Alô?". Bateu o gancho com força, e só então deve ter visto que da parada de ônibus eu o observava.
Não pareceu ter se importado muito com a minha presença e saiu de lá bufando. Passou por mim cheio de fúria, mas logo adiante parou e gritou: "Ah, meu Deus!". Deu meia volta, tornou a passar por mim e foi pegar o cartão, que havia esquecido dentro do orelhão.
FENDRICH, Henrique. O homem no orelhão. Escotilha.
Disponível em