Questões de Concurso Comentadas sobre português

Foram encontradas 198.053 questões

Q3849703 Português
Assinale a alternativa em que o termo destacado é um pronome. 
Alternativas
Q3849702 Português
Marque a alternativa em que a palavra destacada está ortograficamente correta. 
Alternativas
Q3849701 Português
Analise a concordância nas frases abaixo e assinale a alternativa INCORRETA. 
Alternativas
Q3849700 Português
Assinale a alternativa que apresenta uso correto da crase: 
Alternativas
Q3849699 Português
Assinale a alternativa em que a colocação pronominal está correta. 
Alternativas
Q3849698 Português
Considere o trecho abaixo:
“Divirto-me pensando no que encontraremos; sei que quando chegarmos será como se eu já tivesse visto tudo (...): a rua vazia, as portas do banco escancaradas, o cofre vazio.”
(SCLIAR, Moacyr. Piquenique. In: Histórias da Terra Trêmula. São Paulo: Vertente, 1977. p. 24- 26).

Assinale a alternativa que indica qual a classe gramatical a que pertencem os termos “vazia” e “escancaradas” destacadas acima. 
Alternativas
Q3849697 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Flor-de-maio

       Entre tantas notícias do jornal — o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

       Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d'água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio" está, efetivamente, em flor.

       Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

       Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

       Suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais "flor-de-maio", e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa "flor-de-maio".

       No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-demaio" — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

       Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.


BRAGA, Rubem. Flor-de-Maio. In: A Borboleta Amarela. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 261-262.
Assinale a alternativa que contém um trecho do texto em que há sentido figurado. 
Alternativas
Q3849696 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Flor-de-maio

       Entre tantas notícias do jornal — o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

       Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d'água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio" está, efetivamente, em flor.

       Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

       Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

       Suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais "flor-de-maio", e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa "flor-de-maio".

       No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-demaio" — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

       Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.


BRAGA, Rubem. Flor-de-Maio. In: A Borboleta Amarela. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 261-262.
Leia o trecho a seguir:
Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam.

O travessão utilizado no trecho, pode ser corretamente substituído por qual sinal de pontuação? Assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q3849695 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Flor-de-maio

       Entre tantas notícias do jornal — o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

       Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d'água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio" está, efetivamente, em flor.

       Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

       Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

       Suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais "flor-de-maio", e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa "flor-de-maio".

       No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-demaio" — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

       Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.


BRAGA, Rubem. Flor-de-Maio. In: A Borboleta Amarela. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 261-262.
No texto, o narrador em primeira pessoa fala sobre uma nota de três linhas no jornal sobre a florada da flor-de-maio. A partir da leitura do texto, assinale a alternativa correta. 
Alternativas
Q3849694 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


Flor-de-maio

       Entre tantas notícias do jornal — o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés — há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

       Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d'água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada "flor-de-maio" está, efetivamente, em flor.

       Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar.

       Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol — ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

       Suspiro e digo comigo mesmo — que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi — um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais "flor-de-maio", e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono, e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa "flor-de-maio".

       No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém — uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as "flores-de-maio" do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a "flor-demaio" — talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

       Ir só, no fim da tarde, ver a "flor-de-maio"; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas COFAPs de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.


BRAGA, Rubem. Flor-de-Maio. In: A Borboleta Amarela. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 261-262.
Qual das alternativas a seguir é um sinônimo para o termo “imperiosa”, no trecho “Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde (...).”? 
Alternativas
Q3849553 Português
Assinale a alternativa em que o emprego do acento indicativo de crase é obrigatório, conforme a norma-padrão: 
Alternativas
Q3849552 Português
Leia o trecho.

“Na cidade, os relógios engolem as horas, o asfalto bebe a chuva, e as vitrines piscam promessas. A noite veste terno e sorri com dentes de neon. Caminho e carrego no bolso um silêncio pesado, uma pedra que fala.”

As figuras de linguagem mais recorrentes no trecho são:
Alternativas
Q3849551 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
A coerência do texto se sustenta pela forma como as ideias avançam até a conclusão. Considerando a sequência dos episódios, a progressão lógica mais adequada é a de: 
Alternativas
Q3849550 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Considere referência como o uso de pronome que retoma um termo anterior. No trecho: “Paula revisou o relatório. Ele foi enviado hoje. Carlos fez o mesmo e Ana, também. Por isso, o cliente recebeu a versão final.”, a correspondência correta entre mecanismos de coesão e exemplos é: 
Alternativas
Q3849549 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
No texto, o narrador usa expressões muito comuns em reuniões e na linguagem de produtividade, como “alinhar”, “pendência”, “plano” e “subo o nível”.
Esse vocabulário contribui para:
Alternativas
Q3849548 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Considerando o texto como um todo, a ideia principal e a função comunicativa do relato se organizam para: 
Alternativas
Q3849547 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Ao concluir que “falhou com elegância moderada” e que amanhã “sobe o nível”, o narrador:
Alternativas
Q3849546 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Ao passar de “Eu devia digitalizar isso” para “Eu devia digitalizar minha personalidade”, o texto sugere: 
Alternativas
Q3849545 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
A sequência “O app não reconheceu. Eu também não.” reforça, sobretudo: 
Alternativas
Q3849544 Português
Hoje eu fui adulto

08h12

Acordei com a certeza de que hoje seria o dia. O dia em que eu colocaria a vida em ordem. Eu não digo “organizar”, porque “organizar” é uma palavra que dá azar. A vida escuta e se sente desafiada. Então eu pensei “apenas alinhar algumas coisas”, com a humildade estratégica de quem quer vencer por cansaço.

08h40

Primeira tarefa de adulto: pagar uma conta antes do vencimento. Um clássico. Abri o aplicativo do banco e, por algum motivo, ele me pediu para reconhecer o rosto. O meu rosto, às 08h40, parecia o de alguém que acabou de sair de uma audiência de cinco horas. O app não reconheceu. Eu também não. Tentamos três vezes e, na terceira, senti que não era uma falha técnica, era um comentário.

09h15

Liguei para resolver uma pendência simples. A gravação me chamou de “você” com uma alegria artificial, como se a máquina tivesse um plano para mim. “Para continuar, digite 1.” Digitei 1. “Desculpe, não entendi.” Digitei 1 de novo, com mais convicção, como se convicção fosse compatível com teclado. “Desculpe, não entendi.” Em algum lugar, alguém programou uma voz para pedir desculpas sem intenção de mudar de comportamento. Um espelho.

09h58

Fui ao mercado com uma lista. A lista era curta, porque eu estava tentando ser uma pessoa melhor. Comprei tudo o que estava na lista, mais três itens que não estavam, e saí com a sensação de vitória. Na porta, percebi que esqueci exatamente o item principal. A vida tem senso de humor. Eu também, mas o dela é mais eficiente.

11h07

Decidi enfrentar o armário. Existe um tipo de maturidade que não aparece em currículo: a coragem de abrir uma gaveta e não fechar com força. Tirei uma pilha de papéis antigos, garantias de coisas que já nem existem, contratos de serviços que eu nem lembro por que contratei, e uma nota fiscal de 2017 que parecia ter sobrevivido por teimosia. Em algum momento, pensei: “Eu devia digitalizar isso.” Logo depois, pensei: “Eu devia digitalizar minha personalidade.”

12h23

Almocei “de forma consciente”. Tradução: comi olhando para a janela, fingindo que eu era uma pessoa contemplativa e não alguém que estava fugindo de notificações. A comida estava boa, e eu senti uma gratidão sincera por ainda existir arroz no mundo. Adulto é isso também, eu acho, elogiar o básico. 

14h10

Resolvi fazer exercício de adulto: dizer “não”. Recebi uma mensagem pedindo um favor. Eu estava cansado e atrasado com tudo, então eu ia dizer “não”. Mas eu disse “claro”, porque meu “não” ainda está em fase de alfabetização. Para compensar, eu escrevi “claro” sem ponto de exclamação, que é o meu jeito atual de impor limites.

15h36

Tentei marcar uma consulta. O atendente pediu documento, data de nascimento, endereço, telefone, e, pelo tom, quase pediu um relato completo das minhas últimas cinco decisões. No fim, não tinha horário. Eu agradeci, como se a ausência de horário fosse uma gentileza oferecida exclusivamente a mim. Desliguei e senti uma coisa estranha, uma mistura de impotência e alívio. Talvez eu não quisesse mesmo resolver nada hoje. Talvez eu goste desse caos, desde que eu possa reclamar dele com propriedade.

18h02

Voltei para casa com sacolas e uma dignidade frágil. Coloquei tudo no lugar e, por quinze minutos, a casa pareceu uma propaganda de vida adulta. Aí eu lembrei da conta que eu não paguei, da pendência que eu não resolvi, do favor que eu aceitei, e do item principal do mercado que eu esqueci. A propaganda acabou, mas ficou a trilha sonora da culpa.

21h17

Pensei em escrever um “plano” para amanhã. Listei metas, horários, prioridades. Li o que escrevi e achei bonito. Quase poético. Eu tenho um talento real para planejar uma pessoa que eu ainda não sou.

23h04

Conclusão do dia: eu fui adulto, sim. Só que do jeito que dá. Adulto não é alguém que controla tudo. Adulto é alguém que falha, anota mentalmente a falha, e tenta falhar com um pouco mais de estilo na próxima vez. Hoje eu falhei com elegância moderada. Amanhã, se a vida deixar, eu subo o nível.


Fonte: Banca Examinadora
Ao dizer que “a vida escuta e se sente desafiada”, o texto produz o efeito de: 
Alternativas
Respostas
10321: E
10322: B
10323: D
10324: B
10325: E
10326: A
10327: C
10328: A
10329: D
10330: C
10331: D
10332: A
10333: B
10334: C
10335: E
10336: C
10337: D
10338: B
10339: E
10340: A