Questões de Concurso
Sobre concordância verbal, concordância nominal em português
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Leia o texto para responder à questão.
Outro dia ouvi uma história divertida sobre o pessimismo, narrada por um padre chamado Osman, da Igreja de Santa Terezinha, em Higienópolis. Frei Osman é escritor e leitor voraz. Por isso, em seus sermões, costuma incluir referências a poemas, contos e romances de toda sorte de autores. Suas homilias são pequenas aulas de literatura.
Recentemente, ao sentir a apreensão crescente em seu rebanho, saiu-se com a seguinte história: um dia estava o poeta Olavo Bilac andando pelo Rio quando encontrou um velho amigo, que pediu:
– Bilac, preciso vender minha chácara, que só dá dor de cabeça. – E reclamou um monte: “Os pássaros fazem barulho ensurdecedor, não podemos descansar. A calha está entupida pelas folhas que caem das muitas árvores. No verão, o sol exige cortinas novas e no inverno os cobertores não dão conta do frio”. “Por isso”, concluiu, “quero vendê-la. Você me prepara um texto convincente para um anúncio de jornal?”
Bilac pediu papel e caneta e escreveu: “Vendo uma chácara abençoada. Ao fundo da casa, no bosque, os pássaros fazem diariamente sua sinfonia; à frente, o sol aquece o
terraço para iluminar a mente de seus moradores enquanto
ouvem o som do regato piscoso”. Entregou o papel ao amigo
e se foi.
Meses depois, encontrou-o novamente e perguntou: “Vendeu a chácara?” “Não, Bilac, quando me dei conta da beleza única e dos benefícios que posso ter em tão lindo lugar, nunca mais considerei me desfazer daquele pequeno paraíso”.
A lição pregada pelo frei Osman é sábia e vale para um monte de gente. Neste momento em que se aproxima o início de um novo ano, é muito importante observar as oportunidades, para não ser sugado pelos problemas.
Por isso pergunto: e você, também tem pensado em vender um pedaço de sua felicidade?
(Leão Serva. Em 2016, não dê felicidade ao pessimismo. Em: Folha de
S.Paulo, 28.12.2015. Adaptado)
No porão mais úmido de Manaus, __________ as fronteiras da infância com a juventude e elas __________.

Atenção: Para responder à questão, considere o texto abaixo.
Assembleia Geral da ONU reconhece saneamento como
direito humano distinto do direito à água potável
Uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, adotada recentemente, reconheceu o saneamento básico como um direito humano separado do direito à água potável. A decisão pretende chamar a atenção para a situação de mais de 2,5 bilhões de pessoas que vivem sem acesso a banheiros e sistemas de esgoto adequados no mundo todo.
De acordo com o relator especial da ONU sobre os direitos humanos à água potável e ao saneamento básico, o brasileiro Léo Heller, a deliberação “dá para as pessoas uma percepção mais clara do direito ao saneamento, fortalecendo sua capacidade de reivindicá-lo quando o Estado falha em prover os serviços ou quando eles não são seguros, são inacessíveis ou sem a privacidade adequada”. A resolução da Assembleia reconheceu a natureza distinta do saneamento em relação à água potável, embora tenha mantido os direitos juntos.
Para Heller, a ausência de estruturas sanitárias adequadas tem um “efeito dominó”, prejudicando a busca e o usufruto de outros direitos humanos, como o direito à saúde, à vida e à educação. A falta de saneamento favorece a transmissão de doenças infecciosas, como cólera, hepatite e febre tifoide. Segundo estudo recente realizado pela ONU, somadas as abstenções escolares de todos os alunos no mundo, problemas ligados à falta de saneamento e água fazem com que 443 milhões de dias letivos sejam perdidos todos os anos.
(Adaptado de: https://nacoesunidas.org/assembleia-geral-da-onu-reconhece-saneamento-como-direito-humano-distinto-do-direito-a-agua-potavel)
Segundo estudo recente realizado pela ONU, somadas as abstenções escolares de todos os alunos no mundo, problemas ligados à falta de saneamento e água fazem com que 443 milhões de dias letivos sejam perdidos todos os anos. (3° parágrafo)
O trecho sublinhado (incluindo-se a vírgula após mundo) pode ser substituído, atendendo às normas de concordância e preservando-se a correlação entre as formas verbais, por:
Até a minha adolescência, toda véspera de prova de matemática era um pesadelo. Perdia o sono, tinha dores no peito, recusava qualquer atividade que não fosse estudar equações e transformava a vida da minha família em um inferno. Só de pensar que teria que interagir com números sem ajuda de ninguém acelerava meu coração, minhas mãos tremiam e suava frio.
Tinha colocado na cabeça que não era uma pessoa matemática e ponto. Minha praia eram as letras, interpretação, literatura, idiomas, história – números só se fossem romanos, ________, apesar de serem números, continuavam sendo letras. Acreditava que meu cérebro não era capaz de ler algarismos.
Mas minhas notas mostravam o contrário, meu cérebro conseguia decodificá-los. Na época, meus pais achavam que esse “auê” era apenas exagero, nem imaginavam que matemática pudesse doer. E dói.
Pesquisadores da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, comprovaram que conexões neurais relacionadas à dor são ativadas quando pensamos em números. Se eu fizesse parte dos voluntários da pesquisa, provavelmente seria diagnosticada com o que eles chamam de HMA (High Math Anxiety), ansiedade matemática elevada.
Nas horas que antecediam a prova, minha mãe dizia que, se eu estudasse e me concentrasse naquelas equações e teoremas, o pavor passaria. O conselho estava certo: os pesquisadores descobriram que os sentimentos de apreensão, pânico e tensão acontecem quando cogitamos resolver os problemas matemáticos, não quando, de fato, calculamos. No momento em que sentamos a bunda na cadeira para determinar ângulos, catetos ou os valores de x, y ou z, nosso cérebro se ocupa e não sentimos mais os efeitos da ansiedade.
Os cientistas também explicam o porquê de pessoas avessas aos números continuarem sempre com o estigma de pessoas “não matemáticas”. Além do bloqueio emocional, isso ocorre _________ fugimos de todas as situações em que precisamos calcular – colamos na escola, passamos a conta do bar para um amigo, contratamos um contador para fazer nosso imposto de renda – esses escapes impedem que nossas habilidades numéricas melhorem e que encaremos o medo de números.
http://super.abril.com.br/ciencia/... - adaptado.
Preenchem corretamente as lacunas I, II e III da notícia acima, nesta ordem:
Por que o cão que insiste em enterrar ossos? Na verdade, ele age assim porque ancestrais que ...I... comida lhe ...II... esse instinto. Enquanto outros exemplares menos precavidos eram mais atingidos pela fome, os mais bem nutridos ...III... se defender e se reproduzir melhor.
(Adaptado de: ROSSI, Alexandre. Disponível em: http://www.scielo.br)
Completam corretamente as lacunas I, II e III, nessa ordem:
I. No contexto em que aparece, a forma verbal "existirá" está na terceira pessoa do singular porque é impessoal. II. Se o substantivo "probabilidade" fosse flexionado no plural, além de outras modificações necessárias no trecho, o verbo "existirá" também seria flexionado no plural. III. A forma verbal "deve" concorda corretamente com o núcleo de seu sujeito, que é o substantivo "maneira".
Está correto o que se afirma em:
Ética de princípios.
Rubem Alves
AS DUAS ÉTICAS: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos - a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe ... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...
Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?”
Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer? Se o médico for um adepto da ética estrelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer ...”. Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.
A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade. Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano - 'A senhora breve estará curada ...' -, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá: “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer ...”. Aí, então, os dois conversarão longamente - como se estivessem de mãos dadas ... - sobre a morte que os dois haverão de enfrentar.
Com o sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade. Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem. Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?
Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual delas está mais a serviço do amor?”
O que é ser menina na era digital
Todos os dias, mais de 1 milhão de selfies são tiradas mundo afora. Os jovens se destacam como os maiores adeptos desses autorretratos da era virtual - e, entre eles, as meninas aparecem em primeiro lugar. De acordo com um estudo global que analisou cinco metrópoles - São Paulo, Bangcoc, Berlim, Moscou e Nova York-elas publicam mais fotos de si mesmas do que os rapazes. Na capital paulista, 65% das selfies são de mulheres, em sua maioria, jovens. É a cidade, entre as pesquisadas, com o maior percentual de meninas, que se autofotografam com um sorriso no rosto. O estudo foi batizado de Selfiecity (junção de selfie com city, a cidade das selfies).
Não é de estranhar, portanto, que o mundo digital - em especial, o universo das redes sociais - venha transformando a maneira como as adolescentes amadurecem e se afirmam como mulheres. Essa é a tese por trás de dois livros publicados recentemente nos Estados Unidos. Em American Girls: Social Media and the Secret Life of Teenagers (em inglês: Meninas Americanas: Redes Sociais e a Vida Secreta das Adolescentes), a jornalista Nancy Jo Sales se dedica a explicar de que forma a experiência virtual, temperada por curtidas e selfies, influencia o modo como as garotas se veem e como se mostram ao mundo. Já Girls & Sex (Meninas e Sexo), de Peggy Orenstein, aborda um assunto ainda mais delicado: a maneira como os nudes (selfies tiradas sem roupa) transformaram e anteciparam a descoberta da sexualidade das garotas. As duas obras acendem um alerta para os pais, sobretudo os que estão criando filhas.
Para Nancy Jo Sales, a busca por atenção no Facebook faz com que as meninas da era da internet “se sintam em um constante concurso de beleza.” Eis a definição de uma garota de 13 anos em depoimento incluído em American girls: “Todo mundo quer tirar uma selfie tão boa quanto as da Kardashian”. Segundo a escritora, as jovens querem ser reconhecidas como a famosa socialite Kim Kardashian, casada com o músico Kayne West e que em suas redes sociais mostra sua rotina de princesa. As adolescentes americanas, segundo Nancy Jo Sales, querem ser igual à socialite, pois para a maior parte deles, a vida ordinária e comum é a realidade mais imediata.
Uma das versões brasileiras próxima de Kardashian é Gabriela Pugliesi, de 30 anos. Ela conquistou notoriedade sem exibir nenhum talento. Como alcançou a fama? Compartilhando fotos em que mostrava o corpo malhado. Em novembro passado, Gabriela teve a equivocada ideia de sugerir a seus seguidores (que só no Instagram somam 2,3 milhões) que vazassem fotos de amigas nuas caso elas não conseguissem ser “firmes” em suas dietas de emagrecimento. Vale lembrar: boa parte dos fãs de Gabriela é formada por meninas de seus 15 anos.
Uma selfie - ou mesmo um nude - pode soar inocente, uma brincadeira da juventude, contudo suas consequências às vezes são trágicas. Em 2013, a gaúcha Giana Laura Fabi, de 16 anos, suicidou-se depois que se tornaram públicos retratos com seus seios à mostra - ela havia enviado as imagens a um rapaz via Skype. Uma análise de estudos realizados em doze países, feita pela Universidade de Queensland, na Austrália, mostrou que não receber likes em uma publicação gera ansiedade, e por vezes, depressão. Na opinião da autora, isso ocorre devido à pressão para que jovens mulheres “reduzam o valor que dão ao corpo e passem a vê-lo como uma coleção de partes que existem para agradar aos outros”. As selfies têm levado meninas à mesa de cirurgia: nos EUA houve um aumento de 71% no número de implantes no queixo em adolescentes porque as pacientes queriam ficar mais “bonitas” nos autorretratos digitais. Ser adolescente - e do gênero feminino -nunca foi fácil, o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) dizia que a juventude é “embriaguez sem vinho”. Parece, entretanto, que o mundo conectado elevou a novos patamares os típicos problemas desta fase da vida.
Fonte: Revista Veja, com reportagem de Luiza Donatelli.
O que é ser menina na era digital
Todos os dias, mais de 1 milhão de selfies são tiradas mundo afora. Os jovens se destacam como os maiores adeptos desses autorretratos da era virtual - e, entre eles, as meninas aparecem em primeiro lugar. De acordo com um estudo global que analisou cinco metrópoles - São Paulo, Bangcoc, Berlim, Moscou e Nova York-elas publicam mais fotos de si mesmas do que os rapazes. Na capital paulista, 65% das selfies são de mulheres, em sua maioria, jovens. É a cidade, entre as pesquisadas, com o maior percentual de meninas, que se autofotografam com um sorriso no rosto. O estudo foi batizado de Selfiecity (junção de selfie com city, a cidade das selfies).
Não é de estranhar, portanto, que o mundo digital - em especial, o universo das redes sociais - venha transformando a maneira como as adolescentes amadurecem e se afirmam como mulheres. Essa é a tese por trás de dois livros publicados recentemente nos Estados Unidos. Em American Girls: Social Media and the Secret Life of Teenagers (em inglês: Meninas Americanas: Redes Sociais e a Vida Secreta das Adolescentes), a jornalista Nancy Jo Sales se dedica a explicar de que forma a experiência virtual, temperada por curtidas e selfies, influencia o modo como as garotas se veem e como se mostram ao mundo. Já Girls & Sex (Meninas e Sexo), de Peggy Orenstein, aborda um assunto ainda mais delicado: a maneira como os nudes (selfies tiradas sem roupa) transformaram e anteciparam a descoberta da sexualidade das garotas. As duas obras acendem um alerta para os pais, sobretudo os que estão criando filhas.
Para Nancy Jo Sales, a busca por atenção no Facebook faz com que as meninas da era da internet “se sintam em um constante concurso de beleza.” Eis a definição de uma garota de 13 anos em depoimento incluído em American girls: “Todo mundo quer tirar uma selfie tão boa quanto as da Kardashian”. Segundo a escritora, as jovens querem ser reconhecidas como a famosa socialite Kim Kardashian, casada com o músico Kayne West e que em suas redes sociais mostra sua rotina de princesa. As adolescentes americanas, segundo Nancy Jo Sales, querem ser igual à socialite, pois para a maior parte deles, a vida ordinária e comum é a realidade mais imediata.
Uma das versões brasileiras próxima de Kardashian é Gabriela Pugliesi, de 30 anos. Ela conquistou notoriedade sem exibir nenhum talento. Como alcançou a fama? Compartilhando fotos em que mostrava o corpo malhado. Em novembro passado, Gabriela teve a equivocada ideia de sugerir a seus seguidores (que só no Instagram somam 2,3 milhões) que vazassem fotos de amigas nuas caso elas não conseguissem ser “firmes” em suas dietas de emagrecimento. Vale lembrar: boa parte dos fãs de Gabriela é formada por meninas de seus 15 anos.
Uma selfie - ou mesmo um nude - pode soar inocente, uma brincadeira da juventude, contudo suas consequências às vezes são trágicas. Em 2013, a gaúcha Giana Laura Fabi, de 16 anos, suicidou-se depois que se tornaram públicos retratos com seus seios à mostra - ela havia enviado as imagens a um rapaz via Skype. Uma análise de estudos realizados em doze países, feita pela Universidade de Queensland, na Austrália, mostrou que não receber likes em uma publicação gera ansiedade, e por vezes, depressão. Na opinião da autora, isso ocorre devido à pressão para que jovens mulheres “reduzam o valor que dão ao corpo e passem a vê-lo como uma coleção de partes que existem para agradar aos outros”. As selfies têm levado meninas à mesa de cirurgia: nos EUA houve um aumento de 71% no número de implantes no queixo em adolescentes porque as pacientes queriam ficar mais “bonitas” nos autorretratos digitais. Ser adolescente - e do gênero feminino -nunca foi fácil, o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) dizia que a juventude é “embriaguez sem vinho”. Parece, entretanto, que o mundo conectado elevou a novos patamares os típicos problemas desta fase da vida.
Fonte: Revista Veja, com reportagem de Luiza Donatelli.
Rio de Lama, Rio de Lágrimas.
Ainda aturdida por duas imensas tragédias sem conserto para vidas e lugares atingidos, escrevo sobre uma, na Europa, que assusta o mundo e outra, no Brasil, que deveria nos assustar especialmente. Vejo em capitais brasileiras vigílias pela carnificina em Paris. São justas, não só porque qualquer cidade assim ferida merece homenagens, mas porque para muitíssimos Paris é uma cidade especial. E esse foi anunciado pelos autores como sendo apenas um primeiro golpe na tempestade. Pela extensão e sofisticação de sua capacidade destrutiva, e pelos locais de preparação antes nunca imaginados, mas que começam a ser descobertos, outros países estão na mira, pela Europa inteira. Sem falar na Olimpíada do ano próximo, no Brasil.
Todos alertas, todos assustados, todos um tanto perplexos com essa tragédia - e outra ainda maior e mais complexa se anuncia, ou já começou: a chegada de milhões de refugiados, migrantes sofridos e necessitados, parece ser cavalo de Troia com que se movem facilmente bandos de terroristas assassinos. O que fazer, como fazer, perguntam-se os líderes dos países envolvidos. Mesmo quem recebia os migrantes com alguma boa vontade começa a rever sua postura, pensar em mudar leis, levantar muros de toda sorte: pagarão inocentes por alguns culpados. “A vida não é justa”, suspiramos.
Mas esperei entre nós vigília e lágrimas pelo Brasil por este que é um dos maiores crimes ambientais do mundo: protesto e pranto pela morte do Rio Doce, miseravelmente envenenado e travado pela lama, que mata as águas do Doce e de seus afluentes, os peixes, os bichos, os campos cultivados, as pastagens, as plantações, as pessoas - quantas de verdade? Que providências se tomam? O que se faz para encontrá-las, além de urubus, cães e paus enfiados na lama repulsiva para ver se dali sai “odor”?
Morrem também profissões na região, como as de agricultor e pescador: um velho pescador declara aos prantos que sua profissão não existe mais por ali. A extensão é vastíssima, quilômetros de esterilização, envenenamento, em suma, assassinato. Pois o desastre era previsível: laudos anteriores alertavam para a fragilidade das barragens, e aparentemente nada foi feito, além de negar, desviar os olhos, e de novo negar. “Nada de barulho, pois podemos ter problemas.” E os trágicos problemas chegaram: segundo Sebastião Salgado, a “cura” das águas e terras levará de vinte a trinta anos.
O grande fotógrafo e humanista (sim) internacionalmente admirado nasceu e cresceu junto ao Doce, onde criou com sua parceira, Lélia, o maravilhoso projeto de revitalização de zonas quase mortas décadas atrás, o Instituto Terra. Agora, tudo está pior do que antes dos esforços deles. Recuperar toda aquela região, que vai de Mariana ao mar no Espírito Santo, onde certamente haverá muita contaminação, custará não apenas somas incríveis - projeto que ele já tinha proposto ao BNDES algum tempo atrás foi aprovado, mas não houve o repasse do dinheiro -, como terá de manter aceso por décadas o interesse num país de momento tão superficial, tão desinteressado, tão focado em poder, poder, e fuga à responsabilidade, ocultamento de crimes, e salvação das próprias feias peles. Não sou otimista. Até aqui só vi, como em geral neste país, promessas de planos, projetos, eternas comissões ineficientes e mornas, pouquíssima ação concreta, também nesta crise: mesmo na busca de mortos, lenta e atrasada. Ficarão emparedados na lama que, ao secar, parece cimento. Homens, mulheres, crianças, velhos, eternamente ocultos, a não ser para os corações que por eles choram. O que está fazendo o Brasil para compensar todo esse sofrimento, cada vez menos mencionado?
Precisamos de lágrimas e vigílias pelos inocentes chacinados na França, mas de movimentos vibrantes pelo que, aqui entre nós, vem sendo lentamente assassinado, e agora foi brutalmente soterrado pelo rio de lama, de lágrimas, de pouca esperança. Vamos trabalhar, e nos manifestar, e chorar, com Sebastião Salgado.
Fonte: Lya Luft - 25 de novembro de 2015)
Assinale a opção que completa corretamente a frase:
É provável que________justificativas para o desastre, mas não _________retorno das vidas ceifadas, são muitas as formalidades a ________ cumpridas até o alívio das dores da alma chegar.
Rio de Lama, Rio de Lágrimas.
Ainda aturdida por duas imensas tragédias sem conserto para vidas e lugares atingidos, escrevo sobre uma, na Europa, que assusta o mundo e outra, no Brasil, que deveria nos assustar especialmente. Vejo em capitais brasileiras vigílias pela carnificina em Paris. São justas, não só porque qualquer cidade assim ferida merece homenagens, mas porque para muitíssimos Paris é uma cidade especial. E esse foi anunciado pelos autores como sendo apenas um primeiro golpe na tempestade. Pela extensão e sofisticação de sua capacidade destrutiva, e pelos locais de preparação antes nunca imaginados, mas que começam a ser descobertos, outros países estão na mira, pela Europa inteira. Sem falar na Olimpíada do ano próximo, no Brasil.
Todos alertas, todos assustados, todos um tanto perplexos com essa tragédia - e outra ainda maior e mais complexa se anuncia, ou já começou: a chegada de milhões de refugiados, migrantes sofridos e necessitados, parece ser cavalo de Troia com que se movem facilmente bandos de terroristas assassinos. O que fazer, como fazer, perguntam-se os líderes dos países envolvidos. Mesmo quem recebia os migrantes com alguma boa vontade começa a rever sua postura, pensar em mudar leis, levantar muros de toda sorte: pagarão inocentes por alguns culpados. “A vida não é justa”, suspiramos.
Mas esperei entre nós vigília e lágrimas pelo Brasil por este que é um dos maiores crimes ambientais do mundo: protesto e pranto pela morte do Rio Doce, miseravelmente envenenado e travado pela lama, que mata as águas do Doce e de seus afluentes, os peixes, os bichos, os campos cultivados, as pastagens, as plantações, as pessoas - quantas de verdade? Que providências se tomam? O que se faz para encontrá-las, além de urubus, cães e paus enfiados na lama repulsiva para ver se dali sai “odor”?
Morrem também profissões na região, como as de agricultor e pescador: um velho pescador declara aos prantos que sua profissão não existe mais por ali. A extensão é vastíssima, quilômetros de esterilização, envenenamento, em suma, assassinato. Pois o desastre era previsível: laudos anteriores alertavam para a fragilidade das barragens, e aparentemente nada foi feito, além de negar, desviar os olhos, e de novo negar. “Nada de barulho, pois podemos ter problemas.” E os trágicos problemas chegaram: segundo Sebastião Salgado, a “cura” das águas e terras levará de vinte a trinta anos.
O grande fotógrafo e humanista (sim) internacionalmente admirado nasceu e cresceu junto ao Doce, onde criou com sua parceira, Lélia, o maravilhoso projeto de revitalização de zonas quase mortas décadas atrás, o Instituto Terra. Agora, tudo está pior do que antes dos esforços deles. Recuperar toda aquela região, que vai de Mariana ao mar no Espírito Santo, onde certamente haverá muita contaminação, custará não apenas somas incríveis - projeto que ele já tinha proposto ao BNDES algum tempo atrás foi aprovado, mas não houve o repasse do dinheiro -, como terá de manter aceso por décadas o interesse num país de momento tão superficial, tão desinteressado, tão focado em poder, poder, e fuga à responsabilidade, ocultamento de crimes, e salvação das próprias feias peles. Não sou otimista. Até aqui só vi, como em geral neste país, promessas de planos, projetos, eternas comissões ineficientes e mornas, pouquíssima ação concreta, também nesta crise: mesmo na busca de mortos, lenta e atrasada. Ficarão emparedados na lama que, ao secar, parece cimento. Homens, mulheres, crianças, velhos, eternamente ocultos, a não ser para os corações que por eles choram. O que está fazendo o Brasil para compensar todo esse sofrimento, cada vez menos mencionado?
Precisamos de lágrimas e vigílias pelos inocentes chacinados na França, mas de movimentos vibrantes pelo que, aqui entre nós, vem sendo lentamente assassinado, e agora foi brutalmente soterrado pelo rio de lama, de lágrimas, de pouca esperança. Vamos trabalhar, e nos manifestar, e chorar, com Sebastião Salgado.
Fonte: Lya Luft - 25 de novembro de 2015)