Questões Militares Para médico psiquiatra

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Q745228 Psiquiatria
Considerando os medicamentos carbamezepina, morfina e alprazolam, em suas prescrições, devem-se usar os seguintes receituários, respectivamente,
Alternativas
Q745227 Psiquiatria

Sobre o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma e, em seguida, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.

( ) É comum não identificar fatores relacionados no início ou na piora dos sintomas.

( ) As compulsões são ações ritualizadas que servem para aliviar o quadro de ansiedade.

( ) As obsessões são caracterizadas como pensamentos ego-distônicos recorrentes.

( ) O quadro de TOC apresenta complicações por depressão e por grave prejuízo na vida ocupacional e social do

paciente.

Alternativas
Q745226 Psiquiatria
No diagnóstico da depressão são considerados: sintomas psíquicos, fisiológicos e evidências comportamentais. Relacione as colunas e, em seguida, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. (1) Sintomas psíquicos (2) Sintomas fisiológicos (3) Sintomas comportamentais ( ) retraimento social e crises de choro. ( ) humor depressivo e sensação de tristeza, autodesvalorização e sentimentos de culpa. ( ) redução da capacidade de experimentar prazer na maior parte das atividades, antes consideradas como agradáveis. ( ) alterações do apetite, alterações do sono e redução do interesse sexual. ( ) retardo psicomotor e lentificação generalizada, ou agitação psicomotora.
Alternativas
Q745225 Psiquiatria
Sobre o quadro clínico do delirium, síndrome caracterizada pela alteração global das funções psíquicas, analise as afirmativas abaixo. I. Comprometimento do nível de consciência e atenção. II. Comprometimento generalizado do funcionamento cognitivo. III. Aumento ou redução da atividade psicomotora. IV. Comprometimento do ciclo sono-vigília. V. Transtornos emocionais. Estão corretas as afirmativas
Alternativas
Q745224 Psiquiatria
Associe os dois grupos de classificação de síndromes demenciais aos tipos de demências e, em seguida, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.   (1) Demências degenerativas (2) Demências não degenerativas ( ) priônicas. ( ) por Corpos de Lewy. ( ) fronto-temporal. ( ) vascular. ( ) hidrocefálicas. ( ) toxicometabólicas. 
Alternativas
Q745223 Psiquiatria
É necessário distinguir o quadro de delirium do quadro de demência, e diversos aspectos clínicos ajudam nesta tarefa. São aspectos clínicos que podem diagnosticar o delirium, exceto:
Alternativas
Q745222 Psiquiatria
Caracterizada por inclusões citoplasmáticas da proteína alfa-sinucleína, a qual se deposita em neurônios corticais e do tronco encefálico, a Demência por Corpos de Lewy (DCL) é a causa mais comum de demência com parkinsonismo notável. Clinicamente, a DCL manifesta-se através de uma síndrome demencial gradualmente progressiva, onde ocorrem, exceto:  
Alternativas
Q745221 Psiquiatria
A doença de Alzheimer (DA) é a síndrome demencial mais prevalente, perfazendo de 60 a 80% dentre as síndromes demenciais. Sobre a DA, informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma abaixo e, em seguida, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. ( ) Atualmente, estão disponíveis tratamentos específicos que modulam a doença produzindo a cura total. ( ) Geralmente, o primeiro sintoma da DA é a perda de memória episódica para eventos recentes. ( ) O déficit de memória evolui insidiosamente e progride lentamente ao longo do tempo, comprometendo também a memória semântica e a memória de trabalho ou operacional. ( ) Inicialmente apresenta-se com afasia motora, a qual se manifesta por anomia, circunlocuções e parafrasias; progride para afasia sensitiva, gerando dificuldades na compreensão e nas habilidades vísuo-espaciais
Alternativas
Q745220 Psiquiatria
Na doença vascular (DV) não há critérios clínicos unificados para diagnóstico, entretanto a abordagem inicial prioriza sempre a avaliação clínica. Os exames de neuroimagem revelam áreas de infarto cortical ou subcortical, bem como lesões de substância branca subcorticais, resultantes de isquemia. Considerando este fato, são critérios diagnósticos sugeridos para DV: I. Síndrome demencial clínica e neuropsicologicamente confirmada. II. Sinais neurológicos focais, como a hemiparesia, ataxia, hemianopsia ou alterações neuropsicológicas focais, como afasia e heminegligência. III. Lesão vascular evidenciada por neuroimagem. IV. Relação entre demência e doença vascular encefálica estabelecida em até 3 meses após o acidente vascular encefálico ou deterioração cognitiva abrupta com progressão em etapas. Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s)
Alternativas
Q745219 Psiquiatria
Sobre o transtorno amnésico persistente induzido pelo álcool, preencha as lacunas e, em seguida, assinale a alternativa correta. Alterações de memória, principalmente da memória recente, podem ocorrer em usuários de grande quantidade de álcool por muito tempo.As duas principais entidades clínicas são a Síndrome de _______________ e a Síndrome de ________________.
Alternativas
Q745218 Psiquiatria
As demências podem ser divididas entre cortical e subcortical. Acerca desta premissa, analise as alternativas abaixo, relacionando-as conforme esta divisão e, em seguida, assinale a sequência correta. (1) Cortical (2) Subcortical ( ) caracteriza-se por deteriorização intelectual, prejuízo cognitivo, apatia e alterações motoras. ( ) distingue-se clinicamente por apresentar com maior frequência amnésia, acalculia, afasia, apraxia e agnosia. ( ) são exemplos as doença de Alzheimer e Pick. ( ) são exemplos as doenças de Parkinson e Huntington.
Alternativas
Q745217 Psiquiatria
Em relação aos transtornos relacionados à cocaína, informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma abaixo e, em seguida, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. ( ) A overdose pode ser definida como a falência de um ou mais órgãos decorrentes do uso agudo da substância e é uma emergência clínica que requer atenção imediata. ( ) As complicações do uso de cocaína no sistema nervoso central têm como substrato, principalmente, a vasoconstricção, que causa principalmente eventos vasculares cerebrais isquêmicos. ( ) O consumo de cocaína durante a gravidez está associado a complicações, tais como: baixo peso ao nascer, abortos espontâneos e déficits cognitivos ao recém-nascido. ( ) A presença de sintomas psicóticos que ocasionalmente ocorrem na intoxicação por cocaína como delírios persecutórios e alucinações pode prevalecer durante uma semana após o uso da cocaína.
Alternativas
Q745216 Psiquiatria
Segundo o DSM-IV-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), são critérios diagnósticos para esquizofrenia, quando dois ou mais sintomas estão presentes com duração significativa, por período de pelo menos um mês, exceto:
Alternativas
Q745215 Psiquiatria
Entre os sistemas dopaminérgicos cerebrais nos quais os antipsicóticos atuam, o mesocortical e o mesolímbico são os que estão mais relacionados com a fisiopatologia da esquizofrenia. Acerca do mesolímbico, assinale a alternativa correta.
Alternativas
Q745214 Psiquiatria
De acordo com os tipos de esquizofrenia elencados na Classificação Internacional das Doenças (CID 10), assinale a alternativa incorreta.
Alternativas
Q666694 Medicina
O Código de Ética Médica, no capítulo destinado à responsabilidade profissional, elenca algumas atividades proibidas no exercício da medicina. Acerca dessas atividades, assinale a afirmativa incorreta.
Alternativas
Q666693 Medicina

De acordo com o Código de Ética Médica, analise as afirmativas abaixo.

I. É vedado ao médico revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo hipótese em que tenha sido arrolado como testemunha em processo judicial.

II. É lícita a realização de atendimento médico à distância, nos moldes da regulamentação do Conselho Federal de Medicina.

III. É defeso ao médico retirar órgão de doador vivo quando este for juridicamente incapaz, salvo se houver autorização por escrito de seu representante legal.

Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s)

Alternativas
Q666692 Medicina

No que se refere ao Código de Ética Médica, informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma abaixo e, em seguida, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.

( ) Em último caso, o médico plantonista poderá atestar óbito, quando não o tenha verificado pessoalmente ou quando não tenha prestado assistência ao paciente.

( ) É lícito ao médico, valendo-se de sua profissão, a participação de anúncios de empresas comerciais.

( ) O médico que cometer falta grave prevista no Código de Ética deverá ter exercício profissional suspenso mediante procedimento administrativo específico.

( ) O médico portador de doença incapacitante para o exercício profissional, apurada pelo Conselho Regional de Medicina em procedimento administrativo com perícia médica, terá seu registro suspenso enquanto perdurar sua incapacidade.

Alternativas
Q505594 Português
                                              Restos do carnaval

       Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Atéque viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
    No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
    E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados,pois, era essencial para mim. 
    Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma das minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice. 
    Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha eo nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira. 
    Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma. 
    Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! Não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
    Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa. 
    Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e aindasem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vidainfantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava. 
    Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se,minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
    Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa. 

                       (Lispector, Clarice. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998)

Preencha os parênteses com a letra correspondente à classe gramatical das palavras grifadas. Depois assinale a alternativa que contém a sequência correta. (Alguns números poderão não ser usados.)

“... fui correndo( ), correndo, perplexa, atônita( ), entre( ) serpentinas, confetes e( ) gritos( ) de carnaval." (9º§)

(1) Adjetivo
(2) Advérbio
(3) Preposição
(4) Substantivo
(5) Verbo
(6) Conjunção


Alternativas
Q505593 Português
                                              Restos do carnaval

       Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Atéque viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
    No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
    E as máscaras? Eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados,pois, era essencial para mim. 
    Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma das minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice. 
    Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha eo nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira. 
    Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma. 
    Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! Não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
    Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa. 
    Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e aindasem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vidainfantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava. 
    Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se,minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
    Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa. 

                       (Lispector, Clarice. Felicidade clandestina: contos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998)

A formação da expressão destacada no segmento “...eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz." (2º§) é
Alternativas
Respostas
1461: D
1462: A
1463: A
1464: A
1465: A
1466: D
1467: A
1468: C
1469: A
1470: B
1471: A
1472: A
1473: B
1474: D
1475: D
1476: B
1477: B
1478: C
1479: D
1480: B