Questões de Concurso
Sobre interpretação de textos em português
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Pássaros As mãos que dizem adeus são pássaros Que vão morrendo lentamente... (Mário Quintana)
(Cereja, W. R.; Magalhães, T. C. Gramática: texto, reflexão e uso. 3. ed. reform. São Paulo: Atual, 2008).
A figura de linguagem empregada no trecho acima é uma:
“Vícios de linguagem são incorreções e defeitos no uso da língua falada ou escrita. Originam-se do descaso ou do despreparo linguístico de quem se expressa” (CEGALLA, 2005). Contudo, conforme o dicionário Houaiss (2001), o termo “Licença Poética” é definido como a “liberdade de o escritor utilizar construções, prosódias, ortografias, sintaxes não conformes às regras, ao uso habitual, para atingir seus objetivos de expressão”. Nos versos em destaque da letra “Pais e filhos” abaixo, encontramos incorreções propositais às quais o autor recorre, valendo-se de sua “licença poética” (HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles. Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001).
Me diz por que que o céu é azul Me explica a grande fúria do mundo São meus filhos que tomam conta de mim Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar Eu moro na rua, não tenho ninguém Eu moro em qualquer lugar Já morei em tanta casa que nem me lembro mais Eu moro com meus pais (RUSSO, R. Pais e filhos. Disponível em: https:// www.letras.mus.br/renato-russo/75858/. Acesso em: 20 fev. 2022).
Tais incorreções são identificadas pela norma culta como:
Ainda que tanto o estudante negro quanto o branco assistam às mesmas aulas e estudem pelos mesmos livros, este é apenas um aspecto muito reduzido de sua formação. A criança e o adolescente refletirão boa parte das expectativas que seus pais, professores e colegas depositam nele. Se o aluno branco é visto por seus professores como ‘brilhante’ e o negro como ‘esforçado’, esta diferença acumulada durante mais de 10 anos de estudos resultará em níveis de autoconfiança bastante diferentes. O negro já entra na escola com um menor status social perante seus colegas e isso lhe será relembrado durante todo o período escolar, desde os apelidos que lhe serão dados até o eventual desafio de um namoro interracial na adolescência.
(MOREIRA, Martha. Cotas da Igualdade. Disponível em: . Acesso em 01 set. 2022.)
Sobre a opinião da jornalista acerca das ações afirmativas, assinale a alternativa que descreve, corretamente, o fato em que ela se baseia.
Como ser pensante, o resultado mais importante desta viagem, para mim, está no fortalecimento do meu ponto de vista de que a ideia de indivíduo “culturado” (culto) é simplesmente relativa: o valor de uma pessoa deve ser atribuído pela sua Herzenbildung (cultura do coração). Esta qualidade está presente ou ausente entre os esquimós tanto quanto entre nós.
(BOAS, Franz. Diário de viagem de Franz Boas. (23 dez. 1883). IN: CASTRO, Celso (org.) Antropologia Cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.)
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, o conceito expresso no texto.
Ineficiente é todo poder disciplinar que, com grande esforço, aperta violentamente as pessoas com um espartilho de ordens e proibições. Muito mais eficiente é a técnica de poder que faz com que as pessoas se submetam ao contexto de dominação por si mesmas. Essa técnica busca ativar, motivar e otimizar, não obstruir ou oprimir. A particularidade de sua eficiência está no fato de que não age através da proibição e da suspensão, mas através do agrado e da satisfação. Em vez de tornar as pessoas obedientes, tenta deixá-las dependentes.
(HAN, Byung-Chul. Psicopolítica. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2018. p. 26.)
Sobre a dinâmica do poder, considere as afirmativas a seguir.
I. Na política, a forma máxima de poder se manifesta quando um governante consegue coagir a população.
II. O poder que atua de forma silenciosa e não repressiva é mais eficaz.
III. O poder pode utilizar as tecnologias modernas para a dominação.
IV. O domínio sobre um indivíduo ou povo pode ser acompanhado da submissão espontânea por parte deste.
Assinale a alternativa correta.
Antes os homens podiam ser divididos, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser inserido em nenhuma dessas duas categorias. Não é sábio, porque ignora formalmente tudo que não entra em sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é “um homem de ciência” e conhece muito bem sua partícula do universo. Teremos de dizer que é um sábio-ignorante, coisa extremamente grave, pois significa que se trata de um senhor que se comportará em todas as questões que ignora não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem é um sábio em sua questão especial.
(ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. Campinas: Vide Editorial, 2016. p. 190.)
Sobre o processo de especialização do conhecimento, assinale a alternativa correta.
enchemos a vida de filhos que nos enchem a vida
um me enche de lembranças que me enchem de lágrimas
uma me enche de alegrias que enchem minhas noites de dias
outro me enche de esperanças e receios enquanto me incham os seios
(RUIZ, Alice. Dois em um. São Paulo: Iluminuras, 2018. p 127.)
Sobre o poema de Alice Ruiz, considere as afirmativas a seguir.
I. Apesar de ser um texto curto, com extensão inferior à de um soneto, o poema apresenta rimas como em “alegrias”/ “dias” e em “receios”/“seios”.
II. Há um jogo de palavras no poema, construído sob a repetição, nas estrofes, do verbo “encher” em suas flexões e com a inclusão de “incham” no penúltimo verso.
III. Apesar de evitar seguir métrica regular, há equilíbrio entre o primeiro verso de cada estrofe, uma redondilha menor, e o verso final de cada estrofe, mais breve do que os anteriores.
IV. O sujeito lírico feminino é mais evidente na terceira estrofe quando despontam termos como “uma” e “minhas”, embora a carga sentimental mais nítida esteja na segunda estrofe.
Assinale a alternativa correta.
Na escola, sem Bibiana ao meu lado para me ajudar, minha vida se tornou um tormento. Desde o início, minha mãe avisou à dona Lourdes, a nova professora, da minha mudez. Ela foi cuidadosa, no começo, e bastante generosa para me ensinar as tarefas. Àquela altura eu já sabia ler, graças muito mais aos esforços de minha irmã mais velha e minha mãe, do que da professora sem paciência que dava aula na casa de dona Firmina. Para mim era o suficiente. Diferente de Bibiana, que falava em ser professora, eu gostava mesmo era da roça, da cozinha, de fazer azeite e de despolpar o buriti. Não me atraía a matemática, muito menos as letras de dona Lourdes. Não me interessava por suas aulas em que contava a história do Brasil, em que falava da mistura entre índios, negros e brancos, de como éramos felizes, de como nosso país era abençoado. Não aprendi uma linha do Hino Nacional, não me serviria, porque eu mesma não posso cantar. Muitas crianças também não aprenderam, pude perceber, estavam com a cabeça na comida ou na diversão que estavam perdendo na beira do rio, para ouvir aquelas histórias fantasiosas e enfadonhas sobre os heróis bandeirantes, depois os militares, as heranças dos portugueses e outros assuntos que não nos diziam muita coisa.
(VIEIRA JÚNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019. p. 97.)
Com base no trecho de Torto arado, assinale a alternativa correta.
Abriu a bolsa, tirou o lenço e enxugou os olhos. Através do vidro embaçado dos óculos, pressentiu que a fita chegava ao fim e desejou ardentemente que ela se prolongasse, agora não queria mais a claridade, espera, estava tão desalinhada, meus Céus, deixa me abotoar e este cabelo, onde foi parar o grampo? Apalpou depressa a lapela do casaco, desprendeu a camélia e guardou-a no fundo da bolsa. A lágrima contornou-lhe a boca, limpou a boca, como fui me comover desse jeito? Feito uma velha tonta, espera, eu estava querendo dizer que a nossa cidade, Senhor Diretor, que esta pobre cidade – que é que tem mesmo esta pobre cidade? Acabei falando em outras pessoas, em mim espera, vamos começar de novo, sim, a carta. Senhor Diretor: antes e acima de tudo. Antes e acima de tudo, Senhor Diretor. Senhor Diretor: Senhor Diretor:
(TELLES, Lygia Fagundes. O seminário dos ratos. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 32.)
Com base na leitura do conto “Senhor diretor”, de Lygia Fagundes Telles, e no trecho transcrito, assinale a alternativa correta.
Sobre as análises propostas nos textos 1 e 2, assinale a alternativa correta.
O Movimento do Passe Livre (MPL) se tornou o ícone das manifestações e dos protestos de junho de 2013, como a expressão de uma nova forma política de agir. Porém, temos que lembrar que o MPL já tinha uma articulação nacional desde meados dos anos 2000, em várias cidades, com ideários políticos coletivamente definidos por seus participantes. Suas pautas não se reduziam ao preço da passagem dos ônibus, ainda que essa tenha sido uma estratégia política relevante. Esse movimento tem se referido mais amplamente aos direitos do cidadão no que diz respeito à mobilidade urbana de uma forma geral, a qual deveria ser considerada como um direito fundamental, tal como o direito à educação, à saúde etc. Assim, propunham, já historicamente, a desmercantilização do transporte coletivo, alicerçando-se num ideário de transformação sistêmica, como outros movimentos estudantis tiveram no passado ou têm no presente.
(Adaptado de: SCHERER-WARREN, Ilse. Manifestações de rua no Brasil 2013: encontros e desencontros na política. Caderno CRH, Salvador, v. 27, n.71, p. 417-429, Maio/Ago 2014, p. 418.)
Sobre a análise do Movimento do Passe Livre proposta por Ilse Scherrer-Warren, considere as afirmativas a seguir.
I. Scherer-Warren identifica o Movimento do Passe Livre como uma nova forma de fazer política que tem por base um ideal de transformação da sociedade.
II. Scherer-Warren acredita que a mobilidade urbana, pauta do Movimento do Passe Livre, é um direito fundamental assim como os demais direitos fundamentais dispostos na Constituição Federal.
III. Scherer-Warren identifica que o Movimento do Passe Livre se diferencia dos movimentos estudantis que o antecederam.
IV. Scherer-Warren aponta que a pauta do Movimento do Passe Livre limita-se à diminuição do preço da passagem de ônibus.
Assinale a alternativa correta.
O conteúdo de um texto, cedo aprende o historiador, não pode se resumir à superfície de sua mensagem. Há os entreditos, os interditos, os não-ditos, o vocabulário revelador. Se texto é falso, ou se ele mente, tanto melhor, pois o historiador poderá perguntar: “por que mentes?” Não são raras as vezes em que o analista irá encontrar o que procura precisamente nas contradições de um texto, seja ao nível do intratexto (as contradições internas) ou ao nível do intertexto (as contradições que aparecem no confronto com as fontes). Ao historiador, o texto costuma falar através dos seus detalhes mais insignificantes, como um criminoso que fala através das pistas que deixa escapar descuidadamente.
(BARROS, José D´Assunção. O Campo da História, 4. Ed. Petrópolis: Vozes, 2004.)
Sobre o conteúdo da prática adequada de análise histórica expressa no texto, assinale a alternativa correta.
[...] a arte é filha da liberdade e quer ser legislada pela necessidade do espírito, não pela carência da matéria. Hoje, porém, a carência impera e curva em seu jugo tirânico a humanidade caída. A utilidade é o grande ídolo do tempo; quer ser servida por todas as forças e cultuada por todos os talentos. Nesta balança grosseira o mérito espiritual da arte nada pesa, e ela, roubada de todo estímulo, desaparece do ruidoso mercado do século.
(SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem: numa série de cartas. Trad. Roberto Schwarz e Marcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1989. p. 21-22.)
Sobre a teoria estética de Schiller, considere as afirmativas a seguir.
I. A educação estética valoriza o belo, formando sentidos e sentimentos, sem visar ao útil.
II. Ao valorizar a utilidade na arte, desconsidera-se a liberdade que estimula a criação artística.
III. O artista deve almejar a utilidade e não o significado da arte.
IV. O ideal da arte pela arte e a valorização da utilidade são o objetivo da educação estética.
Assinale a alternativa correta.
I. Os castigos escolares foram, segundo o homem vítima de tantos enganos, determinantes para o insucesso no vestibular e para lhe vedar a entrada na universidade.
II. O diagnóstico médico do desengano revelou-se, afinal, ser mais um dos enganos, e a reação de “breve, louca alegria” justifica-se pelo sofrimento com o acúmulo de equívocos.
III. A experiência conjugal foi marcada pelas ações de desencontros, embora haja diferenças sutis nessas ações: na primeira, há um erro involuntário; na segunda, ela o trai.
IV. A hesitação da enfermeira, em sua penúltima fala, já denuncia mais um equívoco, e tanto a carga de humor quanto o grau do erro são intensificados com a pergunta final.
Assinale a alternativa correta.
No desfecho do conto “São Marcos”, o protagonista chega à casa de João Mangolô e, após lutar contra o feiticeiro, lhe dá uma nota de dez mil-réis e assim se dirige a ele: “Olha, Mangolô: você viu que não arranja nada contra mim, porque eu tenho anjo bom, santo bom e reza-brava... Em todo o caso, mais serve não termos briga...”(p. 217.)
De acordo com o trecho do conto, assinale a alternativa correta.
I. A infelicidade conjugal pode ensejar o tom grave, sério e triste que percorre o conto “Sarapalha”, como pode ser observado no trecho “Só sei que se ela, por um falar, desse de chegar aqui de repente, até a febre sumia...”, mas, na crônica de Verissimo, se soma aos episódios de humor como mais um caso de engano entre os tantos relatados.
II. No conto “A volta do marido pródigo”, há o seguinte trecho: “E, vai então pois então, Lalino teve um momento de fraqueza, e pediu a seu Oscar que procurasse a Ritinha e falasse, e dissesse, mas não dissesse isso, e calasse aquilo, mas dando a entender que... mas sem deixar que ela pensasse que... e aquil’outro, e também etc., e pronto.” O trecho é carregado de humor obtido com um arranjo de linguagem também encontrado no jogo entre engano e desengano, na crônica.
III. No trecho do conto “São Marcos” – “Pé por p... Outra árvore que não me vê, ai!” –, o protagonista está cego e acerta a cabeça em uma árvore pela segunda vez. As circunstâncias em que o autor se manifesta poderiam desencadear a compaixão no leitor, mas é o humor que se sobrepõe, assim como nas desventuras da crônica.
IV. No conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, Nhô Augusto dirige-se a Joãozinho Bem-Bem, chefe do bando de jagunços: “se o senhor não se acanha de entrar em casa de pobre, eu lhe convido para passar mal e se arranchar comigo...”. O humor do trecho revela-se no convite para “passar mal” e na ironia do protagonista, que preparara tocaia para o bando, assim como a enfermeira é cruel para o protagonista da crônica.
Assinale a alternativa correta.
“É claro que, como todo escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos...” (p. 21.)
“Agora não é confortável: para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias...” (p. 26.)
“Além de vestir-me com roupa rasgada.” (p. 26.)
“E a palavra não pode ser enfeitada e artisticamente vã, tem que ser apenas ela.” (p. 26.)
“Vejo agora que esqueci de dizer que por enquanto nada leio para não contaminar com luxos a simplicidade de minha linguagem.” (p. 29.)
“Tudo isso eu disse tão longamente por medo de ter prometido demais e dar apenas o simples e o pouco. Pois esta história é quase nada.” (p. 31.)
Com base nos trechos, assinale a alternativa correta.