Questões de Concurso
Comentadas sobre funções morfossintáticas da palavra que em português
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Considere o excerto a seguir para responder à questão:
“Esse novo estudo mostra que as partículas se infiltraram em depósitos arqueológicos. E, como no caso dos oceanos, isso provavelmente está acontecendo há um período similar, considerando que partículas foram encontradas em amostras de solo retiradas e arquivadas em 1988, de Wellington Row, em York”, sugere Jennings.
Considere o excerto a seguir para responder à questão:
E não há momento mais temido na vida de um tímido do que quando lhe passam a palavra.
O vocábulo “que”, em “(...) é uma metáfora para a vida competitiva que a gente leva (...)”, desempenha o papel gramatical de:
Edge City: o que são e quais as vantagens de morar em uma?
Por Blog – Jardins do Parque
O termo Edge City foi cunhado pelo escritor e jornalista Joel Garreau, em seu livro “Edge City: Life on the New Frontier”, publicado em 1991. Garreau utilizou esse termo para descrever uma nova forma de desenvolvimento urbano que ele observou ao viajar pelos subúrbios das grandes cidades dos Estados Unidos na década de 80. [...]. Uma Edge City é um tipo de cidade que se encontra ao redor de um nó de transporte, como uma rodovia, e cresce como um subcentro comercial e residencial independente de uma cidade central.
Geralmente, Edges Cities são caracterizadas por edifícios de escritórios, shopping centers, hotéis, condomínios residenciais, além de outras estruturas que oferecem comodidades para seus moradores e visitantes. Essas cidades crescem por conta da expansão das redes de transporte e da necessidade de espaço e moradia fora das cidades centrais. Elas tendem a ter uma densidade populacional mais baixa do que os grandes centros urbanos e são planejadas com uma mistura de usos para torná-las mais acessíveis e convenientes aos seus moradores.
[...]
Todas as Edges Cities têm características em comum que as distinguem das outras. [...]. Essas cidades são planejadas para serem centros completos e autossuficientes, com uma mistura de usos que incluem habitação, comércio, serviços de saúde e lazer. Em uma Edge City típica, os escritórios e empresas estão localizados em parques empresariais, enquanto as áreas residenciais são compostas por apartamentos, condomínios ou casas. Restaurantes e lojas, normalmente, estão em centros comerciais e os espaços públicos têm parques, praças e áreas de lazer.
[...]
Edges Cities comportam uma densidade significativa de empregos em relação à sua população. Os trabalhos estão concentrados em setores, como tecnologia, finanças, serviços profissionais e de saúde. Há uma série de motivos que fazem uma empresa migrar para essas cidades: custo menor de aluguel, maior espaço para expansão e localização mais conveniente para os seus empregados. Ademais, a presença de muitas empresas e escritórios em uma Edge City ajuda na criação de uma economia local diversificada, no desenvolvimento de uma base de conhecimento especializado e na atração de trabalhadores qualificados.
Nos Estados Unidos, de acordo com uma reportagem do portal Biz Journal, foram usados 38,1 milhões de pés quadrados (o que são, aproximadamente, 3,5 milhões de metros quadrados em conversão livre) na construção de novos escritórios em Edges Cities. Essa demanda, conforme a reportagem, ocorre por conta de as empresas preferirem atuarem em ambientes que tenham facilidade de locomoção, opções de moradia para seus funcionários.
[...]
A mobilidade faz parte da rotina de quem mora em uma Edge City. Por isso, nessas cidades, é comum encontrar a presença de estradas bem planejadas e transportes públicos eficientes, tornando a cidade um centro competitivo e atraente tanto para as empresas quanto para as pessoas. Outro ponto que está atrelado à infraestrutura desse centro urbano é a ampla variedade de serviços públicos. Hospitais, escolas, universidades são essenciais para reter os residentes dessas cidades e incentivar que mais pessoas escolham ter suas vidas ali. [...]. No Brasil, podemos citar como exemplo o Alphaville em São Paulo, que, apesar de ser considerado um bairro, trouxe diversos conceitos do modelo de Edge City dos Estados Unidos.
Adaptado de: https://blog.jardinsdoparque.com.br/edge-city/. Acesso em: 23 ago. 2024.
Analise as assertivas e assinale a alternativa que aponta a(s) correta(s).
I. Em “[...] podemos citar como exemplo o Alphaville em São Paulo, que, apesar de ser considerado [...]”, o termo em destaque exerce a função de pronome relativo, uma vez que retoma um nome próprio, sendo possível a sua substituição por “o qual”.
II. Em “[...] enquanto as áreas residenciais são compostas por apartamentos, condomínios ou casas.”, o termo em destaque introduz uma oração subordinada adjetiva explicativa, visto que elucida a composição das áreas residenciais, caracterizando-as em “apartamentos”, “condomínios” e “casas”.
III. Em “Garreau utilizou esse termo para descrever uma nova forma de desenvolvimento urbano que ele observou [...]”, o termo em destaque exerce a função de uma partícula de realce à expressão “desenvolvimento urbano”, ocupando uma posição livre na oração.
Morfologicamente, o termo destacado trata-se de:
Morfologicamente, os termos destacados são, respectivamente:
Leia o texto a seguir para responder à questão.
A história do breaking, das ruas do Bronx às Olimpíadas
Nova York, início dos anos 1970. Em Manhattan, a parte central (e mais rica) da cidade, dezenas de boates varavam a madrugada tocando hits de bandas como Bee Gees, ABBA, Village People e Earth, Wind & Fire. Foi a era de ouro da música disco.
No Bronx, distrito ao norte de Nova York, a população vivia sob péssimas condições. Serviços públicos e políticas habitacionais eram raros. O ápice dessa crise foram os incêndios: somente em 1974, houve 12,3 mil. E foi bem ali, em meio aos escombros de um bairro em chamas, que nasceu um dos movimentos culturais mais importantes do século 20: o hip-hop, que engloba música (com os DJs e os rappers), arte visual (com o grafite) e dança, com o breaking.
Criado a partir de uma amálgama de diversos estilos de dança (e até de algumas artes marciais), o breaking nasceu junto com as primeiras festas de hip-hop. Hoje, meio século depois, os passos acrobáticos marcarão presença nas Olimpíadas de Paris.
No dia 11 de agosto de 1973, o americano Clive Campbell se apresentou na festa de aniversário de sua irmã, em um pequeno prédio do Bronx. Aos 18 anos, Clive, mais conhecido como DJ Kool Herc, quis testar algo diferente. Ele pegou discos de funk e soul e, em vez de tocálos normalmente, colocou a agulha nos LPs em pontos estratégicos para tocar apenas os breaks (“pausas”) de cada música. Os breaks são os intervalos em que os vocais e alguns músicos param e só o baixo, a bateria e outros instrumentos que fazem a base (a chamada “cozinha”) permanecem. Para fazer isso, Herc usava duas cópias de um mesmo vinil: quando o break de uma música terminava, o DJ colocava a agulha no mesmo break da outra cópia do disco. A galera curtiu, e ele logo começou a fazer shows cada vez maiores. Pouco a pouco, as batidas ganharam letras.
Os MCs (sigla para “mestre de cerimônia”) animavam os shows com rimas cadenciadas, inspirados no ritmo de locutores de rádio, pastores, políticos e outros artistas da época. Nascia assim o rap, outro pilar do hiphop.
Na pista, algumas pessoas aproveitavam os longos breaks criados por Kool Herc para exibir passos de dança. Os homens que dançavam ao som das batidas foram apelidados de b-boys (de bronx-boys, mas também de breakboys); as mulheres, de b-girls. E a dança logo passou a ser chamada de b-boying ou breaking.
Desde o início, o breaking esteve ligado a competições. Abria-se uma roda no meio da plateia e pessoas (ou grupos) disputavam para ver quem era o melhor. Surgiram nessa época as crews, grupos de dança que poderiam ser formados por pessoas de um único bairro ou de toda a cidade.
A popularidade do breaking estava nas alturas. E a exposição na mídia fez o breaking chegar a outros países, como Japão, França e, claro, Brasil.
Os primeiros breakers de São Paulo, inspirados pelas músicas, filmes e videoclipes que chegavam dos EUA, dançavam de maneira dispersa em alguns pontos do centro da cidade. João Break e Luisinho, dois dançarinos que moravam no centro, passaram a organizar encontros na estação São Bento. O local foi a incubadora do movimento hip-hop em São Paulo.
Em 2014, o Comitê Olímpico Internacional (COI) assinou a Olympics Agenda 2020, um documento com diretrizes para modernizar os Jogos e torná-los atrativos para as novas gerações. O comitê determinou que cada sede poderia escolher até cinco novos esportes para compor o seu quadro de modalidades. O breaking estava no radar do COI por uma série de fatores: além da sua natureza competitiva, a dança tem apelo entre os mais jovens, é acessível e mescla habilidades técnicas com resistência física. Em 2018, o breaking estreou nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Buenos Aires. Em 2020, a França oficializou que o breaking, bastante popular no país, faria parte dos Jogos de Paris.
Revista Superinteressante. Adaptado. Disponível em: https://super.abril.com.br/cultura/a-historia-do-breaking-das-ruas-do-bronx-as-olimpiadas
“A semana de atividades em Brasília permite que os jovens senadores vivenciem de perto o dia a dia do Senado.”
Sobre os termos em destaque, julgue as assertivas a seguir.
()“que” é conjunção.
()“que” é pronome relativo.
()De acordo com o novo acordo ortográfico, “dia a dia” deve ser grafada com hífen, seguindo o exemplo de “pé-de-meia”.
()De acordo com o novo acordo ortográfico, “dia a dia” está escrito corretamente.
A sequência CORRETA é:
O vocábulo que, nesta frase, comporta-se morfologicamente como pronome é:
Texto I – Amnésia digital prejudica armazenamento natural de memórias
O rotineiro uso das telas proporciona facilidade e praticidade na vida de quem tem acesso a essas tecnologias. Mas o excesso desse uso causa diversos prejuízos sociais, biológicos e cognitivos aos seres humanos. Entre os males que esse constante uso causa está a amnésia digital – termo utilizado para denominar o esquecimento de informações que armazenamos em dispositivos digitais ou na Internet, a exemplo dos números telefônicos de contatos de emergência.
Em pesquisa internacional realizada pela Kaspersky Lab sobre esse fenômeno, 6 mil consumidores de dispositivos digitais e Internet foram entrevistados e, a partir desse estudo, foi constatado que 57% dos entrevistados a partir de 16 anos, ao serem apresentados a uma questão, buscaram por uma resposta sozinhos. E 36% deste grupo recorreu imediatamente à Internet. A pesquisa também aponta que essa taxa aumenta para 40% no grupo de pessoas com 45 anos ou mais e que quase um quarto dos entrevistados (24%) confessa esquecer uma informação após utilizá-la.
Segundo Raquel Pedrosa, psicóloga e docente do Centro Universitário Tiradentes (Unit/AL), isso acontece porque o cérebro não é exercitado quando um sujeito tem à disposição dispositivos que possam armazenar memórias. Ela ainda aponta que o constante uso de telas cria lapsos de atenção.
"Com o celular, nós não precisamos exercitar a memória. Está tudo a um clique das nossas mãos. Nossa agenda é digital, nossas senhas são memorizadas. Quanto menos a gente exercita a memória, mais prejudicada ela será, sobretudo, a longo prazo. Além disso, a memória também está vinculada ao processo psicológico básico da atenção. Quando focamos muito nas telas, criamos lapsos de atenção, o que reverbera na memória", conta a psicóloga.
Raquel explica como a nossa memória funciona. De acordo com a psicóloga, o processo de memorização ocorre por meio de conexões (chamadas de sinapses) entre os neurônios. E para que a memorização aconteça, o sujeito precisa prestar atenção no que escuta ou vê para permitir que ocorram as conexões que provoquem a assimilaridade.
"As crianças são as mais afetadas com o uso das telas porque estão em plena fase do desenvolvimento cerebral e cognitivo. Por exemplo, há estudos que indicam a relação entre o excesso de telas e a diminuição do QI infantil. Outro ponto fundamental é a estimulação que leva a falta de sono, o que também vai contribuir no desenvolvimento prejudicado", alerta.
Ela ainda aponta que há motivos para que as telas sejam tão atraentes. Segundo a docente, o uso em excesso das telas estimula a liberação do hormônio chamado dopamina, que está relacionado à sensação de prazer. E, com o tempo, o sujeito sente a necessidade de ter mais tempo em frente às telas para se satisfazer. Em alguns casos, o sujeito chega ao vício do uso desses dispositivos. Vício, este, denominado de nomofobia. "Esse tipo de vício, assim como qualquer outro, gera sintomas físicos, como taquicardia, sudorese e etc. O sujeito sente também os sintomas psíquicos como ansiedade, irritabilidade, entre outros", ressalta a psicóloga.
Para combater os malefícios, Raquel orienta que os usuários e pessoas ao redor observem se, ao ficar longe do uso das telas, o usuário demonstra inquietação, hiperatividade, irritação e, em alguns casos, pensamento obsessivo. Esses sinais demonstram que o uso provocou prejuízos. Como alternativa para substituir o constante uso de dispositivos digitais, a psicóloga aconselha ler livros, realizar atividades físicas e interagir com outras pessoas pessoalmente. Já para casos mais graves, como a suspeita de vício, a busca por um profissional de saúde mental também é recomendada.
"Sabemos que não podemos nos livrar totalmente desse contexto, mas podemos diminuir o uso da tela antes de dormir, fazer intervalos regulares, como por exemplo, durante a refeição, para se desligar mesmo desse mundo virtual. Tente controlar sempre o tempo, estipulando o máximo de tempo que pode permanecer na tela. Tais ações já ajudam bastante nesse processo de 'desintoxicação'”, reforça.
Para os casos que necessitem de acompanhamento psicológico, a Unit/AL disponibiliza uma clínica de psicologia com atendimento gratuito. As consultas ocorrem nos dias úteis da semana, com horários disponíveis pela manhã, tarde e noite e são realizadas por estudantes dos períodos finais do curso, com acompanhamento de professores. Para mais informações, basta entrar em contato com a clínica através do número (82) 3311-3139.
Disponível em: https://tribunahoje.com/noticias/saude/2022/11/08/111666-amnesia-digital-prejudica-armazenamento-natural-de-memorias. Acesso em: 28 dez.2023.
I “Para os casos que necessitem de acompanhamento psicológico,...”
II "’Sabemos que não podemos nos livrar totalmente desse contexto,...’”
III “Por exemplo, há estudos que indicam a relação entre o excesso de telas e a diminuição do QI infantil.”
IV “Ela ainda aponta que há motivos para que as telas sejam tão atraentes.”
V “Tente controlar sempre o tempo, estipulando o máximo de tempo que pode permanecer na tela.”
A palavra “que” pertence à classe dos pronomes relativos nos trechos
Leia o trecho abaixo e responda à questão:
"Ela perguntou por que ele não veio à aula."
Assinale a alternativa que explica corretamente o uso do termo "por que" no trecho acima.
Na sentença “— Eu sou você, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.”, a função gramatical do vocábulo “se” è:
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
As receitas
Quando eu era menino, na escola, as professoras me ensinaram que o Brasil estava destinado a um futuro grandioso porque as suas terras estavam cheias de riquezas: ferro, ouro, diamantes, florestas e coisas semelhantes. Ensinaram errado. O que me disseram equivale a predizer que um homem será um grande pintor por ser dono de uma loja de tintas. Mas o que faz um quadro não é a tinta: são as ideias que moram na cabeça do pintor. São as ideias dançantes na cabeça que fazem as tintas dançar sobre a tela.
Por isso, sendo um país tão rico, somos um povo tão pobre. Somos pobres em ideias. Não sabemos pensar. Nisto nos parecemos com os dinossauros, que tinham excesso de massa muscular e cérebros de galinha. Hoje, nas relações de troca entre os países, o bem mais caro, o bem mais cuidadosamente guardado, o bem que não se vende, são as ideias. É com as ideias que o mundo é feito. Prova disso são os tigres asiáticos, Japão, Coreia, Formosa que, pobres de recursos naturais, se enriqueceram por ter se especializado na arte de pensar.
Minha filha me fez uma pergunta: "O que é pensar?" Disse-me que 'esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns. Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta. Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento. O pensamento é como a águia que só alça voo nos espaços vazios do desconhecido. Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.
E, no entanto, não podemos viver sem as respostas. As asas, para o impulso inicial do voo, dependem de pés apoiados na terra firme. Os pássaros, antes de saber voar, aprendem a se apoiar sobre os seus pés. Também as crianças, antes de aprender a voar, têm que aprender a caminhar sobre a terra firme. Terra firme: as milhares de perguntas para as quais as gerações passadas já descobriram as respostas. O primeiro momento da educação é a transmissão deste saber. Nas palavras de Roland Barthes: "Há um momento em que se ensina o que se sabe..." E o curioso é que este aprendizado é justamente para nos poupar da necessidade de pensar.
As gerações mais velhas ensinam às mais novas as receitas que funcionam. Sei amarrar os meus sapatos automaticamente, sei dar o nó na minha gravata automaticamente: as mãos fazem o seu trabalho com destreza enquanto as ideias andam por outros lugares. Aquilo que um dia eu não sabia me foi ensinado; eu aprendi com o corpo e esqueci com a cabeça. E a condição para que minhas mãos saibam bem é que a cabeça não pense sobre o que elas estão fazendo. Um pianista que, na hora da execução, pensa sobre os caminhos que seus dedos deverão seguir, tropeçará fatalmente. Há a estória de uma centopeia que andava feliz pelo jardim, quando foi interpelada por um grilo: "Dona Centopeia, sempre tive curiosidade sobre uma coisa: quando a senhora anda, qual, dentre as suas cem pernas, é aquela que a senhora movimenta primeiro?" "Curioso", ela respondeu. "Sempre andei, mas nunca me propus esta questão. Da próxima vez, prestarei atenção.” Termina a estória dizendo que a centopeia nunca mais conseguiu andar.
Todo mundo fala, e fala bem. Ninguém sabe como a linguagem foi ensinada e nem como ela foi aprendida. A despeito disto, o ensino foi tão eficiente que não preciso pensar para falar. Ao falar não sei se estou usando um substantivo, um verbo ou um adjetivo, e nem me lembro das regras da gramatica. Quem, para falar, tem de se lembrar destas coisas, não sabe falar. Há um nível de aprendizado em que o pensamento é um estorvo. Só se sabe bem com o corpo aquilo que a cabeça esqueceu. E assim escrevemos, lemos, andamos de bicicleta, nadamos, pregamos pregos, guiamos carros: sem saber com a cabeça, porque o corpo sabe melhor. É um conhecimento que se tornou parte inconsciente de mim mesmo. E isso me poupa do trabalho de pensar o já sabido. Ensinar aqui, é ã.
O sabido é o não-pensado, que fica guardado, pronto para ser usado como receita, na memória desse computador que se chama cérebro. Basta apertar a tecla adequada para que a receita apareça no vídeo da consciência. Aperto a tecla moqueca. A receita aparece no meu vídeo cerebral: panela de barro, azeite, peixe, tomate, cebola, coentro, cheiro verde, urucum, sal, pimenta, seguidos de uma se série de instruções sobre o que fazer. Não é coisa que eu tenha inventado. Me foi ensinado. Não precisei pensar. Gostei. Foi para a memoéria. Esta é a regra fundamental desse computador que vive no corpo humano: só vai para a memória aquilo que e objeto do desejo.
A tarefa primordial do professor: seduzir o aluno para que ele deseje e, desejando, aprenda. E o saber fica memorizado de cor - etimologicamente, no coragéo -, à espera de que a tecla do desejo de novo o chame do seu lugar de esquecimento. Memória: um saber que o passado sedimentou. Indispensavel para se repetir as receitas que os mortos nos legaram. E elas são boas. Tão boas que elas nos fazem esquecer que é preciso voar. Permitem que andemos pelas trilhas batidas. Mas nada tém a dizer sobre mares desconhecidos. Muitas pessoas, de tanto repetir as receitas, metamorfosearam-se de aguias em tartarugas. E nao são poucas as tartarugas que possuem diplomas universitarios. Aqui se encontra o perigo das escolas: de tanto ensinar o que o passado legou - e ensinar bem — fazem os alunos se esquecer de que o seu destino não é o passado cristalizado em saber, mas um futuro que se abre como vazio, um não saber que somente pode ser explorado com as asas do pensamento. Compreende-se então que Barthes tenha dito que, seguindo-se ao tempo em que se ensina o que se sabe, deve chegar o tempo quando se ensina o que não se sabe. —
(Rubem Alves, no livro "A alegria de ensinar”. São Paulo: Ars Poetica Editora Ltda, 1994.)