Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
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I. O capacitismo é uma herança cultural. II. A nova legislação se restringe a crimes praticados virtualmente. III. O bullying se tornou uma prática corriqueira que se limita ao ambiente. IV. O capacitismo e o bullying são conceitos diferentes, mas um pode estimular a prática do outro.
Está correto o que se afirma apenas em
Barata entende
Nesta casa, quando vim para cá, havia muitas baratas. Grandes, lentas, parecidas umas com as outras. Eram vistas à noite saindo da cozinha e passavam por mim, muitas vezes, aos pares, como as mulheres amigas que passeiam conversando.
Havia uma que não se juntava com as outras e era diferente. Um pouco mais clara, talvez. Mais alazã. Essa, quando eu estava escrevendo, se punha defronte, em cima da Antologia poética, de Vinicius de Moraes, e ficava me olhando. A princípio, a testemunha, a vigilância, sua simples presença me causava um certo desconforto. Depois, já não me fazia o menor mal. Ao contrário, quando parava para pensar, fitava-a e as ideias me vinham mais depressa.
Uma noite, demorou a aparecer e, enquanto a esperei, confesso, não estivesse sossegado. Imaginei que lhe houvesse acontecido alguma coisa. Tivesse comido um pó errado. Encontrado uma dessas gatas lascivas, que matam as baratas aos pouquinhos, brincando com elas. Só sei que, quando levantei os olhos e a vi, outra vez, em cima da Antologia Poética, não contive o grito:
— Onde é que você andava!?
A barata desceu do livro e começou a caminhar, na direção do banheiro. Parou, na porta, e voltou-se para mim, como que pedindo que a seguisse. Não me custava nada. Era a primeira vez. No banheiro, no canto onde se guardavam as vassourinhas e o desentupidor, parou. Ficou parada. Com um ar de “olhe para isso”. Lá, havia um pó amarelo, que a cozinheira, sem me consultar e absolutamente certa de que estava prestando um grande serviço, comprara. Eu precisava fazer qualquer coisa para minha barata saber que não era eu, que não fora eu, que não seria eu, nunca…
Abaixei-me e, quando ia começar a varrer o veneno, descobri que a pobrezinha, antes, tinha ido no pó. Estava com as patinhas e a boca sujas de amarelo. Além disso, já se punha mal nas pernas. Ia morrer, como de fato morreu, minutos depois, erguendo-se sobre o traseiro e caindo, pesadamente, de barriga para cima. Então, eu lhe gritei, com toda voz e toda inocência:
— Olha, barata, não fui eu, não!
No dia seguinte, porque as outras não me interessavam, ou temendo que viesse, um dia, a me interessar por outra, telefonei para Insetisan e pedi que mandassem dedetizar a casa.
(Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria. Pesquisa, organização e introdução de Guilherme Tauil, Todavia, 2021, pp. 391-392. Publicada
originalmente em: O Jornal, de 10/11/1962.)
Barata entende
Nesta casa, quando vim para cá, havia muitas baratas. Grandes, lentas, parecidas umas com as outras. Eram vistas à noite saindo da cozinha e passavam por mim, muitas vezes, aos pares, como as mulheres amigas que passeiam conversando.
Havia uma que não se juntava com as outras e era diferente. Um pouco mais clara, talvez. Mais alazã. Essa, quando eu estava escrevendo, se punha defronte, em cima da Antologia poética, de Vinicius de Moraes, e ficava me olhando. A princípio, a testemunha, a vigilância, sua simples presença me causava um certo desconforto. Depois, já não me fazia o menor mal. Ao contrário, quando parava para pensar, fitava-a e as ideias me vinham mais depressa.
Uma noite, demorou a aparecer e, enquanto a esperei, confesso, não estivesse sossegado. Imaginei que lhe houvesse acontecido alguma coisa. Tivesse comido um pó errado. Encontrado uma dessas gatas lascivas, que matam as baratas aos pouquinhos, brincando com elas. Só sei que, quando levantei os olhos e a vi, outra vez, em cima da Antologia Poética, não contive o grito:
— Onde é que você andava!?
A barata desceu do livro e começou a caminhar, na direção do banheiro. Parou, na porta, e voltou-se para mim, como que pedindo que a seguisse. Não me custava nada. Era a primeira vez. No banheiro, no canto onde se guardavam as vassourinhas e o desentupidor, parou. Ficou parada. Com um ar de “olhe para isso”. Lá, havia um pó amarelo, que a cozinheira, sem me consultar e absolutamente certa de que estava prestando um grande serviço, comprara. Eu precisava fazer qualquer coisa para minha barata saber que não era eu, que não fora eu, que não seria eu, nunca…
Abaixei-me e, quando ia começar a varrer o veneno, descobri que a pobrezinha, antes, tinha ido no pó. Estava com as patinhas e a boca sujas de amarelo. Além disso, já se punha mal nas pernas. Ia morrer, como de fato morreu, minutos depois, erguendo-se sobre o traseiro e caindo, pesadamente, de barriga para cima. Então, eu lhe gritei, com toda voz e toda inocência:
— Olha, barata, não fui eu, não!
No dia seguinte, porque as outras não me interessavam, ou temendo que viesse, um dia, a me interessar por outra, telefonei para Insetisan e pedi que mandassem dedetizar a casa.
(Vento vadio: as crônicas de Antônio Maria. Pesquisa, organização e introdução de Guilherme Tauil, Todavia, 2021, pp. 391-392. Publicada
originalmente em: O Jornal, de 10/11/1962.)
A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver”.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
(ALVES, Rubem. Folha de S. Paulo. Em: 26/10/2004. Adaptado.)
I- ( ) Em termos de gênero textual, o texto em questão trata-se de um artigo de opinião;
II- ( ) O autor defende a visibilidade pública como reflexo de uma sociedade líquida e superficial, com indivíduos de alma pequena;
III- ( ) A heterogeneidade discursiva, no texto, revela-se por meio da intertextualidade que se concretiza, por exemplo, na retomada do poema de Fernando Pessoa e do livro “O pequeno Príncipe” de Antoine Saint-Exupéry;
IV- ( ) No que tange à tipologia textual, percebemos a predominância da descrição e da argumentação.
Após análise das afirmativas, conclui-se que a sequência correta é:
Estudo da Universidade de Galway confirma que pessoas se sentem mais cansadas após videoconferências
Estudo da Universidade de Galway confirma que pessoas se sentem mais cansadas após videoconferências
Texto 3

Disponível em:
https://facebook.com/photos/.php?fbid=178726570683048&set=a.178
726557349716&type=3&locale=pt_BR. Acesso em: 09 abr. 2024.
Outro estudo já mostra como o colágeno pode reduzir o sobrepeso em adultos. Foram acompanhados 90 voluntários por 12 semanas, consumindo 2,0 g de colágeno diariamente, ou placebo. A avaliação da gordura foi feita por DEXA corporal, e o índice de massa corpórea inicial era em média 25.6. No final do estudo, os participantes que tomavam o colágeno haviam perdido duas vezes mais gordura corporal do que o grupo controle.
O colágeno contém arginina em grandes quantidades. Esse aminoácido induz a formação do óxido nítrico, que dilata os vasos sanguíneos e aumenta o aporte de nutrientes e oxigênio aos músculos durante o exercício. Além disso, a arginina pode aumentar a força física e ajudar na recuperação pós treino.
Ajuda também na redução da dor articular
Estanca perda óssea
Aumenta massa muscular
Outro estudo já mostra como o colágeno pode reduzir o sobrepeso em adultos. Foram acompanhados 90 voluntários por 12 semanas, consumindo 2,0 g de colágeno diariamente, ou placebo. A avaliação da gordura foi feita por DEXA corporal, e o índice de massa corpórea inicial era em média 25.6. No final do estudo, os participantes que tomavam o colágeno haviam perdido duas vezes mais gordura corporal do que o grupo controle.
O colágeno contém arginina em grandes quantidades. Esse aminoácido induz a formação do óxido nítrico, que dilata os vasos sanguíneos e aumenta o aporte de nutrientes e oxigênio aos músculos durante o exercício. Além disso, a arginina pode aumentar a força física e ajudar na recuperação pós treino.
Ajuda também na redução da dor articular
Estanca perda óssea
Aumenta massa muscular
Texto para a questão.
A leptospirose é transmitida a partir do contato coma urina de animais, principalmente ratos, infectados pela bactéria Leptospira. No verão, época de chuvas mais fortes e frequentes, as enchentes e alagamentos aumentam o risco de contrair a doença através do contato com água suja e lama.
Segundo o infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein Hélio Bacha, o “grande reservatório” da Leptospira é o rato urbano. “Como o rato está presente no mundo todo, em todos os continentes, a leptospirose é uma doença universal”, acrescentou.
A ocorrência da leptospirose costuma estar associada a condições precárias de infraestrutura sanitária e alta infestação de ratos infectados.
Inundações permitem que a bactéria se dissemine nos ambientes e facilitam a ocorrência de surtos, tornando os grupos que estão expostos a alagamentos frequentes mais vulneráveis à doença.
Como a leptospirose é transmitida?
A transmissão da leptospirose se dá através do contato coma urina de animais infectados diluída na água das enchentes.
A contaminação ocorre através de mucosas, a partir de lesões na pele, ou mesmo em uma pele íntegra, se ficar imersa na água contaminada durante muito tempo.
O infectologista esclareceu: “Não é a água da chuva que causa a doença, é a água das enchentes. Enchentes nas cidades, especialmente no Brasil, onde é muito comum a presença de ratos. Enchentes onde há presença de pessoas é um cenário típico de condição epidêmica da leptospirose.”
(…)
Como se prevenir da leptospirose em caso de enchentes?
Para evitar a transmissão é importante tentar minimizar ao máximo o contato com água suja durante alagamentos e tentar sair do ambiente atingido o mais rápido possível para evitar que a bactéria penetre na pele.
O governo federal também recomenda algumas medidas preventivas:
- Cuidado ao retirar a lama de enchentes: a lama tem alto poder infectante e costuma aderir aos móveis, parede e chão. O recomendado é retirar a lama com proteção de luva se botas de borracha e lavar o local com uma solução de água e água sanitária, deixando agir por 15 minutos.
- Evitar o contato com água e lama de enchentes e impedir que crianças brinquem na água: para limpar e organizar o local ou desentupir o esgoto é importante usar botas e luvas de borracha (ou sacos plásticos amarrados nas mãos e nos pés).
- Controle de roedores: para contribuir recomenda-se o acondicionamento e destino adequado do lixo, armazenamento apropriado de alimentos, desinfecção e vedação de caixas d’água e vedação de frestas e aberturas em portas e paredes.
- Descartar alimentos e medicamentos que tiveram contato com a água de enchente.
- Não pescar em rios e lagoas após as chuvas.
(…)
Texto para a questão.
A leptospirose é transmitida a partir do contato coma urina de animais, principalmente ratos, infectados pela bactéria Leptospira. No verão, época de chuvas mais fortes e frequentes, as enchentes e alagamentos aumentam o risco de contrair a doença através do contato com água suja e lama.
Segundo o infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein Hélio Bacha, o “grande reservatório” da Leptospira é o rato urbano. “Como o rato está presente no mundo todo, em todos os continentes, a leptospirose é uma doença universal”, acrescentou.
A ocorrência da leptospirose costuma estar associada a condições precárias de infraestrutura sanitária e alta infestação de ratos infectados.
Inundações permitem que a bactéria se dissemine nos ambientes e facilitam a ocorrência de surtos, tornando os grupos que estão expostos a alagamentos frequentes mais vulneráveis à doença.
Como a leptospirose é transmitida?
A transmissão da leptospirose se dá através do contato coma urina de animais infectados diluída na água das enchentes.
A contaminação ocorre através de mucosas, a partir de lesões na pele, ou mesmo em uma pele íntegra, se ficar imersa na água contaminada durante muito tempo.
O infectologista esclareceu: “Não é a água da chuva que causa a doença, é a água das enchentes. Enchentes nas cidades, especialmente no Brasil, onde é muito comum a presença de ratos. Enchentes onde há presença de pessoas é um cenário típico de condição epidêmica da leptospirose.”
(…)
Como se prevenir da leptospirose em caso de enchentes?
Para evitar a transmissão é importante tentar minimizar ao máximo o contato com água suja durante alagamentos e tentar sair do ambiente atingido o mais rápido possível para evitar que a bactéria penetre na pele.
O governo federal também recomenda algumas medidas preventivas:
- Cuidado ao retirar a lama de enchentes: a lama tem alto poder infectante e costuma aderir aos móveis, parede e chão. O recomendado é retirar a lama com proteção de luva se botas de borracha e lavar o local com uma solução de água e água sanitária, deixando agir por 15 minutos.
- Evitar o contato com água e lama de enchentes e impedir que crianças brinquem na água: para limpar e organizar o local ou desentupir o esgoto é importante usar botas e luvas de borracha (ou sacos plásticos amarrados nas mãos e nos pés).
- Controle de roedores: para contribuir recomenda-se o acondicionamento e destino adequado do lixo, armazenamento apropriado de alimentos, desinfecção e vedação de caixas d’água e vedação de frestas e aberturas em portas e paredes.
- Descartar alimentos e medicamentos que tiveram contato com a água de enchente.
- Não pescar em rios e lagoas após as chuvas.
(…)
Texto para a questão.
A leptospirose é transmitida a partir do contato coma urina de animais, principalmente ratos, infectados pela bactéria Leptospira. No verão, época de chuvas mais fortes e frequentes, as enchentes e alagamentos aumentam o risco de contrair a doença através do contato com água suja e lama.
Segundo o infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein Hélio Bacha, o “grande reservatório” da Leptospira é o rato urbano. “Como o rato está presente no mundo todo, em todos os continentes, a leptospirose é uma doença universal”, acrescentou.
A ocorrência da leptospirose costuma estar associada a condições precárias de infraestrutura sanitária e alta infestação de ratos infectados.
Inundações permitem que a bactéria se dissemine nos ambientes e facilitam a ocorrência de surtos, tornando os grupos que estão expostos a alagamentos frequentes mais vulneráveis à doença.
Como a leptospirose é transmitida?
A transmissão da leptospirose se dá através do contato coma urina de animais infectados diluída na água das enchentes.
A contaminação ocorre através de mucosas, a partir de lesões na pele, ou mesmo em uma pele íntegra, se ficar imersa na água contaminada durante muito tempo.
O infectologista esclareceu: “Não é a água da chuva que causa a doença, é a água das enchentes. Enchentes nas cidades, especialmente no Brasil, onde é muito comum a presença de ratos. Enchentes onde há presença de pessoas é um cenário típico de condição epidêmica da leptospirose.”
(…)
Como se prevenir da leptospirose em caso de enchentes?
Para evitar a transmissão é importante tentar minimizar ao máximo o contato com água suja durante alagamentos e tentar sair do ambiente atingido o mais rápido possível para evitar que a bactéria penetre na pele.
O governo federal também recomenda algumas medidas preventivas:
- Cuidado ao retirar a lama de enchentes: a lama tem alto poder infectante e costuma aderir aos móveis, parede e chão. O recomendado é retirar a lama com proteção de luva se botas de borracha e lavar o local com uma solução de água e água sanitária, deixando agir por 15 minutos.
- Evitar o contato com água e lama de enchentes e impedir que crianças brinquem na água: para limpar e organizar o local ou desentupir o esgoto é importante usar botas e luvas de borracha (ou sacos plásticos amarrados nas mãos e nos pés).
- Controle de roedores: para contribuir recomenda-se o acondicionamento e destino adequado do lixo, armazenamento apropriado de alimentos, desinfecção e vedação de caixas d’água e vedação de frestas e aberturas em portas e paredes.
- Descartar alimentos e medicamentos que tiveram contato com a água de enchente.
- Não pescar em rios e lagoas após as chuvas.
(…)
O pior surdo é o que não quer ouvir
O cego chega no cruzamento e chove gente querendo ajudar. O surdo manda um “quê?” no caixa e recebe um urro na orelha: “CRÉDITO OU DÉBITO?!”. Por alguma razão, acham que o surdo é um preguiçoso, um desleixado que não fez o esforço suficiente para escutar o que foi dito. É mais ou menos como os gordos eram vistos tempos atrás, antes da luta identitária incluí-los em seu cabedal.
Os surdos devem ter vacilado em algum momento. Perderam, talvez, o prazo de inscrição para a inclusão nos protocolos do politicamente correto, perdendo, assim, o bonde da história. Eis aqui uma frase que você nunca ouvirá — e não por ter qualquer problema no ouvido: “Nossa equipe é super diversa, veja só, temos aqui negros, indígenas, mulheres, trans e um deficiente auditivo”.
Antes que me acusem de não ter lugar de fala, aviso: eu padeço de problema nos ouvidos. O que não tenho é lugar de escuta, prejudicada pela otospongiose, doença que acomete cerca de 10% da população mundial. Dentro do ouvido temos três ossinhos: martelo, estribo e bigorna. Por causas desconhecidas, em algumas pessoas esses ossinhos vão ficando esponjosos, e o que deveria fazer um tic-tac ao vibrar dos tímpanos passa a soar abafado como um poc-poc. Não tem cura, mas costuma ser um processo bem lento. Segundo meu otorrino, no ritmo da minha perda, quando eu ficar totalmente surdo, já estarei morto há décadas.
A perda, contudo, incomoda, e como não pretendo passar meus dias restantes sobre a Terra sob berros de “CRÉDITO OU DÉBITO?!” ou “ABAIXA A TV!” ou “PODE VER IPAD, PAPAI?!”, comecei a usar aparelhos. É curioso quanta gente eu descobri, depois que comecei a tocar no assunto, que também precisa usar aparelhos auditivos. Mais curioso ainda é a maioria avassaladora destas pessoas não os usar. Talvez porque associemos o uso dessas traquitanas à velhice — assim como a ela associamos a palavra “traquitana”. Acontece que cabelos brancos, calvície, rugas e pelancas também são sinais da passagem dos anos e as pessoas não costumam ter muito pudor em relação à tintura, implantes, plásticas, botox ou silicone.
Sem falar nos óculos. Ninguém deixa de usar quando surge a “vista cansada”. Conheço uma única pessoa, contudo, que aderiu aos aparelhos auditivos. Lanço aqui, portanto, uma campanha:
#APARELHAMENTO #ESCUTAESSA #VALEOOUVIDO #APARELHAGEM #NÃOOLVIDEOOUVIDO
Não me engajo na causa só por me preocupar com a saúde e a segurança dos meus amigos — a perda de audição causa depressão, degeneração neurológica; deficientes auditivos que usam aparelho vivem, em média, três anos mais do que os que não o usam. Lanço a campanha, também, porque não quero ser o único na praça com um araminho — discretíssimo, diga-se de passagem — entrando pelo ouvido. Já fui “quatro olhos”, pretendo evitar o “quatro ouvidos”.
Vamos lá, amizades. O troço conecta no bluetooth, o celular já toca dentro da sua orelha e você ouve música ou podcasts no supermercado sem precisar de fones. O melhor de tudo é chegar ao caixa e, ao ouvir a voz cristalina do funcionário mal-humorado perguntar “crédito ou débito?”, franzir o cenho e responder “O quê?” — só pra vê-lo irritado.
(PRATA, Antonio. O pior surdo é o que não quer ouvir. Folha de S. Paulo, São
Paulo, 18 fev. 2024. Cotidiano, p. B4. Disponível em: https://www1.fo-
lha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2024/02/o-pior-surdo-e-o-que-nao-quer-ou-
vir.shtml. Com adaptações).
I. o uso de aparelhos auditivos pode auxiliar os surdos em suas interações sociais.
II. a grande maioria dos surdos relaciona o uso de aparelhos auditivos a sinais da velhice.
III. o preconceito social em relação aos surdos advém do estado de solidão em que eles vivem.
IV. a publicidade em favor do uso de aparelhos auditivos garante a inclusão social dos surdos.
É CORRETO o que se afirma apenas em: