Questões de Concurso
Comentadas sobre noções gerais de compreensão e interpretação de texto em português
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TEXTO I
Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:
- Mocinha.
As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:
- Nome, nome mesmo, é Margarida.
(…)
LISPECTOR, Clarice. O grande passeio. In: Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro. Rocco, 1998, p. 29.
TEXTO II
(…)
- Bem, pode ser assim e pode não ser. Agora, tudo pronto. Dá um passo pra frente, George Jackson. E atenção, sem pressa... venha bem devagar. Se tem alguém com você, que ele fique atrás... se ele se mostrar vai levar um tiro. Venha agora. Devagar, empurra a porta pra abrir, você mesmo... uma fresta apenas para entrar se espremendo, entende?
Não me apressei, não ia dar, mesmo querendo. Dei uma passo lento de cada vez, e não tinha nenhum barulho, achei que escutava só o meu coração. Os cachorros tavam tão quietos como os humanos, mas seguiam um pouco atrás de mim. Quando cheguei nos três degraus de tora, escutei as pessoas destrancando, tirando a barra de ferro e o ferrolho. Coloquei a mão na porta e empurrei um pouco e um pouco mais, até que alguém disse: “Aí, já tá bom – bota a cabeça pra dentro”. Enfiei a cara na fresta, mas achava que eles iam cortar minha cabeça fora.
A vela tava no chão, e ali estavam todos eles, olhando pra mim, e eu pra eles, durante um quarto de minuto. Três homens grandes com espingardas apontadas para mim, o que me fez tremer, vou lhe contar. O mais velho, grisalho e com uns sessenta anos, os outros dois com trinta ou mais – todos refinados e bonitos – e uma senhora grisalha muito doce, e atrás dela duas jovens que eu não conseguia ver direito.
TWAIN, Mark. As aventuras de Huckleberry Finn. Trad. Rosaura Eichenberg. Porto Alegre: L&PM. 2011, p.112.
Quantas vezes você ficou em dúvida sobre o que fazer, tomou uma decisão, mas pouco depois acabou se arrependendo? Bem, talvez a ciência possa te ajudar. Dá só uma olhada nessas cinco dicas científicas para tomar decisões melhores. DISTANCIE-SE DO PROBLEMA Pense na situação como se ela estivesse acontecendo a amigo ou a um parente. Mas não ocorrendo com você. Isso vai te ajudar a pensar de forma mais racional. Foi o que pesquisadores da Universidade de Waterloo, no Canadá, concluíram ao pedir a voluntários para refletir sobre traição no namoro. A ideia era analisar o cenário caso isso acontecesse com eles ou com outro amigo. Em seguida, tiveram de responder a algumas perguntas – todas elas foram pensadas de acordo com critérios de pensamento coerente e racional: do tipo,reconhecer o limite do outro, considerar as perspectivas do parceiro, motivos que poderiam levar à traição, etc. E quando pensavam nos amigos, eles costumavam tomar decisões mais inteligentes, baseadas na razão e não apenas na emoção. Como fazer isso na prática? Segundo a pesquisa, basta conversar consigo mesmo como se o problema não fosse seu. PENSE EM OUTRO IDIOMA Em inglês, espanhol, tanto faz, desde que não seja seu idioma nativo. Segundo pesquisa americana, quando pensamos sobre algo usando uma língua estrangeira, o lado racional se sobrepõe ao emocional. É como se a língua gringa removesse a conexão emocional que talvez você pudesse ter ao pensar em português. TRABALHE SUA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL Se você é do tipo que entende e lida bem com as emoções (as suas e as alheias), é mais provável que não deixe motivos irracionais que nada tem a ver com a situação influenciarem nas tomadas de decisões. É o que garante uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Toronto. E isso envolve todos os tipos de emoções: da empolgação à ansiedade e estresse. “Pessoas emocionalmente inteligentes não excluem todas as emoções na hora de tomar decisões. Eles retiram só as emoções que não têm a ver com a decisão”, explica Stéphane Côté, autora da pesquisa. APAGUE A LUZ Ok, essa dica é bem estranha, mas vamos lá. Pesquisadores canadenses levaram voluntários para comer ou ler em ambientes diferentes. E quem esteve em salas bem iluminadas tendia a achar o molho mais apimentado, os personagens fictícios mais agressivos e as pessoas mais atraentes. É que ambientes iluminados parecem amplificar o lado emocional das pessoas – e, claro, influenciar nas impressões e decisões. DÊ UM TEMPO Esqueça o problema, nem que seja só por alguns poucos segundos. É o que garantem pesquisadores americanos. Segundo eles, na hora de tomar uma decisão, o cérebro reúne um monte de informações. Só que não consegue distinguir rapidamente o que é relevante ou não. Então, se houver algo contraditório, é possível que você não perceba e escolha o caminho errado. Mas quando você dá um tempo extra para que o cérebro consiga reunir outras informações e analisá-las melhor, os riscos diminuem. E nem precisa esperar tanto tempo assim: “adiar a decisão por, no mínimo, 50 milissegundos permite ao cérebro focar atenção nas informações mais relevantes e bloquear as distrações”, explica Jack Grinband, um dos autores do estudo. Adaptado de http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/5-dicas-daciencia-para-voce-tomar-boas-decisoes/
Em “A ideia era analisar o cenário caso isso acontecesse com eles ou com outro amigo.”, o termo destacado refere-se a
I- O 1º parágrafo situa a discussão, destacando o negligenciamento de ideia relevante a respeito da temática em pauta. II- O 2º parágrafo revela as causas mais prováveis do surgimento e do desenvolvimento da I.A. III- O 3º parágrafo apresenta dados estatísticos relacionados à percepção de especialistas acerca de riscos oferecidos pela I.A. IV- O 5º parágrafo encerra a discussão, sem acrescentar informações novas à temática em pauta.
Das afirmativas, estão corretas
A ordem cronológica funciona. Tentei lembrar o primeiro sabor que me deu prazer. Cheguei à canja de galinha rala que a sogra da minha madrinha cozinhava todos os dias no jantar. Com uma avó japonesa e outra italiana, ambas exímias cozinheiras, pensar na canja rala da avó de outra pessoa soa como desvio de caráter. Por minhas avós e por vaidade, tentei enganar a memória. Quem sabe me lembraria de algo mais sofisticado ou charmoso, ligado às minhas raízes, como um missoshiro com peixe seco e shiitake, ou um capeletti in brodo recheado. Não rolou. Não consigo me esquecer da tal canja rala, feita com arroz, cenoura, pouco frango, sal e só.
Me dei por satisfeita. A canja não é menos nobre que o bife da Nena ou o quindim do Vinícius.
A ordem cronológica funciona. Tentei lembrar o primeiro sabor que me deu prazer. Cheguei à canja de galinha rala que a sogra da minha madrinha cozinhava todos os dias no jantar. Com uma avó japonesa e outra italiana, ambas exímias cozinheiras, pensar na canja rala da avó de outra pessoa soa como desvio de caráter. Por minhas avós e por vaidade, tentei enganar a memória. Quem sabe me lembraria de algo mais sofisticado ou charmoso, ligado às minhas raízes, como um missoshiro com peixe seco e shiitake, ou um capeletti in brodo recheado. Não rolou. Não consigo me esquecer da tal canja rala, feita com arroz, cenoura, pouco frango, sal e só.
Me dei por satisfeita. A canja não é menos nobre que o bife da Nena ou o quindim do Vinícius.
Leia o texto para responder à questão.
Entendemos que, nas escolas, os alunos precisam estar imersos em uma cultura em que a ajuda esteja posicionada como valor considerável. Os alunos e as alunas devem saber o que é ajudar os colegas, em que podem ajudar e, além do mais, fazer-se ajudar. Assim, poderão conhecer a necessidade que, mais ou menos, todos sentem desse tipo de contribuição dos demais.
Do mesmo modo, devem aprender a oferecer ajuda aos demais e a pedi-la. A ajuda pode estar dirigida a aumentar seus conhecimentos, suas habilidades, seu bem-estar pessoal, etc. Por outro lado, devem saber pedir quando dela necessitarem — uma grande aprendizagem consiste, como já havíamos dito, justamente, em aproveitar as contribuições que os demais podem dar às nossas ações. Nesse sentido, é importante a conscientização de duas possíveis formas de dificuldades: a que consiste em não saber aproveitar as contribuições alheias e aquela que é baseada na exploração ou empobrecimento do outro em favor do próprio egoísmo. Outra aprendizagem necessária diz respeito à instalação de uma cultura de grupo, na qual a ajuda é valorizada, e exista disposição para ajudar todo aquele que a solicita ou dela necessita.
Para a aprendizagem em grupos operativos, a capacidade e a boa disposição para ajudar, assim como a disposição para pedir ajuda quando necessário, está claramente a favor da tarefa coletiva e de apropriação de conhecimentos de cada um.
(Joan Bonals. O trabalho em pequenos grupos na sala de aula. Porto Alegre:
Artmed, 2003. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
O que dá vida às escolas é o trabalho que nelas se desenvolve e as relações que ali acontecem em decorrência disso. Nesse sentido, as salas de aula são lugares privilegiados, mas é preciso pensar na vida que transcorre fora delas e que está estreitamente relacionada ao que ocorre no seu interior. O papel de secretários, porteiros, jardineiros, serventes, faxineiros, merendeiras e da equipe de manutenção articula-se ao dos gestores, professores e alunos, constituindo parte indispensável e insubstituível do organismo escolar e conferindo àqueles que o executam características de educadores.
Pode-se dizer, de certo modo, que o ambiente escolar é constituído de múltiplas educações. Na comunidade que se forma no interior da instituição e nas relações entre os sujeitos que dela participam, se entrecruzam e se influenciam diferentes saberes e vivências. Por isso, é preciso observar se a ética está presente nessa complexa rede de relacionamentos. Muitas vezes, princípios considerados no vínculo entre “iguais” — aluno-aluno, professor-professor, gestor- -gestor — são deixados de lado no contato com os outros membros da comunidade.
Do ponto de vista da ética, a relação é sempre entre iguais: são todos seres humanos, pessoas. Diferentes em seu jeito de ser, na forma como enxergam o mundo, nas funções que desempenham. Iguais em seus direitos, na sua dignidade. Iguais na diferença — é isso que reclama o princípio ético da justiça
Gosto de recorrer ao belo poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht Perguntas de um Trabalhador que Lê, que denuncia de forma contundente como tantas vezes não se consegue perceber a função dos diversos sujeitos na construção da história das sociedades. No primeiro verso, Brecht questiona: “Quem construiu a Tebas das sete portas?” E, a seguir, diz: “Nos livros está o nome dos reis”. Então volta a indagar: “Terão os reis carregado as pedras?” Provocação importante para pensarmos na construção da vida escolar. Ao perguntarmos: “Quem concebe a Educação escolar?”, deveríamos responder, criticamente: “Todos os que nesse ambiente desenvolvem parte de sua vida e ali se relacionam, ensinando, aprendendo, criando, partilhando conhecimentos, fazeres, valores e crenças. Todas as pessoas — únicas na sua identidade, iguais na sua humanidade”. O contrário da igualdade não é a diferença. É a desigualdade, algo que se cria no momento em que se rompe com os princípios éticos.
(Terezinha Azerêdo Rios. Lugar de múltiplos saberes. Disponível em:
http://goo.gl/JIErN5. Acesso em 30.01.2015. Adaptado)
— Gosto de recorrer ao belo poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht Perguntas de um Trabalhador que Lê, que denuncia de forma contundente como tantas vezes não se consegue perceber a função dos diversos sujeitos na construção da história das sociedades. —
Nesse trecho, com a afirmação de que a forma de denúncia foi contundente, a autora quer dizer que a declara- ção dada pelo poeta
Leia o texto para responder à questão.
O que dá vida às escolas é o trabalho que nelas se desenvolve e as relações que ali acontecem em decorrência disso. Nesse sentido, as salas de aula são lugares privilegiados, mas é preciso pensar na vida que transcorre fora delas e que está estreitamente relacionada ao que ocorre no seu interior. O papel de secretários, porteiros, jardineiros, serventes, faxineiros, merendeiras e da equipe de manutenção articula-se ao dos gestores, professores e alunos, constituindo parte indispensável e insubstituível do organismo escolar e conferindo àqueles que o executam características de educadores.
Pode-se dizer, de certo modo, que o ambiente escolar é constituído de múltiplas educações. Na comunidade que se forma no interior da instituição e nas relações entre os sujeitos que dela participam, se entrecruzam e se influenciam diferentes saberes e vivências. Por isso, é preciso observar se a ética está presente nessa complexa rede de relacionamentos. Muitas vezes, princípios considerados no vínculo entre “iguais” — aluno-aluno, professor-professor, gestor- -gestor — são deixados de lado no contato com os outros membros da comunidade.
Do ponto de vista da ética, a relação é sempre entre iguais: são todos seres humanos, pessoas. Diferentes em seu jeito de ser, na forma como enxergam o mundo, nas funções que desempenham. Iguais em seus direitos, na sua dignidade. Iguais na diferença — é isso que reclama o princípio ético da justiça
Gosto de recorrer ao belo poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht Perguntas de um Trabalhador que Lê, que denuncia de forma contundente como tantas vezes não se consegue perceber a função dos diversos sujeitos na construção da história das sociedades. No primeiro verso, Brecht questiona: “Quem construiu a Tebas das sete portas?” E, a seguir, diz: “Nos livros está o nome dos reis”. Então volta a indagar: “Terão os reis carregado as pedras?” Provocação importante para pensarmos na construção da vida escolar. Ao perguntarmos: “Quem concebe a Educação escolar?”, deveríamos responder, criticamente: “Todos os que nesse ambiente desenvolvem parte de sua vida e ali se relacionam, ensinando, aprendendo, criando, partilhando conhecimentos, fazeres, valores e crenças. Todas as pessoas — únicas na sua identidade, iguais na sua humanidade”. O contrário da igualdade não é a diferença. É a desigualdade, algo que se cria no momento em que se rompe com os princípios éticos.
(Terezinha Azerêdo Rios. Lugar de múltiplos saberes. Disponível em:
http://goo.gl/JIErN5. Acesso em 30.01.2015. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão.
O que dá vida às escolas é o trabalho que nelas se desenvolve e as relações que ali acontecem em decorrência disso. Nesse sentido, as salas de aula são lugares privilegiados, mas é preciso pensar na vida que transcorre fora delas e que está estreitamente relacionada ao que ocorre no seu interior. O papel de secretários, porteiros, jardineiros, serventes, faxineiros, merendeiras e da equipe de manutenção articula-se ao dos gestores, professores e alunos, constituindo parte indispensável e insubstituível do organismo escolar e conferindo àqueles que o executam características de educadores.
Pode-se dizer, de certo modo, que o ambiente escolar é constituído de múltiplas educações. Na comunidade que se forma no interior da instituição e nas relações entre os sujeitos que dela participam, se entrecruzam e se influenciam diferentes saberes e vivências. Por isso, é preciso observar se a ética está presente nessa complexa rede de relacionamentos. Muitas vezes, princípios considerados no vínculo entre “iguais” — aluno-aluno, professor-professor, gestor- -gestor — são deixados de lado no contato com os outros membros da comunidade.
Do ponto de vista da ética, a relação é sempre entre iguais: são todos seres humanos, pessoas. Diferentes em seu jeito de ser, na forma como enxergam o mundo, nas funções que desempenham. Iguais em seus direitos, na sua dignidade. Iguais na diferença — é isso que reclama o princípio ético da justiça
Gosto de recorrer ao belo poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht Perguntas de um Trabalhador que Lê, que denuncia de forma contundente como tantas vezes não se consegue perceber a função dos diversos sujeitos na construção da história das sociedades. No primeiro verso, Brecht questiona: “Quem construiu a Tebas das sete portas?” E, a seguir, diz: “Nos livros está o nome dos reis”. Então volta a indagar: “Terão os reis carregado as pedras?” Provocação importante para pensarmos na construção da vida escolar. Ao perguntarmos: “Quem concebe a Educação escolar?”, deveríamos responder, criticamente: “Todos os que nesse ambiente desenvolvem parte de sua vida e ali se relacionam, ensinando, aprendendo, criando, partilhando conhecimentos, fazeres, valores e crenças. Todas as pessoas — únicas na sua identidade, iguais na sua humanidade”. O contrário da igualdade não é a diferença. É a desigualdade, algo que se cria no momento em que se rompe com os princípios éticos.
(Terezinha Azerêdo Rios. Lugar de múltiplos saberes. Disponível em:
http://goo.gl/JIErN5. Acesso em 30.01.2015. Adaptado)
As intermitências da morte
(Fragmento)
A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste. Se é certo que nunca sorri, é só porque lhe faltam os lábios, e esta lição anatômica nos diz que, ao contrário do que os vivos julgam, o sorriso não é uma questão de dentes. Há quem diga, com humor menos macabro que de mau gosto, que ela leva afivelada uma espécie de sorriso permanente, mas isso não é verdade, o que ela traz à vista é um esgar de sofrimento, porque a recordação do tempo em que tinha boca, e a boca língua, e a língua saliva, a persegue continuamente. Com um breve suspiro, puxou para si uma folha de papel e começou a escrever a primeira carta deste dia, Cara senhora, lamento comunicar-lhe que a sua vida terminará no prazo irrevogável e improrrogável de uma semana, desejo-lhe que aproveite o melhor que puder o tempo que lhe resta, sua atenta servidora, morte. Duzentas e noventa e oito folhas, duzentos e noventa e oito sobrescritos, duzentas e noventa e oito descargas na lista, não se poderá dizer que um trabalho destes seja de matar, mas a verdade é que a morte chegou ao fim exausta. Com o gesto da mão direita que já lhe conhecemos fez desaparecer as duzentas e noventa e oito cartas, depois, cruzando sobre a mesa os magros braços, deixou descair a cabeça sobre eles, não para dormir, porque morte não dorme, mas para descansar. Quando meia hora mais tarde, já refeita da fadiga, a levantou, a carta que havia sido devolvida à procedência e outra vez enviada, estava novamente ali, diante das suas órbitas atônitas.
Se a morte havia sonhado com a esperança de alguma surpresa que a viesse distrair dos aborrecimentos da rotina, estava servida. [...] Entre ir e vir, a carta não havia demorado mais que meia hora, provavelmente muito menos, dado que já se encontrava em cima da mesa quando a morte levantou a cabeça do duro amparo dos antebraços, isto é, do cúbito e do rádio, que para isso mesmo é que são entrelaçados. Uma força alheia, misteriosa, incompreensível, parecia opor-se à morte da pessoa, apesar de a data da sua defunção estar fixada, como para toda a gente, desde o próprio dia do nascimento. É impossível, disse a morte à gadanha silenciosa, ninguém no mundo ou fora dele teve alguma vez mais poder do que eu. eu sou a morte, o resto é nada. As intermitências da morte (Fragmento)
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 139-40
Texto
Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém:
Cai no álbum de retratos.
Jn: Poesia completa e prosa. Maria da Saudade Cortesão Mendes.
Marque a alternativa correta:
A educação para a ética: sem a desculpa do "não fui só eu"
De Guilherme Perez Cabral
Precisamos parar para pensar no valor de nossas ações. Distinguir melhor o que é certo do que é errado. E nos esforçar para conseguir agir de acordo com esse entendimento. Falo de ética.
São precárias as possibilidades do nosso tempo, já disse o advogado e poeta Paulo de Tarso. E, no cenário profundamente antiético, um disparate tem chamado à atenção. Para aquele momento em que, descoberto em roubalheiras, não dá mais para negar o óbvio, o submundo da política nacional tem utilizado uma péssima desculpa. Para abrandar a pena, quem sabe, se livrar dela, com cara coitado, inocente injustiçado, diz por aí, para quem quiser ouvir: "...mas não fui só eu".
O argumento não é novo. Ouvimos de crianças em formação. Na escola onde estudei, a resposta, por si só, sempre mereceu a censura não raro maior do que a falta praticada. A novidade é o uso oficial, descarado, pela politicagem.
[...]
Roubar e falar, depois, que "não fui só eu" é sem-vergonhice, safadeza mesmo. Mais um sintoma muito sério do estado terminal ético que estamos vivendo.
[...]
A pobreza ética atual, contudo, não significa que estamos incapacitados para uma experiência melhor. Não é um dado antropológico do brasileiro, feito uma segunda natureza irreversível.
O que nos faltam são boas lições de ética, o debate e aprendizado profundo sobre o que isso quer dizer. Se o mundo adulto está quase perdido, foquemos – os que não se perderam ainda – na geração que vem. A formação ética, aliás, constitui elemento central da educação básica, conforme as Diretrizes Curriculares Nacionais. A ética não é um catálogo abstrato de bons comportamentos, aprendido numa aula de "educação moral e cívica" e, na prática, ignorado sistematicamente. Não se trata, também, de um conjunto de regras que cumprimos, sem saber muito bem o porquê, só porque Deus, o pai, o professor ou o líder espiritual ou político mandou. Ética tem a ver com deveres que cumprimos porque, para nós, isso é o certo, é o justo, ainda que o mundo insista em descumpri-los. São deveres que fazem parte de nós.
Isso é a autonomia, que define a vida democrática: a autodeterminação por normas que nos demos, que aprendemos, criticamos, melhoramos e concordamos. Por isso, seguimos, independentemente de que (e quem) estejam nos olhando. É a consciência do andar "direito", livre e responsável. Nos alerta, permanentemente, que a falta de respeito, a corrupção alheia não justifica que andemos errado também.
Texto adaptado. Disponível em: www.educacao.uol.com.br
Falsa Prisão
Tereza era filha única e pensava que o mundo era muito pequeno. Desde o seu nascimento cercaram-na por uma redoma, que além de protegê-la de muitos perigos a manteria fora do alcance dos homens quando crescesse, o que não impediu que mesmo assim fosse vista e escolhida. O noivo, disposto a qualquer sacrifício, se dispôs a conservá- la em sua cristalina prisão.
Do pequeno espaço, onde se mantinha presa, ela via o horizonte e a paisagem ao redor, onde as pessoas se moviam fora de seu alcance. Por longo tempo, imaginou a liberdade do vento e invejou a trajetória das nuvens. Até que, inesperadamente, resolveu escapar, o que só conseguiria com o impacto de seu próprio corpo arremessado contra as transparentes paredes, mesmo que para isso se retalhasse entre os cacos.
Foi então que, experimentando o medo e a coragem, verificou surpresa que a redoma, feita de tênue papel, se rompeu ao primeiro contato, deixando-a completamente liberta sem o mais leve corte ou menor sofrimento. Inteira e sem limites ganhou o horizonte.
(Simões, Maria L. Contos contidos. Belo Horizonte, 2006 - Texto adaptado)
Em um movimento de aproximar a produção agrícola das cidades, as hortas urbanas vêm ganhando espaço. São pequenos grupos de vizinhos que se reúnem e passam a plantar e administrar hortas comunitárias. Inspirado por essa tendência, o estudante de arquitetura e urbanismo Deloan Perini desenvolveu o projeto de um sistema de agricultura urbana totalmente autossustentável, a partir da realidade da cidade de Erechim, no interior do Rio Grande do Sul. Com o trabalho, o catarinense de 27 anos conquistou o 1º lugar da categoria Ensino Superior do Prêmio Jovem Cientista 2015.
“A ideia para o projeto de agricultura urbana surgiu no início de 2013, quando fiz um estudo de loteamento da cidade, em uma das disciplinas do curso de arquitetura. No segundo semestre do mesmo ano, o projeto de extensão „Erechim para quem quiser ver, discutir e intervir‟, do qual fiz parte, realizou um levantamento dos vazios urbanos existentes na área central do Município. No ano seguinte, iniciei meu trabalho final de graduação e utilizei esse levantamento como base para a implantação da agricultura urbana”, diz Deloan. Foram mapeados 144 lotes com potencial de transformação em hortas urbanas. A partir desse diagnóstico, ele desenvolveu um modelo de agricultura de acordo com as necessidades do Município, onde cursa a graduação na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).
Para Deloan, o projeto enfoca dois problemas atuais: a segurança alimentar e a qualidade dos espaços urbanos. “As pessoas preocupam-se cada vez mais com a saúde, e a alimentação contribui diretamente para a qualidade de vida. Embora muita gente não se dê conta, o espaço em que vivemos e interagimos dentro da cidade interfere constantemente na formação de nossa rotina e hábitos: por exemplo, no fato de conhecermos ou não nossos vizinhos, praticarmos ou não atividades físicas ao ar livre e até mesmo na nossa alimentação”, diz. De acordo com o estudante, ao aproximar as áreas de produção de alimentos dos consumidores finais, os custos com transporte são reduzidos, qualidade e durabilidade dos produtos aumentam e a relação das pessoas com o alimento se transforma, pois moradores passam a ser também produtores.
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/08/agricultura... - adaptado.
Acerca do texto, marcar C para as afirmativas Certas, E para as Erradas e, após, assinalar a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
( ) O Projeto, segundo Perini, centra-se em dois problemas atuais: a segurança alimentar e a qualidade dos espaços urbanos.
( ) Segundo Perini, a partir do cultivo de uma horta comunitária, os custos com o transporte dos alimentos são reduzidos.
Em um movimento de aproximar a produção agrícola das cidades, as hortas urbanas vêm ganhando espaço. São pequenos grupos de vizinhos que se reúnem e passam a plantar e administrar hortas comunitárias. Inspirado por essa tendência, o estudante de arquitetura e urbanismo Deloan Perini desenvolveu o projeto de um sistema de agricultura urbana totalmente autossustentável, a partir da realidade da cidade de Erechim, no interior do Rio Grande do Sul. Com o trabalho, o catarinense de 27 anos conquistou o 1º lugar da categoria Ensino Superior do Prêmio Jovem Cientista 2015.
“A ideia para o projeto de agricultura urbana surgiu no início de 2013, quando fiz um estudo de loteamento da cidade, em uma das disciplinas do curso de arquitetura. No segundo semestre do mesmo ano, o projeto de extensão „Erechim para quem quiser ver, discutir e intervir‟, do qual fiz parte, realizou um levantamento dos vazios urbanos existentes na área central do Município. No ano seguinte, iniciei meu trabalho final de graduação e utilizei esse levantamento como base para a implantação da agricultura urbana”, diz Deloan. Foram mapeados 144 lotes com potencial de transformação em hortas urbanas. A partir desse diagnóstico, ele desenvolveu um modelo de agricultura de acordo com as necessidades do Município, onde cursa a graduação na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).
Para Deloan, o projeto enfoca dois problemas atuais: a segurança alimentar e a qualidade dos espaços urbanos. “As pessoas preocupam-se cada vez mais com a saúde, e a alimentação contribui diretamente para a qualidade de vida. Embora muita gente não se dê conta, o espaço em que vivemos e interagimos dentro da cidade interfere constantemente na formação de nossa rotina e hábitos: por exemplo, no fato de conhecermos ou não nossos vizinhos, praticarmos ou não atividades físicas ao ar livre e até mesmo na nossa alimentação”, diz. De acordo com o estudante, ao aproximar as áreas de produção de alimentos dos consumidores finais, os custos com transporte são reduzidos, qualidade e durabilidade dos produtos aumentam e a relação das pessoas com o alimento se transforma, pois moradores passam a ser também produtores.
http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/08/agricultura... - adaptado.
Quanto ao texto, analisar os itens abaixo:
I - Hortas urbanas geralmente caracterizam-se como comunitárias, pois são grupos de vizinhos que se reúnem e passam a cultivar e administrá-las.
II - A ideia do projeto de agricultura urbana de Perini surgiu a partir de um estudo de loteamento da cidade de Erechim, o qual ele mesmo fez.
III - O projeto de Perini foi premiado em 1º lugar na categoria Ensino Superior do Prêmio Jovem Cientista.
Está(ão) CORRETO(S):