Questões de Concurso Sobre morfologia - pronomes em português

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Q1179295 Português
Leia um trecho do romance Um certo Capitão Rodrigo , de Érico Veríssimo, para responder a questão.

     Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho1 puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão2 , vestia calças de riscado, botas com chinelas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã3 militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Ni - colau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo4 , entrou arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque5 , e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
    – Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!
(Um certo Capitão Rodrigo. Editora Abril Cultural, 1981) 

1 barbicacho: cordão
2 alazão: cavalo de pelo castanho
3 dólmã: casaco curto
4 cinamomo: tipo de árvore
5 rebenque: pequeno chicote
Assinale a alternativa em que a expressão destacada foi empregada de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa.
Alternativas
Q1179286 Português
Leia o texto para responder a questão.

Disciplina

    Qual a diferença entre um atleta excepcional e um medíocre? Entre um artista admirado e um ator anônimo? Entre um sedentário obeso e alguém com uma barriga enxuta e bem definida? Entre uma família próspera e outra com problemas financeiros?
    Nada de sorte, genética ou dom. O que diferencia as conquistas dos fracassos é a dedicação, que pode ser traduzida em disciplina para estabelecer metas e persegui-las.
   A diferença entre sonhar e realizar está na ação que empregamos em direção ao sonho. Já dizia Peter Drucker que a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo.
   Enquanto alguns sonham com uma promoção, outros dedicam horas a cursos de especialização para agregar valor a seu currículo.
  Enquanto alguns sonham em viajar para o exterior , outros agendam suas férias e mergulham nas pesquisas de promoções de agências de viagem.
   Planejar é muito mais do que organizar e fazer contas. Envolve questionar, ver e rever suas escolhas, estudar alternativas, debater dúvidas e soluções, enfim, focar em seus objetivos e ajustar regularmente suas ações, com base em novos conhecimentos.
  Esse pacote de ações pode ser traduzido como disciplina. Com ela, ficam mais curtos os caminhos para alcançarmos todos os nossos objetivos, sejam eles profissionais ou não.
  O fato é que cultivar a disciplina em nossa rotina pessoal e familiar pode trazer grandes ganhos.
  Pais disciplinados com a hora das refeições e do banho criam filhos disciplinados em todas as áreas – da alimentação às finanças pessoais –, e que serão mais capazes de plane - jar a superação de adversidades.
 Não se deve confundir, porém, o incentivo à disciplina com a anulação da individualidade e da personalidade. O que não pode servir de desculpa é afirmar que não temos pro - pensão natural à disciplina. Um dia perceberemos que essa desculpa nos custará caro.
(Gustavo Cerbasi. Folha de S.Paulo, 13.09.2010. Adaptado)
Considere as frases elaboradas a partir do texto.
•  Ter disciplina é fundamental e quando cultivamos a disciplina em nosso dia a dia, ela pode nos trazer muitos ganhos. •  Procurar superar adversidades é uma atitude saudável, e os filhos disciplinados são mais propensos a superar adversidades.
De acordo com o emprego e a colocação dos pronomes estabelecidos pela norma-padrão, os trechos destacados podem ser substituídos, respectivamente, por:
Alternativas
Q1178949 Português
Considere as seguintes afirmações referentes à frase “o conteúdo era cobrado em forma de uma avaliação”:
I. Ela está expressa na voz reflexiva. II. Caso fosse escrita com o pronome apassivador “se”, a frase ficaria assim: “cobrava-se o conteúdo em forma de uma avaliação”. III. O verbo auxiliar seguido do particípio do verbo principal é responsável pela formação da voz ativa.
Quais estão corretas?
Alternativas
Q1177897 Português

Texto para o item.

Internet:<www.itaucultural.org.br>(com adaptações).

Considerando a correção gramatical e a coerência das substituições propostas para vocábulos e trechos destacados do texto, julgue o item.


“em que a” (linha 33) por cuja.

Alternativas
Q1176776 Português





Durval Muniz de Albuquerque Júnior. De amadores a desapaixonados: eruditos e intelectuais como distintas figuras de sujeito do conhecimento no Ocidente contemporâneo. In: Trajetos. Revista de História da UFC, v. 3, n.º 6, 2005, p. 55. 
Internet: <www.revistatrajetos.ufc.br> (com adaptações).

Julgue o item no que se refere às estruturas linguístico‐gramaticais do texto.



Na linha 1, manteria a correção gramatical e os sentidos originais do texto a inserção do vocábulo “‐se” após a forma verbal “transitava”, devido à presença desse mesmo elemento na forma verbal “caracterizava‐se”.

Alternativas
Q1176635 Português

Texto para o item. 




Elisa Campos Machado. Bibliotecas comunitárias como prática
social no Brasil. 2008. Tese (Doutorado em Ciência
da Informação), Escola de Comunicações e Artes,
Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 2008,
p. 77‐78. Internet: <www.teses.usp.br>
(com adaptações).



Julgue o item em relação aos aspectos linguísticos do texto.


Sem prejuízo para a correção gramatical, a expressão “com o objetivo de integrar” (linha 19) pode ser substituída por cujo propósito era o de agregar.


Alternativas
Q1176578 Português
A partir da leitura atenta da tira e da Gramática Normativa da Língua Portuguesa, analise as afirmativas abaixo.
I. Considerando que o humor da tira representa um momento de quebra de expectativa em relação ao discurso feminista que vinha sendo elaborado pela personagem, é possível afirmar que o texto não-verbal registra com precisão esse momento, indicando surpresa nessa quebra. II. Na expressão a seguir “Nossa geração é diferente”, o pronome possessivo caracteriza a geração de quem enuncia o discurso em oposição à geração de Mafalda, sua interlocutora. III. A expressão “Portanto”, no terceiro quadrinho, reforça a ideia de explicação que é reiterada na tira, ao se exaltar o discurso científico como pedante e exaustivo. IV. A oração “Quando eu crescer”, no último quadrinho, é classificada como um Oração Subordinada Adverbial Temporal.
Alternativas
Q1176524 Português
Leia o texto para responder à questão.

          A capacidade de apagar a própria conta do Facebook e a audácia de gabar-se disso não se devem a uma suposta superioridade intelectual, mas a condições privilegiadas. Para milhões de pessoas fora da América do Norte e Europa Ocidental, a realidade é outra: o Facebook é a internet. Quando se apaga a conta, é como se o indivíduo se retirasse para as profundezas escuras da selva.       
         A maioria dos usuários ocidentais de redes sociais provavelmente não tem consciência da extensão com que o Facebook permeia o cotidiano de outros países. Escrevo em Kiev, capital da Ucrânia, onde meu plano local de telefonia celular inclui acesso gratuito ao Facebook, ao Facebook Messenger e às suas subsidiárias, WhatsApp e Instagram, entre outros serviços.
         Na Ucrânia, cada vez mais, a plataforma se torna a rede social para todos os fins. Enquanto americanos usam o e-mail para sua correspondência profissional e o LinkedIn para contatos profissionais, os ucranianos se valem do Facebook também para essas finalidades, incluindo todas as suas credenciais e filiações profissionais em seu perfil.
         A situação na Ucrânia é algo que provavelmente é familiar aos brasileiros, onde as operadoras de celular também oferecem acesso gratuito às plataformas de rede social. Informa-me por e-mail minha colega Anna Prusa, do Brazil Institute do Wilson Center, que, assim como ocorre na Ucrânia, “Facebook e WhatsApp são fundamentais no que se refere à comunicação entre os brasileiros, desde grupos de família até comunicações profissionais.”
     Com o acesso ao celular tornando-se onipresente, mais pessoas hoje fazem uso quase exclusivamente de serviços baseados na internet. Mais de 83% dos brasileiros fizeram uma chamada de vídeo ou voz no ano passado por meio de algum aplicativo da internet.

(Nina Jankowicz. Abandonar o Facebook é mais fácil para países ricos.
www1.folha.uol.com.br, 18.05.2019. Adaptado)
Assinale a alternativa em que a colocação do pronome está em conformidade com a norma-padrão.
Alternativas
Q1175787 Português
Se os recursos coesivos inexistissem, os textos não seriam dotados de unidade de sentido. É para tornar coerente a construção textual que os pronomes, entre outras funções, são empregados. Levando-se em conta tal postulado, considere as seguintes afirmações sobre pronomes destacados em negrito:
I. “sua” (l. 31) está se referindo à “mulher mais linda do mundo” (l. 30). II. “seus” (l. 32) está retomando diretamente “próprios demônios” (l. 32). III. “seu” (l. 34) está se referindo a “outros” (l. 33).
Quais estão corretas?
Alternativas
Q1175746 Português

A questão refere-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados na questão.


QUESTÃO 08 – Um dos papéis exercidos pelos pronomes é assegurar a coesão entre as frases descritas num texto. Levando-se em conta tal pressuposto, considere as seguintes afirmações:


I. O pronome “ele” (l. 06) está retomando diretamente a palavra “mundo” (l. 04).

II. O pronome “ela” (l. 12) está retomando diretamente a palavra “pessoa” (l. 12).

III. O pronome “ele” (l. 41) está retomando diretamente a palavra “dia” (l. 39).


Quais estão corretas?


Alternativas
Q1174746 Português
Leia o texto para responder a questão.

Nós, Cartão-postal com touros em Madri, O Corcovado e o Redentor daqui, Salvador, Roma, Amor, Onde quer que estejamos juntos Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés E desvãos do ser.
(Livro, PolyGram,1997)

No verso “Multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés”, há um pronome
Alternativas
Q1173965 Português


Internet:<https://exame.abril.com.br>(com adaptações).

No que se refere aos aspectos linguísticos e gramaticais do texto, julgue o item.


No trecho “Este é um dos assuntos presentes em discussões propostas por instituições ambientalistas” (linhas 9 e 10), “Este” é um pronome demonstrativo que se refere a Dia Mundial da Limpeza.
Alternativas
Q1173880 Português

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/14/cultura/1560533971_274766.html - Texto adaptado para esta prova.

A respeito de pronomes destacados no texto, analise as seguintes assertivas:


I. O pronome ‘a’ (l. 02) retoma ‘cena’ na mesma linha.

II. O pronome ‘o’ (l. 04) retoma ‘mendigo’ (l. 01).

III. O pronome ‘a’ (l. 18) retoma ‘primeira’ (l. 17).


Quais estão corretas?

Alternativas
Q1173127 Português
Leia o texto para responder a questão.

       A entrevista estava marcada na casa dele, numa das favelas mais pobres de Fortaleza. De manhã bem cedo, eu e o fotógrafo esperávamos, na porta de uma ONG ainda fechada, o educador que nos levaria até aquele emaranhado de endereços desencontrados, um território dividido por duas quadrilhas rivais do tráfico de drogas. O menino apareceu de repente, vestido com uma camiseta do Brasil. Sem olhar para mim, ele disse: “Na minha casa, não.” Não dizia o porquê. Apenas sacudia a cabeça em sinal de negativa explícita. Ele era pequeno para os seus 15 anos, mas o seu “não” era enorme.
       A porta da ONG abriu, e ele entrou. Sentou-se na cadeira da recepção e tentou ligar o computador. Passou-se muito tempo, talvez quase uma hora de silêncios entre nós, interrompidos por uma ou outra palavra que servia ao menino apenas como demarcação do território. O território que ele não queria que eu alcançasse, as palavras curtas marcando que não haveria palavras longas. Eu não sabia se tinha o direito de continuar ali, talvez nunca saiba. Mas ele também não ia embora.
    Então a cozinha da ONG abriu. E, de um salto, ele já estava lá. Como se eu fosse um vira-lata esquecido, me chamou com displicência. Mas ainda não me olhava. Sentei-me diante dele e o vi devorar um pão em menos de um minuto. No segundo pão, ele me enxergou pela primeira vez, oferecendo-me um pedaço. A certa altura, parecendo com pena de mim, disse:
   – Você entende só um pouco de português, né?
     O menino tinha razão. Eu não alcançava a riqueza da sua língua portuguesa, que dava conta de um Brasil diverso, com palavras nascidas ali mesmo. Expressões gestadas na necessidade de dar conta de uma realidade na qual era necessário, por exemplo, nomear o momento-limite em que o gatilho da arma é acionado, mas a bala não sai.
     Mas era mais do que isso. Eu demorei a lê-lo. Eu era analfabeta dele. O seu “não” da altura de um edifício, a postura do seu corpo, entre acuada e pronta para saltar no meu pescoço, o seu medo de mim, que às vezes beirava a raiva, era fome. Frequentemente me deparei com essa fome, a fome que é um substantivo sem adjetivo possível.
     O menino me leu muito antes de eu a ele. Percebeu que eu era estrangeira ao seu Brasil. Estranhou a cor da minha pele, a tonalidade do meu cabelo, a forma e o som das minhas palavras. Estranhou que eu precisasse de tradução para algumas de suas frases. Estranhou porque havia que estranhar.

(Eliane Brum. Limites da linguagem. https://brasil.elpais.com, 04.08.2014. Adaptado)
Encontra-se em conformidade com a norma-padrão da língua, quanto à colocação dos pronomes, a seguinte frase:
Alternativas
Q1171079 Português

 A questão refere-se ao texto abaixo.



Assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas tracejadas das linhas 25, 28 e 30.
Alternativas
Q1169832 Português

Texto especialmente adaptado para esta prova. Disponível em: https://www.contioutra.com/pessoassaudaveis-nao-saem-por-ai-ferindo-as-outras/. Acesso em 06 mai. 2019.

A palavra “alguém” (l. 25), localizada no texto, constitui um pronome:
Alternativas
Ano: 2019 Banca: INTEGRI Órgão: FIEC Prova: INTEGRI - 2019 - FIEC - Procurador Jurídico |
Q1169478 Português

Eu tenho medo

Walcyr Carrasco


Parece história de humor negro. Não é. Aconteceu de verdade, é realmente um horror. Um amigo, médico dermatologista, foi fechado por um caminhão num dos acessos à Avenida 23 de Maio, em São Paulo. O carro saiu da pista, despencou pela ribanceira e colidiu com arbustos, pedras, desníveis de terreno. Meu amigo bateu a cabeça, ensanguentou-se. Primeiro horror: o caminhão fugiu. Sei que isso não surpreende ninguém. Nunca ouvi a história de um caminhão que parasse após provocar um acidente. Um funcionário meu recentemente foi fechado por um, em plena Via Dutra. Ele se machucou, o carro amassou em toda a lateral. O caminhoneiro acelerou, para se ver livre da responsabilidade. A história começa com esse horror com que me acostumei: caminhões não param nem para ver se a gente está vivo. Ainda dentro do carro, sangrando, meu amigo médico pegou o celular para pedir socorro. Estava sem bateria. Um Gol parou. Dois rapazes desceram e ofereceram ajuda. Auxiliaram-no a subir a rampa até uma empresa, cujo segurança, finalmente, chamou a polícia. O acidentado voltou para o carro. As duas “almas bondosas” haviam roubado tudo o que ele tinha. Sim, os rapazes do Gol levaram celular, carteira, cartões de crédito, bolsa. Tudo. E fugiram. É um segundo horror, que superdimensiona o outro. O pior é a conclusão do médico:

– Ainda bem que eu estava sem bateria e não fiquei no carro. E que não cheguei quando roubavam. Aí, teriam acabado comigo.

Verdade absoluta. Teria sido fácil, para roubar, acabar com o médico ensanguentado. Nem deixariam pistas, tudo seria debitado ao acidente.

Esse acontecimento me provoca um pavor profundo. Estou ficando velho. Sou de um tempo em que mesmo adolescente, às vezes, quando saía, amanhecia no ponto de ônibus esperando o primeiro da minha linha. Quantas vezes amigos e eu passamos o final da madrugada no banco de uma praça, batendo papo até o ônibus chegar? Também sou de um tempo em que, para viajar, ia para a estrada e pegava carona. Era fácil, sempre havia um carro que parava. De carona em carona, eu chegava ao meu destino. Nem sabia o que era pegar ônibus para viajar. Avião, menos ainda. Hoje, eu mesmo não paro quando alguém me pede carona. Tenho medo. Mesmo porque são inúmeros os casos em que a generosidade é recompensada com assaltos e agressões. Até assassinatos.

Assaltos sempre aconteceram. Psicopatas existem. O que me apavora é essa sensação disseminada de vale-tudo na nossa sociedade. Comecei a contar a história do médico a três outros amigos. Todos, antes de eu terminar, disseram:

– Aposto que os caras do Gol tinham roubado tudo.

A completa falta de ética já é esperada, tida como normal. É intrínseca à sociedade nacional. Não posso falar por todos os países do mundo. Costumo viajar, andar à noite pelas ruas, eventualmente ser ajudado por desconhecidos. Esse descaso com o outro, só vejo mesmo por aqui. Um ator conhecido certa vez viu uma mulher atropelada na rua, abandonada pelo autor do acidente. Botou no seu próprio carro e levou ao hospital. Não deu outra: mais tarde a dita-cuja o acusou de ser responsável pelo atropelamento. Exigiu indenização. Em vez de agradecer, deu um golpe. Soube também de donos de automóveis que instalam câmeras em seus veículos, porque há gente que se atira na frente, para mais tarde processar. A gravação serve para provar a má intenção da “vítima”. Resultado: se atropelar alguém, óbvio, socorrerei. Mas terei medo de pôr no meu carro alguém que encontre ferido, atropelado, precisando de ajuda, porque tudo pode se voltar contra mim.

Aí meu medo aumenta. Já não é mais relacionado a ser assaltado, sofrer alguma violência. É o que o medo do medo faz comigo, interiormente. Me sinto uma pessoa muito menos disposta a ser generosa. Sempre estranhei as recomendações do seguro: no caso de problema com o carro, chamar o socorro e ficar distante do veículo, até sua chegada. Depois do episódio com o médico, entendo. O ferido está mais exposto. Nem falo das mulheres assassinadas só por esboçar um gesto de defesa quando querem roubar suas bolsas. Só isso daria um livro.

O amor ao próximo, o sentimento pelo outro, foi eliminado de nossas relações sociais. Resta o medo, o mesmo que sinto dentro de mim. Não só do que me assusta. Mas que me transforma em alguém pior do que eu queria ser.

(Revista Época, n. 856, 27 out. 2014, p. 106)

Há a ocorrência de pronome demonstrativo em:
Alternativas
Q1169330 Português

Cem anos de perdão


    Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

      Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.” “Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

      Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

      Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

      Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

      Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

      E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

      O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

      Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

       Foi tão bom.

      Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

      Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

      Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 408-410.

E não havia jeito de obtê-la(1). Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria(2) como se expulsam(3) moleques. [...] No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la(4) como coisa só minha.


Considerando as regras de colocação pronominal, tanto a próclise quanto a mesóclise podem ser USADAS na expressão de número:

Alternativas
Q1169327 Português

Cem anos de perdão


    Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.

      Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.” “Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.

      Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.

      Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta cor-de-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.

      Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.

      Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.

      E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.

      O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.

      Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.

       Foi tão bom.

      Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.

      Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.

      Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016. p. 408-410.

Eu queria poder pegar nela.


Atendendo ao critério sintático, para preservar a regência verbal, e ao semântico, para preservar o sentido, é possível ALTERAR essa frase para:

Alternativas
Respostas
7741: B
7742: E
7743: B
7744: E
7745: E
7746: C
7747: A
7748: C
7749: B
7750: B
7751: C
7752: E
7753: E
7754: D
7755: E
7756: A
7757: C
7758: A
7759: B
7760: C