Questões de Concurso
Comentadas sobre morfologia em português
Foram encontradas 21.514 questões
O Sol é a estrela que mantém o Sistema Solar unido graças à sua gravidade. Sem sua presença, a vida na Terra como conhecemos não seria possível. A conexão e as interações entre a estrela e este planeta determinam as estações do ano, as correntes oceânicas, o tempo e o clima, entre outras coisas, de acordo com a NASA – agência espacial norte-americana.
O Sol tem um impacto importante sobre o clima da Terra: ele é considerado um garantidor da vida, pois ajuda a manter o planeta quente o suficiente para que ela exista. No entanto, a estrela mais próxima da Terra não é responsável pela tendência de aquecimento global registrada nas últimas décadas. De acordo com NASA, o aquecimento global em evidência nas últimas décadas é um evento muito precoce para ser vinculado às mudanças na órbita da Terra e grande demais para ser causado pela atividade solar, diz a agência espacial. A NASA vem estudando a estrela do Sistema Solar há bastante tempo e, segundo a agência, há duas evidências que refutam a crença de que o Sol é a causa do aquecimento global.
Por um lado, observa a agência, a quantidade de energia solar que atinge a atmosfera superior tem sido monitorada desde 1978, e os cientistas conseguiram determinar que não houve tendência de aumento na quantidade de energia solar que atinge o planeta. "Uma segunda evidência irrefutável é que, se o Sol fosse responsável pelo aquecimento global, esperaríamos ver um aumento nas temperaturas em todas as camadas da atmosfera. Na realidade, o que se observa é um aquecimento na superfície e um resfriamento na estratosfera. Isso é consistente com o fato de esse fenômeno ser devido a um acúmulo de gases que retêm o calor perto da superfície da Terra", informa a NASA.
Como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU aponta, há um amplo consenso científico de que as variações de longo e curto prazo na atividade solar desempenham apenas um papel muito pequeno no clima da Terra. De fato, o aquecimento causado pelo aumento dos gases de efeito estufa induzido pelo ser humano é muito maior do que os efeitos decorrentes das variações recentes da atividade solar. Desde 1750, o aquecimento causado pelos gases de efeito estufa, provenientes da combustão de combustíveis fósseis, é mais de 270 vezes maior do que o leve aumento nas temperaturas do próprio sol no mesmo intervalo de tempo.
(Fonte: National Geographic Brasil — adaptado.)
I. Na frase “Não escutei o que falaram de você”, o termo sublinhado é um advérbio de negação. II. Na frase ”Perto de casa, há bancos e mercados”, o termo sublinhado é um advérbio de lugar. III. Na frase ”Fez o dever de casa às pressas”, o termo sublinhado é um advérbio de intensidade. IV. Na frase ”Possivelmente, precisarei de mais horas para dormir”, o termo sublinhado é um advérbio de afirmação.
Estão CORRETOS:
I. Raiz, radical, tema, afixos, desinências, vogal temática, vogais e consoantes de ligação são elementos estruturais, mórficos, das palavras.
II. Entre os processos de formação de palavras, há o denominado derivação imprópria, que consiste em substituir a terminação de um verbo pelas desinências “a”, “e” ou “o”.
III. No processo de composição por aglutinação, unem-se dois ou mais vocábulos ou radicais, com supressão de um ou mais de um de seus elementos fonéticos. Ao aglutinarem-se, os componentes subordinam-se a um só acento ténico, o do último componente.
Quais estão corretas?
Atenção: O texto a seguir deve ser utilizado como base para responder à questão:
O cão e a máscara
Um cão procurava um osso para roer, quando encontrou uma máscara. Era muito formosa, bemfeita e possuía muitas cores. Não procurou mais. Farejou-a e logo reconheceu que não era nada que pudesse ser comido, era apenas uma máscara. Então, o cão desviou-se e pensou: “A cabeça é bonita, mas não tem miolos”.
(Fonte: https://www.pensador.com/fabulas_mais_conhecidas_de_esopo_com_moral/. Acesso em 12/12/2022. Com adaptações)
Atenção: O texto a seguir deve ser utilizado como base para responder à questão:
O cão e a máscara
Um cão procurava um osso para roer, quando encontrou uma máscara. Era muito formosa, bemfeita e possuía muitas cores. Não procurou mais. Farejou-a e logo reconheceu que não era nada que pudesse ser comido, era apenas uma máscara. Então, o cão desviou-se e pensou: “A cabeça é bonita, mas não tem miolos”.
(Fonte: https://www.pensador.com/fabulas_mais_conhecidas_de_esopo_com_moral/. Acesso em 12/12/2022. Com adaptações)
Sobre o texto lido, julgue os itens abaixo:
I. “Era muito formosa, bem-feita e possuía muitas cores”. Ambos os verbos destacados concordam com o sujeito “uma máscara”.
II. “Era muito formosa, bem-feita e possuía muitas cores”. Se a palavra “formosa” estivesse no plural, o termo destacado concordaria no plural, assim como em “muitas cores”.
Atenção: O texto a seguir deve ser utilizado como base para responder à questão:
O cão e a máscara
Um cão procurava um osso para roer, quando encontrou uma máscara. Era muito formosa, bemfeita e possuía muitas cores. Não procurou mais. Farejou-a e logo reconheceu que não era nada que pudesse ser comido, era apenas uma máscara. Então, o cão desviou-se e pensou: “A cabeça é bonita, mas não tem miolos”.
(Fonte: https://www.pensador.com/fabulas_mais_conhecidas_de_esopo_com_moral/. Acesso em 12/12/2022. Com adaptações)
(Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgl3vpk2rdgo. Adaptado).
Em relação às classes gramaticais presentes na frase, é correto afirmar que:
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Por que temos lembranças falsas mesmo com uma boa memória?
Já aconteceu de você se lembrar perfeitamente de ter deixado as chaves em um certo lugar de forma que, se elas não estão ali, é porque alguém as pegou e depois descobrir que elas estavam todo o tempo no seu bolso? Ou você, alguma vez, ouvir um amigo contar algo que aconteceu com você e a história dele ser bem diferente do que você se recorda?
Essas experiências nos deixam um tanto perturbados. Mas elas ocorrem com frequência e, às vezes, nem as percebemos.
"Todas as pessoas têm recordações falsas o tempo todo, mesmo as que acreditam ter a melhor memória do mundo", garante a psicóloga Julia Shaw, do University College de Londres.
Shaw se refere particularmente à memória autobiográfica, "as lembranças das nossas vidas que vêm frequentemente acompanhadas de um rodapé intitulado 'componentes multissensoriais': recordar como se sentia, o que sabia, como via a si, como sonhava... com emoções fortes".
"Essas [lembranças] são muito mais complexas do que [recordar] um evento", explicou Shaw ao programa Life Scientific, da BBC.
Para se recordar de um evento — por exemplo, "no dia 11 de setembro de 2001, houve um ataque às Torres Gêmeas em Nova York" — não é preciso acessar muitos locais do cérebro.
Mas, quando revivemos uma experiência própria, é preciso conectar todas as partes do cérebro responsáveis pelas diferentes sensações, formando uma grande e complicada rede de neurônios.
Shaw adverte que as lembranças não são o registro exato do passado, como gostaríamos de imaginar. Segundo ela, estudos científicos já confirmaram, mais de uma vez, que a forma como recordamos é inevitavelmente defeituosa e costuma guardar pouca relação com eventos que podem ser verificados.
Crise de identidade
"Somos a nossa memória, somos esse imenso museu de formas inconstantes, essa porção de espelhos quebrados", disse o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Ele conseguiu compreender muito bem que as recordações são realidades dinâmicas, mutantes e imprecisas. Mas, se "somos a nossa memória" e ela é tão pouco confiável... será que nós somos mentiras?
Em certo sentido, sim. Porém, o fato de que nunca poderemos ter a certeza de que o que recordamos está certo não deve nos preocupar, segundo a especialista em lembranças falsas. "Acredito que é uma visão muito importante de como funciona o nosso cérebro", explica Shaw. "E, em última instância, o nosso cérebro não existe simplesmente para registrar o passado de forma perfeita e confiável. Ele está ali para navegar pelo presente e pensar no futuro".
"Estas coisas maravilhosas e criativas são excelentes para resolver problemas, permitem que sejamos inteligentes, recombinam criativamente informações recolhidas no passado e as unem de forma que nunca havíamos feito antes, para criar uma nova história, uma nova solução ou uma nova ideia."
"É para isso que ele é adaptado e, portanto, coisas como falsas recordações são um subproduto dessa incrível capacidade de inteligência", afirma a psicóloga [...] "Você retira e coloca partes, porque esquece algumas ou toma emprestadas recordações de outras pessoas, ou de outras fontes", explica ela. "O que é intrigante sobre as recordações é que nós não temos acesso à versão original, mas apenas àquela que fizemos da última vez".
Retirado e adaptado de: BBC News Brasil. Por que temos lembranças falsas mesmo com uma boa memória. BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3g6yyrgqwgo Acesso em: 29 out., 2023.
Analise o seguinte trecho, retirado de "Por que temos lembranças falsas mesmo com uma boa memória?":
... a forma como recordamos é inevitavelmente defeituosa e costuma guardar pouca relação com eventos que podem ser verificados.
Assinale a alternativa que poderia substituir a expressão em destaque no trecho sem prejuízo de valor:
Onda prolongada de calor na Sibéria gera alerta entre cientistas.
Localizada na região russa da Sibéria, a cidade de Verkhoyansk registrou calor de 38º C no sábado (20), segundo indicadores do site de meteorologia local Pogoda i Klimat. A Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), entidade ligada às Nações Unidas, reconhece preliminarmente a temperatura como um recorde nos arredores do Ártico, considerando medições realizadas desde 1885.
“A WMO preliminarmente aceita que foi batido um novo recorde, ainda sendo necessária uma revisão detalhada”, disse, ao jornal americano The Washington Post, Randy Cerveny, que lidera equipe da organização responsável por validar registros.
O possível recorde foi compartilhado por meteorologistas de todo o mundo ao longo deste final de semana e pela ativista sueca Greta Thunberg. Outras máximas acima dos 30º C foram detectadas na região nos últimos dias.
Em maio, as temperaturas registradas na Sibéria estiveram 10º C acima da média histórica, segundo dados do Serviço Copernicus da Mudança Climática (C3S), um programa afiliado à Comissão Europeia, que coleta dados da região desde 1979.
Segundo o cientista climático Martin Stendel, o desvio de temperatura no noroeste da Sibéria no mês passado aconteceria apenas uma vez em 100.000 anos, se não fosse pela mudança climática.
O C3S destaca o prolongamento da alta de temperaturas, que, segundo a entidade, vem superando a média histórica desde janeiro. “É sem dúvida um sinal alarmante”, disse Freja Vamborg, cientista sênior da organização.
A Sibéria tende a apresentar variações significativas de temperaturas a cada mês, mas o C3S considera anormal que as médias estejam consideravelmente mais altas por tantos meses seguidos.
Embora a Terra como um todo esteja aquecendo, o aumento da temperatura não ocorre uniformemente em todo o planeta, disse Vamborg. Segundo a cientista, o oeste da Sibéria se destaca como uma região com maior tendência de aquecimento e maiores variações de temperatura.
Os cientistas dizem que a região do Ártico está esquentando, em média, duas vezes mais rápido que o resto do planeta, como consequência do aquecimento global.
No início deste ano, o Centro Hidrometeorológico da Rússia informou que o país registrou seu inverno mais quente nos 140 anos de história de observações meteorológicas.
As temperaturas mais quentes já parecem ter impactos negativos.
No início deste mês, o presidente russo Vladimir Putin ordenou estado de emergência na cidade siberiana de Norilsk, depois que 20.000 toneladas de combustível foram derramadas em um rio próximo a partir de uma usina.
Nornickel, a controladora da empresa de energia, disse que a fundação do tanque de armazenamento possivelmente afundou devido a um degelo, destacando os perigos que as temperaturas cada vez mais quentes representam para a infraestrutura e os ecossistemas do Ártico, segundo a agência de notícias estatal russa Tass.
Sergey Verkhovets, coordenador de projetos do Ártico da filial russa do WWF, disse que o incidente levou a consequências catastróficas.
“Veremos os efeitos nos próximos anos”, disse Verkhovets. “Estamos falando de peixes mortos, plumagem poluída de pássaros e animais envenenados”.
No ano passado, incêndios devastaram o Ártico em níveis sem precedentes, intensificando emissões de efeito estufa na atmosfera, segundo estimativas oficiais da Rússia.
FREIRE, Diego. CNN Brasil. “Onda prolongada de calor na Sibéria gera alerta entre cientistas”. (São Paulo, 2020). Disponível em. https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/onda-prolongada-de-calor-na-siberia-gera-alerta-entre-cientistas/ADAPTADO.
Silêncio
É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecêlo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. [...]
Clarice Lispector. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Considere as seguintes palavras:
I. Ambivalência.
II. Artimanhas.
III. Soubéssemos.
Nas palavras dadas, observa-se morfema de flexão de número apenas em:
Silêncio
É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecêlo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. [...]
Clarice Lispector. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Considere as seguintes sentenças, retiradas do texto:
I. “Se és morte, como te alcançar.”
II. “Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade”
III. “Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação”
As palavras “te”, “sua” e “este”, que ocorrem nas sentenças dadas, são, respectivamente, pronomes dos tipos:
Silêncio
É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecêlo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. [...]
Clarice Lispector. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Considere as seguintes palavras:
I. esforçada.
II. amanhecer.
III. pedante.
Apresenta(m) morfema flexional de gênero apenas a(s) palavra(s):
A entidade organizadora do exame 'identificou' que estudantes de 15 anos que 'tinham' o hábito de 'lerem' livros em papel fizeram 49 pontos.
Os verbos destacados encontram-se conjugados, respectivamente, no: