Questões de Concurso Sobre termos integrantes da oração: objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, agente da passiva em português

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Q4443490 Português
    Conhecer o funcionamento da escrita alfabética para ler e escrever significa, principalmente, perceber as relações bastante complexas que se estabelecem entre os sons da fala (fonemas) e as letras da escrita (grafemas), o que envolve o despertar de uma consciência fonológica da linguagem. Ocorre que essas relações não são tão simples quanto as cartilhas as fazem parecer. Não há regularidades nessas relações, e elas são construídas por convenção. 

    De certa maneira, a história da escrita ilustra isso. Podemos datar as primeiras escritas da época das cavernas, quando os povos nômades deixavam pictogramas em suas paredes, que, enquanto desenhos, representavam, com suas propriedades concretas, animais, ações, perigos existentes no entorno. 

    Com o desenvolvimento do comércio, foi preciso simplificar esses desenhos. Mesmo ainda representando os objetos, esses pictogramas simplificados — os ideogramas, até hoje utilizados na escrita chinesa e japonesa, por exemplo — vão perdendo sua relação de representação icônica do objeto, tornando-se mais e mais convencionais.

    Por volta de 3.000 a. C., tanto pictogramas quanto ideogramas passaram a ser utilizados com valor fonético, cada signo representando uma sílaba. A passagem do signo-imagem ao signo-som (silabário) e o formato cuneiforme simplificado facilitaram sua expansão, e a escrita passou a cumprir funções mais ambiciosas.

    A humanidade levou milênios para inventar a relação entre um grafismo e um som, deslocando-se da representação do significado das palavras para o isolamento de um som do significante das mesmas. Também para a criança, esse não é um processo simples e breve de associação som-grafia. É um processo mais ou menos longo e bastante complexo de construção de conhecimento sobre essas convenções.  

Roxane Rojo. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social.
São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 61-62 (com adaptações). 


Julgue o item seguinte, relativo a aspectos gramaticais do texto apresentado. 
Na oração "quanto as cartilhas as fazem parecer" (primeiro parágrafo), o verbo "parecer" classifica-se como intransitivo. 
Alternativas
Q4443482 Português
    Quem escapa a um perigo ama a vida com outra intensidade. Entrei a amar Virgília com muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma coisa lhe aconteceu a ela. Assim, a presidência não fez mais do que avivar a afeição primitiva; foi a droga com que tornamos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado também. Nos primeiros dias, depois daquele incidente, folgávamos de imaginar a dor da separação, se houvesse separação, a tristeza de um e de outro, à proporção que o mar, como uma toalha elástica, se fosse dilatando entre nós; e, semelhantes às crianças, que se achegam ao regaço das mães, para fugir a uma simples careta, fugíamos do suposto perigo, apertando - nos com abraços. (...)

    E assim reatamos o fio da aventura. Esse foi, cuido eu, o ponto máximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde, por algum tempo, divisamos os vales de leste e de oeste e, por cima de nós, o céu tranquilo e azul. Repousando esse tempo, começamos a descer a encosta, com as mãos presas ou soltas, mas a descer, a descer... 

Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo: Globo, 2008, p. 181-182 (com adaptações). 


No que se refere a aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir. 
Na oração "a mesma coisa lhe aconteceu a ela" (primeiro parágrafo), os pronomes "lhe" e "ela" são referencialmente vinculados ao termo "Virgília". 
Alternativas
Q4440565 Português
    O relato memorialístico do autor de Vidas Secas, à medida que vai sendo tecido, revela imagens do que ainda se vê em muitas escolas do nosso país: instituições educacionais que se traduzem em ambientes caracterizados por uma organização que se justifica em nome da necessidade de uma ordem. Os efeitos dessa rígida organização são os de uma espécie de anestesia, termo que se opõe à estesia ou estética, uma vez que, conforme Susan Buck Morss, "Aistitikos é a palavra grega para aquilo que é perceptivo através do tato. Aistisis é a experiência sensorial da percepção. O campo original da estética não é a arte, mas a realidade — a natureza corpórea, material". O argumento da autora, segundo o qual a tônica da modernidade seria, justamente, anestética, pode ser visto também na escola, ambiente em que se impõe a impossibilidade de um contato de ordem estética com o mundo. 

Chirley Domingues; Leandro de Bona dias; Tânia Regina Oliveira Ramos.
Entre a dor e o acolhimento: escola, criança e leitura em Infância, de Graciliano Ramos.  
In: Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, SC, v. 25, 2025, p. 5.



Julgue o item a seguir, relativo ao sentido e a aspecto linguístico do texto apresentado.  
No último período do texto, o trecho "a impossibilidade de um contato de ordem estética com o mundo" funciona sintaticamente como complemento verbal. 
Alternativas
Q4438374 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Dieta rigorosa e treino intenso podem atingir o sistema hormonal; entenda.

A busca pelo emagrecimento, definição muscular e alto rendimento na academia pode ser benéfico, mas também pode sair caro para a saúde. Especialistas alertam que, dietas muito restritivas e rotinas pesadas de treino podem comprometer, além da mentalidade e do corpo, o sistema hormonal.

Um exemplo é a tenista norte-americana Emma Navarro, de 25 anos, que anunciou uma pausa na carreira após ser diagnosticada com RED-S (Deficiência Relativa de Energia no Esporte) e Tireoidite de Hashimoto. Segundo os atleta, os quadros, decorrentes em parte de uma alimentação inadequada, provocavam tonturas, dores de cabeça, fadiga constante e dificuldade de concentração.

De acordo com o endocrinologista Rodrigo Gomes de Souza, quando o organismo recebe menos energia do que gasta por um longo período, ele aciona um mecanismo de defesa que passa a economizar, reduzir o ritmo do metabolismo e, consequentemente, isso compromete o sistema hormonal.

"Nessas situações, o organismo reduz a atividade do eixo que controla a tireoide. Na prática, é como se o organismo percebesse que 'está faltando combustível' e diminuísse o ritmo do metabolismo para gastar menos energia."

Isso mostra que comer pouco e treinar muito não, necessariamente, significa ser saudável. Por este motivo, aqueles que querem manter uma dieta saudável precisam manter um acompanhamento médico com um endócrino ou nutricionista.
Analise a classificação gramatical e a função sintática dos termos destacados nos trechos extraídos do texto, assinale a alternativa CORRETA.
Alternativas
Q4438056 Português
Assinale a alternativa em que o pronome foi empregado corretamente de acordo com a norma-padrão: 
Alternativas
Q4438008 Português
Assinale a alternativa em que o pronome foi empregado corretamente de acordo com a norma-padrão: 
Alternativas
Q4437095 Português
Leia o período: "A secretaria recebeu os requerimentos dos candidatos e os encaminhou à direção, que os analisará antes da publicação do resultado." Assinale a alternativa que apresenta análise CORRETA dos mecanismos de coesão empregados. 
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Q4435775 Português
Novas regras para doação de sangue entram em vigor nesta quarta; veja o que muda



Novas regras para a doação de sangue passam a valer no Brasil nesta quarta-feira (30) e reduzem o período de impedimento em situações que antes podiam afastar candidatos dos hemocentros por meses.

Entre as principais mudanças estão novos prazos para quem fez tatuagem ou procedimentos estéticos, a possibilidade de doadores habituais continuarem doando depois dos 70 anos e uma regra específica para quem compartilha dispositivos usados na aplicação de medicamentos injetáveis agonistas de GLP-1, grupo do qual faz parte a semaglutida, princípio ativo do Ozempic.

A atualização foi estabelecida pelo Ministério da Saúde em julho. A norma reformula os regulamentos técnicos usados pelos serviços de hemoterapia do país e estabelece critérios para a proteção tanto de quem doa quanto de quem recebe o sangue. A portaria determinou a entrada em vigor 90 dias após a publicação.

Uma das alterações mais relevantes envolve tatuagens, piercings e procedimentos cosméticos invasivos.

A nova norma estabelece prazo de sete dias após tatuagem, acupuntura, maquiagem definitiva e procedimentos como aplicação de botox, preenchimentos e microagulhamento quando houver condições de avaliar a segurança do procedimento.

Se não for possível verificar em que condições ele foi realizado, o candidato deverá aguardar quatro meses.

A regra aparece na tabela da portaria que relaciona cirurgias e procedimentos invasivos aos respectivos períodos de inaptidão para doação.

No caso de piercing na cavidade oral ou na região genital, a restrição permanece enquanto o acessório estiver no local por causa do risco de infecção. Depois da retirada, o candidato deve esperar quatro meses.

A nova regra também cita especificamente os medicamentos injetáveis agonistas de GLP-1.

O texto não determina impedimento para quem simplesmente utiliza esse tipo de medicamento. A restrição de quatro meses é aplicada a candidatos que tenham histórico de compartilhamento do dispositivo usado para a aplicação.

Isso significa que uma pessoa em tratamento com semaglutida, por exemplo, não se torna automaticamente inapta apenas por usar o medicamento.

Ainda assim, a portaria determina que todo uso de medicamentos seja avaliado durante a triagem. O profissional deve considerar tanto o tratamento quanto a condição clínica que levou à prescrição.

A regra geral continua estabelecendo que os doadores tenham entre 16 e 69 anos. Para quem vai doar pela primeira vez, o limite permanece em 60 anos, 11 meses e 29 dias.

A novidade é que pessoas que já são doadoras de repetição poderão continuar doando depois dos 70 anos, desde que sejam avaliadas por um médico do serviço de hemoterapia.

A portaria estabelece ainda impedimento de quatro meses para quem passou por qualquer procedimento endoscópico. O período começa a ser contado na data do exame.

Também ficam impedidas por quatro meses pessoas que tenham usado anabolizantes ou hormônios injetáveis, por via intramuscular ou intravenosa, sem prescrição médica.

Quando esses produtos são usados sob orientação médica, não há impedimento automático. Nesse caso, o serviço deve avaliar a razão pela qual a hormonioterapia foi prescrita.

A norma também detalha novos critérios relacionados à malária.

O candidato fica impedido de doar por 30 dias se tiver se deslocado para municípios de áreas endêmicas ou realizado atividades que envolvam exposição a mata, bosque ou floresta em regiões de risco.

Para quem efetivamente teve malária, o prazo depende da espécie do parasita.

Após a cura, são 12 meses de impedimento para infecção por Plasmodium falciparum e três anos para Plasmodium vivax ou Plasmodium ovale. No caso de Plasmodium malariae, a inaptidão é definitiva.

A decisão final sobre quem pode doar continua sendo feita durante a triagem clínica.

O candidato passa por uma entrevista individual, na qual são avaliados estado de saúde, histórico de doenças, medicamentos em uso, gestação, alimentação, consumo de álcool e outros fatores que possam trazer risco para o doador ou para quem receberá o sangue.

A norma mantém ainda o peso mínimo de 50 kg como regra geral.

Homens podem fazer até quatro doações de sangue total em um período de 12 meses, com intervalo mínimo de dois meses. Para mulheres, são até três doações, com intervalo mínimo de três meses.


G1. Novas regras para doação de sangue entram em vigor nesta
quarta; veja o que muda. G1, 30 set. 2026. Disponível em:
https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/09/30/novas-regras-para-doac
ao-de-sangue-entram-em-vigor-nesta-quarta-veja-o-que-muda.ghtml.

"A regra aparece na tabela da portaria que relaciona cirurgias e procedimentos invasivos aos respectivos períodos de inaptidão para doação."
Considerando a análise sintática das expressões "aos respectivos períodos" e "de inaptidão", assinale a alternativa correta. 
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Q4434953 Português
Assinale a alternativa redigida de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa.
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Q4434406 Português

Leia o período:


"Os servidores receberam as solicitações dos usuários e as encaminharam ao setor competente, que deverá analisá-las antes da resposta definitiva."


Assinale a alternativa que apresenta análise correta dos elementos de coesão.

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Q4433679 Português

Atenção: Leia o texto a seguir para responder à questão.


        Quando a tecnologia serve para concentrar controle, ela amplia desigualdades; quando é desenhada para distribuir oportunidades, ela promove bem-estar e crescimento. O progresso não é linear nem neutro: é produto de decisões humanas e institucionais.


        A IA generativa redefine tarefas e papéis, mas também desafia o significado do trabalho. Ao automatizar o que antes expressava o talento humano, pode corroer o senso de competência. Ao impor processos padronizados, reduz a autonomia. E ao substituir interações humanas por algoritmos fragiliza o pertencimento.


        São três dimensões que, segundo a psicologia do trabalho, sustentam o bem-estar e a produtividade. A IA pode encurtar o árdпo percurso do aprendizado, aquele que desenvolve instinto, julgamento e experiência. A eficiência não deve substituir o amadurecimento. As evidências são eloquentes. Pesquisas de Puntoni e outros autores mostram que trabalhadores avaliados por algoritmos demonstram menos empatia. Segundo testes estatísticos, consumidores, por sua vez, valorizam mais produtos quando percebem participação humana em sua criação.


        Mas a IA também pode abrir um novo ciclo de oportunidades. Como nos mostrou o prof. Christian Terwiesch, a IA generativa pode transformar o próprio processo de inovação. Em vez de restringir decisões a poucos, ela permite que mais pessoas criem, testem e proponham soluções apoiadas por IA; o que ele chama de "torneios de inovação". O papel humano, nesse contexto, seria o de curador, não de executor.


        A GenAl ajuda a criar mais e melhores ideias, e mais rápido, mas continua precisando de gente para dar direção, propósito e juízo de valor. Empresas que souberem equilibrar as forças entre a velocidade da máquina e o discernimento humano abrirão novos horizontes de vantagem competitiva.


        O futuro da inovação, portanto, não pertence apenas à tecnologia, mas à cultura que a cerca.


        Mas, em última instância, essas escolhas não se farão no vácuo. Elas serão moldadas pelos incentivos econômicos, pelas políticas públicas e pela forma como os mercados valorizam – ou não – o investimento em pessoas.


        Se o sistema recompensar apenas ganhos de produtividade de curto prazo, o uso da IA tenderá à substituição e à concentração. Se, ao contrário, premiar a criação de valor humano e a difusão do conhecimento, o avanço tecnológico poderá se tornar um novo motor de prosperidade compartilhada. O equilíbrio econômico dessa nova era estará em unir produtividade com desenvolvimento humano; eficiência com aprendizado.


        O desafio, portanto, não é apenas das empresas, mas também da regulação: fazer com que o progresso técnico caminhe ао lado do progresso econômico e social. A inteligência artificial pode gerar abundância ou desigualdade. O que determinará o resultado não é o algoritmo, mas o conjunto de escolhas, incentivos e valores construídos em torno dele.


(VESCOVI, Ana Paula. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ana-paula-vescovi/2025/10/o-poder-e-o-progresso-na-erada-inteligencia-artificial.shtml. Adaptado)

Empresas que souberem equilibrar as forças entre a velocidade da máquina e o discernimento humano abrirão novos horizontes de vantagem competitiva.

Ao se transpor a frase acima para a voz passiva, o verbo "abrir" deverá assumir a seguinte forma:
Alternativas
Q4433177 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

Dormir bem pode ajudar no desempenho escolar de adolescentes, mostra estudo.

Boas noites de sono podem ser essenciais para a saúde mental e o desempenho escolar dos adolescentes. Isso é o que aponta um novo estudo publicado na revista científica "Psychological Medicine".
A partir de dados de participantes entre 10 e 13 anos do estudo Adolescent Brain Cognitive Development, que acompanha crianças e adolescentes nos Estados Unidos, os pesquisadores analisaram como os seguintes quatro fatores influenciam a vida dos adolescentes:
Qualidade de sono
Tempo de tela
Atividade física
Alimentação
O objetivo era entender de que forma esses hábitos poderiam ajudar a explicar a relação entre sintomas de saúde mental, desempenho acadêmico e problemas sociais entre jovens. Nesse contexto, foram avaliados sintomas de depressão, ansiedade e experiências semelhantes à psicose.
A conclusão foi que a qualidade do sono foi o fator que mais se relacionou com sintomas de saúde mental e desenvolvimento na escola.
O sono foi responsável por 18,5% das associações com depressão, 36,3% com ansiedade e 8,3% com perturbações com caráter psicótico.
Segundo Jason Smucny, primeiro autor do estudo e neurocientista computacional do Departamento de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade da Califórnia, o resultado surpreendeu os pesquisadores.
"Esperávamos que o sono fosse importante, mas não imaginávamos que ele se destacaria tão claramente em relação aos outros fatores do estilo de vida, especialmente o tempo de tela", comenta.
Ainda que a pesquisa mostre que o sono tem papel central na saúde mental e, consequentemente, no desempenho acadêmico, os autores ressaltam que ele não é o único responsável por causar problemas aos adolescentes.
O tempo de tela, por exemplo, apareceu como segundo fator mais importante.
Ele correspondeu a 5% da associação entre ansiedade e funcionamento acadêmico, 6,3% da relação com depressão e 6,2% com experiências semelhantes à psicose.
Atividade física e alimentação parecem ter menos influência, com efeitos menores nas associações analisadas. 
O estudo investigou efeitos de mediação, ou seja, analisou quanto esses fatores ajudavam a explicar as associações observadas entre sintomas de saúde mental e desempenho acadêmico.
Isto é, não é possível atribuir um mau desempenho na escola exclusivamente a noites mal dormidas ou excesso no tempo de tela, por exemplo. Mas a pesquisa mostra que esses hábitos podem contribuir para esse cenário.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é que a adolescência é um período crítico do desenvolvimento, no qual frequentemente podem surgir problemas de saúde mental, o que pode estar relacionado a um sono de má qualidade.
As conclusões do estudo reforçam que hábitos saudáveis podem ser essenciais para a melhora da saúde mental de adolescentes.
"Embora não vá resolver todos os desafios de saúde mental, rotinas de sono saudáveis são uma maneira prática de apoiar o bem-estar emocional e o funcionamento cotidiano da criança ou do adolescente", analisa Tara Niendam, autora sênior do estudo, professora de Psiquiatria e diretora executiva dos Programas de Psicose Precoce da Universidade da Califórnia.
Mas, mesmo que rotinas mais estabelecidas de sono e a restrição de tempo de tela sejam importantes para melhorar a qualidade de vida dos adolescentes, elas não substituem o tratamento no caso de problemas de saúde mental já estabelecidos.
Os autores reforçam que o acompanhamento profissional é essencial nesses casos, principalmente em um momento formador como a adolescência.
Os pesquisadores ainda afirmam que os resultados podem ajudar a orientar estudos futuros de intervenção, com o objetivo de avaliar se mudanças nesses hábitos são capazes de produzir melhorias no funcionamento acadêmico e social dos adolescentes. G1. Dormir bem pode ajudar no desempenho escolar de adolescentes, mostra estudo.

G1, 16 set. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/09/16/dormir-bem-pode-aju dar-no-desempenho-escolar-de-adolescentes-mostra-estudo.ghtml. Acesso em: 23 set. 2026.
"Embora não vá resolver todos os desafios de saúde mental, rotinas de sono saudáveis são uma maneira prática de apoiar o bem-estar emocional e o funcionamento cotidiano da criança ou do adolescente."
Caso o objeto direto do verbo 'resolver' fosse substituído por um pronome oblíquo átono, considerando as regras de colocação pronominal, assinale a alternativa CORRETA.
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Q4432477 Português
Leia o texto para responder à questão.


    O pai do meu pai era pastor de ovelhas numa aldeia bem pequena, nas montanhas da Galícia, ao norte da Espanha. Antes de o dia clarear, ele abria o estábulo e saía com as ovelhas para o campo. Junto, seu amigo inseparável: um cachorrinho ensinado. Numa noite de neve na aldeia, depois que os irmãos menores dormiram, meu avô se sentou ao lado da mãe na luz quente do fogão à lenha: “Mãe, eu quero ir para o Brasil, quero ser um homem de respeito, trabalhar e mandar dinheiro para a senhora criar os meus irmãos”. Ela fez o que pôde para convencê-lo a ficar. Pediu que esperasse um pouco mais, era ainda um menino, mas ele estava determinado: “Não vou pastorear ovelhas até morrer, como fez o pai”. Mais tarde, como em outras noites de frio, a mãe foi pôr uma garrafa de água quente entre as cobertas para esquentar a cama dele: “Doze anos, meu filho, quase um homem. Você tem razão, a Espanha pouco pode nos dar. Vá para o Brasil, terra nova, cheia de oportunidades. E trabalhe duro, siga o exemplo do seu pai”. Meu avô viu os olhos de sua mãe brilharem como líquido. Desde a morte do marido, era a primeira vez que ela chorava diante de um filho.


Drauzio Varella. Nas ruas do Brás. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000, p. 5. Coleção Memória e História.

“[...] a Espanha pouco pode nos dar.”


A regência do verbo “dar”, no contexto discursivo em que se insere, é

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Q4432379 Português

A questão se refere ao texto produzido a seguir.


Queimadas no Brasil: o fogo que consome o futuro


Larissa Warnavin


        A intensificação das queimadas no Brasil coloca em risco tanto o meio ambiente quanto a saúde pública. A cada incêndio, um pedaço da nossa biodiversidade é destruído. O painel de queimadas do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revela que os focos de queimadas em agosto foram: 25.647 no Norte, 15.948 no Centro-Oeste, 5.996 no Sudeste, 4.366 no Nordeste e 2.019 no Sul. Esses dados se aproximam das máximas históricas registradas para o mês de agosto em 2003 e 2010. O cenário deve se agravar caso a combinação de baixa umidade e altas temperaturas se mantenha. 


        As condições climáticas atuais, marcadas por longos períodos de seca e umidade relativa do ar entre 12% e 20%, criam um ambiente propício para o surgimento e a propagação de incêndios florestais. Essas queimadas não apenas destroem vastas áreas de vegetação, mas também geram uma quantidade significativa de fumaça, que se espalha pelas cidades e afeta a qualidade do ar.


        A saúde da população também está em jogo. O material particulado (PM 2,5) liberado pela fumaça das queimadas pode penetrar nos pulmões e até entrar na corrente sanguínea, causando uma série de problemas de saúde. Os impactos vão desde irritações leves nos olhos e garganta até doenças respiratórias graves e complicações cardiovasculares. Além disso, a exposição prolongada à fumaça pode reduzir a expectativa de vida e aumentar a mortalidade por doenças respiratórias e cardiovasculares, especialmente em pessoas mais vulneráveis, como idosos e crianças. Por esse motivo, especialistas em saúde indicam o uso de máscaras pelos cidadãos das cidades que estão sendo acometidas pela fumaça das queimadas.


        Diante dessa situação, uma questão se impõe: ainda há tempo para reverter esse quadro? A resposta é complexa e a solução exige ações rápidas e coordenadas. Medidas emergenciais, como a intensificação do combate aos focos de incêndio e a criação de faixas de segurança (aceiros) ao redor de áreas de risco, são essenciais para conter o avanço das queimadas. Além disso, é fundamental que a população seja conscientizada sobre os perigos de provocar incêndios, seja de forma intencional ou acidental. 


        No entanto, essas ações talvez não sejam suficientes para resolver o problema a longo prazo. As queimadas no Brasil estão profundamente enraizadas em práticas agrícolas inadequadas, como o uso do fogo para limpar pastagens, e no desmatamento, que fragiliza os ecossistemas e os torna mais suscetíveis a incêndios. Portanto, é necessário um esforço coletivo por parte das autoridades para reforçar a fiscalização contra o desmatamento ilegal e principalmente por parte dos produtores rurais para promover práticas agrícolas mais sustentáveis e que evitem o uso do fogo. 


        Além disso, as queimadas no Brasil estão diretamente ligadas às mudanças climáticas globais, que têm tornado os períodos de seca mais intensos e prolongados. Por isso, o país precisa adotar políticas mais ambiciosas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e se comprometer com os acordos internacionais de combate ao aquecimento global.


        Diante dessa calamidade, precisamos de uma resposta coletiva que envolva o governo, o setor privado e a sociedade civil para implementar políticas que protejam nossos ecossistemas e a saúde da população. As queimadas são um sintoma de um problema maior que só poderá ser resolvido com uma abordagem sistêmica e sustentável, que preserve tanto o meio ambiente quanto a qualidade de vida da população. Precisamos evitar que o fogo consuma o futuro das próximas gerações. 


Disponível em: . Acesso em: set. 2024

Para responder a questão, considere o trecho abaixo.
No entanto, essas ações talvez não sejam suficientes para resolver o problema a longo prazo. As queimadas no Brasil estão profundamente enraizadas em práticas agrícolas inadequadas, como o uso do fogo para limpar pastagens, e no desmatamento, que fragiliza os ecossistemas e os torna mais suscetíveis a incêndios. Portanto, é necessário um esforço coletivo por parte das autoridades para reforçar a fiscalização contra o desmatamento ilegal e principalmente por parte dos produtores rurais para promover práticas agrícolas mais sustentáveis e que evitem o uso do fogo.
O termo “os”, em destaque, é um
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Q4432027 Português
O Ex-Mágico da Taberna Minhota



       Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois, desde a meninice, acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

         Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

         Um dia, dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

       O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

       Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

       O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

      Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

         Com o crescimento da popularidade, a minha vida tornou-se insuportável.

       Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

       Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

       Situação cruciante. 

        À noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

       Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

       Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo

       Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

      Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era morrer aos poucos.

        Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de desaparecer que melhor me convinha. Por isso, empreguei-me numa Secretaria de Estado.

         1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

        Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

       Quando era mágico; pouco lidava com os homens — o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

      O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

      O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

        Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

        1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

     Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

     Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

      Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

      Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

    Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

     Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

     Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

     Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

    Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

     Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
“Disse-lhe que estava cansado.”
Acerca da regência do verbo “dizer”, no contexto discursivo em que se insere anteriormente, é correto afirmar que: 
Alternativas
Q4432023 Português
O Ex-Mágico da Taberna Minhota



       Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois, desde a meninice, acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

         Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

         Um dia, dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

       O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

       Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

       O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

      Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

         Com o crescimento da popularidade, a minha vida tornou-se insuportável.

       Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

       Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

       Situação cruciante. 

        À noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

       Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

       Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo

       Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

      Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era morrer aos poucos.

        Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de desaparecer que melhor me convinha. Por isso, empreguei-me numa Secretaria de Estado.

         1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

        Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

       Quando era mágico; pouco lidava com os homens — o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

      O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

      O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

        Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

        1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

     Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

     Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

      Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

      Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

    Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

     Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

     Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

     Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

    Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

     Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
A regência do verbo “pensar” em “Pensam que estou louco” indica: 
Alternativas
Q4432022 Português
O Ex-Mágico da Taberna Minhota



       Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois, desde a meninice, acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

         Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

         Um dia, dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

       O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

       Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

       O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

      Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

         Com o crescimento da popularidade, a minha vida tornou-se insuportável.

       Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

       Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

       Situação cruciante. 

        À noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

       Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

       Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo

       Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

      Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era morrer aos poucos.

        Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de desaparecer que melhor me convinha. Por isso, empreguei-me numa Secretaria de Estado.

         1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

        Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

       Quando era mágico; pouco lidava com os homens — o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

      O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

      O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

        Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

        1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

     Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

     Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

      Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

      Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

    Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

     Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

     Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

     Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

    Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

     Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Atente-se às preposições enumeradas a seguir, para assinalar a alternativa correta a respeito da função que exercem nos sintagmas realçados.

•“O homem, entretanto, não gostou da minha prática de¹ oferecer aos espectadores almoços gratuitos [...]”
• “Tenho a impressão de² que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos.”
Alternativas
Q4432021 Português
O Ex-Mágico da Taberna Minhota



       Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois, desde a meninice, acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

         Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

         Um dia, dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

       O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

       Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

       O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

      Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

         Com o crescimento da popularidade, a minha vida tornou-se insuportável.

       Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

       Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

       Situação cruciante. 

        À noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

       Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

       Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo

       Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

      Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era morrer aos poucos.

        Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de desaparecer que melhor me convinha. Por isso, empreguei-me numa Secretaria de Estado.

         1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

        Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

       Quando era mágico; pouco lidava com os homens — o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

      O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

      O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

        Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

        1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

     Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

     Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

      Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

      Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

    Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

     Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

     Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

     Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

    Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

     Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Atente-se à regência do verbo “dar”, em 1 e em 2, para assinalar o item correto a seguir.


•“As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram¹ fabulosos lucros aos donos da companhia.”
• “Um dia, dei² com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota.”
Alternativas
Q4432020 Português
O Ex-Mágico da Taberna Minhota



       Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento. Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois, desde a meninice, acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores.

         Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.

         Um dia, dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.

       O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

       Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas, ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.

       O homem, entretanto, não gostou da minha prática de oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades, propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.

      Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros aos donos da companhia.

         Com o crescimento da popularidade, a minha vida tornou-se insuportável.

       Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas, maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações, julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava contra o mundo e os pássaros.

       Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos por um socorro que não poderia vir de parte alguma.

       Situação cruciante. 

        À noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair do meu ouvido.

       Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa, principalmente um mágico enfastiado do ofício.

       Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo

       Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas roupas, olharam a paisagem, e se foram.

      Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era morrer aos poucos.

        Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de desaparecer que melhor me convinha. Por isso, empreguei-me numa Secretaria de Estado.

         1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho da Taberna Minhota.

        Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.

       Quando era mágico; pouco lidava com os homens — o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam.

      O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres recordações, pequeno saldo de três anos de vida.

      O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.

        Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego, debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma experiência sentimental!

        1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)

     Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no cargo.

     Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de afirmar que tinha dez.

      Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado — fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.

      Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.

    Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.

     Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que ninguém enxerga, por mais que atente a vista.

     Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar essas pequeninas coisas.

     Tenho a impressão de que é uma andorinha a se desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.

    Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.

     Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos, das meigas criancinhas.


RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
A respeito da estrutura sintática ressaltada, nos períodos descritos em I e em II, pode-se afirmar que:

I. “Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude.”
II. “Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e, cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado por eles."
Alternativas
Q4431874 Português
Sombra e Aridez: As Múltiplas Dimensões da Desertificação no Semiárido Brasileiro



     O avanço progressivo da desertificação nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas do Brasil constitui um dos desafios socioambientais mais urgentes da contemporaneidade, exigindo uma compreensão integrada entre a dinâmica climática e a ação humana.

     No cerne do problema, a degradação do solo deriva substancialmente do manejo inadequado e do desmatamento acelerado da Caatinga, bioma de elevada riqueza biogeográfica e adaptado a condições extremas de aridez. A remoção contínua da cobertura vegetal expõe a camada superficial da terra à erosão eólica, solar e pluvial, comprometendo irreversivelmente a capacidade de regeneração ecológica do ecossistema.

     Ademais, as alterações climáticas globais, atestadas em relatórios científicos internacionais, atuam como catalisadoras do fenômeno ao intensificarem a variabilidade temporal e espacial das precipitações. Dados recentes revelam o surgimento inédito de regiões áridas no território nacional, acompanhado da expansão das zonas semiáridas a taxas alarmantes, o que evidencia o agravamento do estresse hídrico em escala regional.

      Cumpre ressaltar que os impactos da desertificação não se restringem ao domínio ecológico, mas se entrelaçam profundamente com as vulnerabilidades sociais historicamente consolidadas no Nordeste. A alta incidência de pobreza, a concentração fundiária e a pressão produtiva sobre recursos limitados potencializam os efeitos das intempéries naturais, retroalimentando um ciclo de degradação ambiental e privação econômica.

     Diante da complexidade do cenário, a ciência contemporânea tem fornecido ferramentas valiosas, como o sensoriamento remoto e os modelos de projeção climática, para o monitoramento rigoroso da vegetação e da disponibilidade hídrica. A aplicação dessas metodologias permite prever com maior exatidão as respostas dos ecossistemas aos aumentos de temperatura e às variações do regime de chuvas, fundamentando o planejamento estratégico.

      No âmbito institucional, a consolidação de políticas públicas estruturadas, como a Política Nacional de Combate à Desertificação e o Programa de Ação Nacional, representa um marco legal indispensável para nortear ações de conservação e restauração. O êxito de tais iniciativas, contudo, depende substancialmente da governança intersetorial e da integração entre esferas governamentais e a sociedade civil organizada.

    Nesse contexto, alternativas orientadas para o desenvolvimento sustentável, com destaque para a bioeconomia adaptada às especificidades ecológicas locais e o incentivo a tecnologias de captação de água, emergem como caminhos viáveis para garantir a segurança hídrica e socioeconômica. O fortalecimento de práticas produtivas eficientes posiciona-se como vetor fundamental para harmonizar o progresso social com a conservação da biodiversidade.

     Em suma, o combate à desertificação no Brasil requer o alinhamento contínuo entre o rigor do conhecimento científico, a efetividade das políticas públicas transversais e o engajamento comunitário na gestão dos recursos naturais. Somente por meio de uma abordagem articulada será possível mitigar as transformações climáticas em curso, restaurar os territórios degradados e assegurar a sustentabilidade das populações vulneráveis no semiárido.

Texto adaptado de MONTENEGRO, Suzana Maria Gico Lima. Desertificação no Brasil: a exploração não planejada dos recursos naturais e as mudanças climáticas acarretam danos irreversíveis ao meio ambiente. Ciência e Cultura, v. 76, n. 1, p. 1- 8, 2024. 
Considerando a estrutura argumental do verbo, as funções sintáticas dos constituintes e as relações lógico-semânticas entre as orações, assinale a alternativa em que a reescrita do período “A remoção contínua da cobertura vegetal expõe a camada superficial da terra à erosão eólica, solar e pluvial, comprometendo irreversivelmente a capacidade de regeneração ecológica do ecossistema” preserva o conteúdo proposicional fundamental e mantém a adequação à norma-padrão da língua portuguesa.
Alternativas
Respostas
1: E
2: C
3: E
4: C
5: C
6: E
7: B
8: B
9: E
10: A
11: C
12: A
13: D
14: D
15: A
16: D
17: E
18: C
19: C
20: E