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Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567489 Português
Quando estava entrando na adolescência, no início dos anos 90, era um hábito passar vários finais de semana na casa do meu avô, uma pessoa extremamente sistemática.

     Tinha dias que eu ficava com ele enquanto ele “catava milho”, como minha avó chamava seu hábito de ficar datilografando. Eu gostava muito de fazer companhia para ele. Lembro-me, como se fosse hoje, das histórias que me contava. Eram histórias verídicas, fatos que ele havia vivido e que ele me contava e recontava diversas vezes, como se fossem inéditas a cada vez. E eu sempre as ouvia com muita atenção e admiração, afinal, ele foi meu único referencial de pai.

      Foi o meu avô quem me ensinou a ser íntegro, respeitar os mais velhos e batalhar para ser alguém na vida. Ele sempre usava como exemplo de fracasso pessoas muito próximas, geralmente membros da nossa família, que ele tentou aconselhar, ajudar e dar um direcionamento, mas que foram teimosos e estavam colhendo os frutos ruins de sua teimosia, de não o terem ouvido.

      Agora adulto, vejo que muitas coisas no meu caráter herdei dele: sou sistemático, gosto de estudar, ler e escrever. E algo de que sempre gostei e aprendi, nas tardes e noites ao lado dele, foi a conversar com os mais velhos e a saber ouvi-los.


      Os mais velhos têm muito a contribuir com nossas vidas, independentemente da classe social e origem. Deles podemos extrair momentos preciosos de sabedoria e vivência, porém, para isso, é importante tentar compreendê-los e imaginar como as coisas seriam na época deles, ou na perspectiva deles.

 
      Eu trabalho há quase 10 anos na Previdência Social. Lá atendo, predominantemente, idosos. Pessoas que, na maioria das vezes, além de serem atendidas, querem ser ouvidas. O tempo que passei com o meu avô me auxilia no meu trabalho hoje.

 
     Atendi um senhor de cerca de 70 anos que me inspirou a escrever este texto. Tive necessidade de escrever isso porque, por incrível e estranho que pareça, senti nele o cheiro do meu avô.



(Ruy Carneiro Giraldes Neto. O cheiro do meu avô.
www.folhadelondrina.com.br, 04.03.2014. Adaptado)

Ao falar de membros da família que teriam fracassado, o avô ensinava ao neto que
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Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567488 Português
Quando estava entrando na adolescência, no início dos anos 90, era um hábito passar vários finais de semana na casa do meu avô, uma pessoa extremamente sistemática.

     Tinha dias que eu ficava com ele enquanto ele “catava milho”, como minha avó chamava seu hábito de ficar datilografando. Eu gostava muito de fazer companhia para ele. Lembro-me, como se fosse hoje, das histórias que me contava. Eram histórias verídicas, fatos que ele havia vivido e que ele me contava e recontava diversas vezes, como se fossem inéditas a cada vez. E eu sempre as ouvia com muita atenção e admiração, afinal, ele foi meu único referencial de pai.

      Foi o meu avô quem me ensinou a ser íntegro, respeitar os mais velhos e batalhar para ser alguém na vida. Ele sempre usava como exemplo de fracasso pessoas muito próximas, geralmente membros da nossa família, que ele tentou aconselhar, ajudar e dar um direcionamento, mas que foram teimosos e estavam colhendo os frutos ruins de sua teimosia, de não o terem ouvido.

      Agora adulto, vejo que muitas coisas no meu caráter herdei dele: sou sistemático, gosto de estudar, ler e escrever. E algo de que sempre gostei e aprendi, nas tardes e noites ao lado dele, foi a conversar com os mais velhos e a saber ouvi-los.


      Os mais velhos têm muito a contribuir com nossas vidas, independentemente da classe social e origem. Deles podemos extrair momentos preciosos de sabedoria e vivência, porém, para isso, é importante tentar compreendê-los e imaginar como as coisas seriam na época deles, ou na perspectiva deles.

 
      Eu trabalho há quase 10 anos na Previdência Social. Lá atendo, predominantemente, idosos. Pessoas que, na maioria das vezes, além de serem atendidas, querem ser ouvidas. O tempo que passei com o meu avô me auxilia no meu trabalho hoje.

 
     Atendi um senhor de cerca de 70 anos que me inspirou a escrever este texto. Tive necessidade de escrever isso porque, por incrível e estranho que pareça, senti nele o cheiro do meu avô.



(Ruy Carneiro Giraldes Neto. O cheiro do meu avô.
www.folhadelondrina.com.br, 04.03.2014. Adaptado)

A partir da leitura do texto, é correto afirmar que seu autor nele revela
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567487 Português
A norma-padrão de acentuação e o novo acordo ortográfico foram observados na frase:
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Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567486 Português
Assinale a alternativa em que a frase está em conformidade com a norma-padrão de emprego de adjetivos e advérbios.
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Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567485 Português
Assinale a alternativa em que a expressão é corretamente substituída pelo termo entre parênteses.
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Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567484 Português
       Em 2020, o historiador e professor Mário Sérgio de Moraes teve que interromper uma ação que já tinha virado rotina na casa onde vive com a esposa. Sempre que recebia o neto Mateus, o casal fazia, logo após o almoço, uma sessão colaborativa de contação de histórias. “Inventamos a historinha de três. Eu começava, ele continuava e depois minha mulher”, relembra Moraes.

        A pandemia, contudo, acabou cortando o hábito pela raiz. Em isolamento, a única forma que o casal tinha para conversar com o neto era através das telas do computador e celular. Porém, em pouco tempo, o avô encontrou uma forma de prosseguir o contato com Mateus por meio de histórias. “Para não perder essa relação, eu começava a história no computador, mandava para ele pelo pai e, com aquela letrinha de quarta série, o Mateus continuava e a enviava de volta para mim”, conta o avô. O projeto acabou crescendo tanto que o avô decidiu oferecê-lo a uma editora. Pouco depois saiu o volume “Tudo acaba em 10”, que, segundo o avô, vende bem melhor que seus próprios livros acadêmicos.

      A história de Moraes e Mateus está longe de ser um exemplo único de como avôs e netos vêm se relacionando no mundo contemporâneo. Em vez disso, ela ajuda a escancarar a multiplicidade de experiências e possibilidades familiares. Muitos idosos estão buscando coisas novas e sobretudo entender seu lugar no mundo.


    Hoje, há aproximadamente 1,5 bilhão de avós no mundo, segundo pesquisa da revista The Economist. Com o aumento da expectativa de vida mundial e o envelhecimento da população, dá para arriscar dizer que a importância deles será enorme ao longo do século 21. E isso considerando que seu grande impacto já vem sendo tema de estudos, que apontam que a relação avós/netos foi essencial para a evolução humana ao longo dos séculos.


(Leonardo Neiva. A relação de avós e netos hoje.
https://gamarevista.uol.com.br, 23.07.2023. Adaptado)
No trecho “Para não perder essa relação, eu começava a história no computador, mandava para ele pelo pai…” (2º parágrafo), os vocábulos destacados podem ser substituídos, correta e respectivamente, por
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567483 Português
       Em 2020, o historiador e professor Mário Sérgio de Moraes teve que interromper uma ação que já tinha virado rotina na casa onde vive com a esposa. Sempre que recebia o neto Mateus, o casal fazia, logo após o almoço, uma sessão colaborativa de contação de histórias. “Inventamos a historinha de três. Eu começava, ele continuava e depois minha mulher”, relembra Moraes.

        A pandemia, contudo, acabou cortando o hábito pela raiz. Em isolamento, a única forma que o casal tinha para conversar com o neto era através das telas do computador e celular. Porém, em pouco tempo, o avô encontrou uma forma de prosseguir o contato com Mateus por meio de histórias. “Para não perder essa relação, eu começava a história no computador, mandava para ele pelo pai e, com aquela letrinha de quarta série, o Mateus continuava e a enviava de volta para mim”, conta o avô. O projeto acabou crescendo tanto que o avô decidiu oferecê-lo a uma editora. Pouco depois saiu o volume “Tudo acaba em 10”, que, segundo o avô, vende bem melhor que seus próprios livros acadêmicos.

      A história de Moraes e Mateus está longe de ser um exemplo único de como avôs e netos vêm se relacionando no mundo contemporâneo. Em vez disso, ela ajuda a escancarar a multiplicidade de experiências e possibilidades familiares. Muitos idosos estão buscando coisas novas e sobretudo entender seu lugar no mundo.


    Hoje, há aproximadamente 1,5 bilhão de avós no mundo, segundo pesquisa da revista The Economist. Com o aumento da expectativa de vida mundial e o envelhecimento da população, dá para arriscar dizer que a importância deles será enorme ao longo do século 21. E isso considerando que seu grande impacto já vem sendo tema de estudos, que apontam que a relação avós/netos foi essencial para a evolução humana ao longo dos séculos.


(Leonardo Neiva. A relação de avós e netos hoje.
https://gamarevista.uol.com.br, 23.07.2023. Adaptado)
O vocábulo destacado foi empregado em sentido figurado, no contexto em que se encontra, no trecho:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567482 Português
       Em 2020, o historiador e professor Mário Sérgio de Moraes teve que interromper uma ação que já tinha virado rotina na casa onde vive com a esposa. Sempre que recebia o neto Mateus, o casal fazia, logo após o almoço, uma sessão colaborativa de contação de histórias. “Inventamos a historinha de três. Eu começava, ele continuava e depois minha mulher”, relembra Moraes.

        A pandemia, contudo, acabou cortando o hábito pela raiz. Em isolamento, a única forma que o casal tinha para conversar com o neto era através das telas do computador e celular. Porém, em pouco tempo, o avô encontrou uma forma de prosseguir o contato com Mateus por meio de histórias. “Para não perder essa relação, eu começava a história no computador, mandava para ele pelo pai e, com aquela letrinha de quarta série, o Mateus continuava e a enviava de volta para mim”, conta o avô. O projeto acabou crescendo tanto que o avô decidiu oferecê-lo a uma editora. Pouco depois saiu o volume “Tudo acaba em 10”, que, segundo o avô, vende bem melhor que seus próprios livros acadêmicos.

      A história de Moraes e Mateus está longe de ser um exemplo único de como avôs e netos vêm se relacionando no mundo contemporâneo. Em vez disso, ela ajuda a escancarar a multiplicidade de experiências e possibilidades familiares. Muitos idosos estão buscando coisas novas e sobretudo entender seu lugar no mundo.


    Hoje, há aproximadamente 1,5 bilhão de avós no mundo, segundo pesquisa da revista The Economist. Com o aumento da expectativa de vida mundial e o envelhecimento da população, dá para arriscar dizer que a importância deles será enorme ao longo do século 21. E isso considerando que seu grande impacto já vem sendo tema de estudos, que apontam que a relação avós/netos foi essencial para a evolução humana ao longo dos séculos.


(Leonardo Neiva. A relação de avós e netos hoje.
https://gamarevista.uol.com.br, 23.07.2023. Adaptado)
Considere os trechos:

•  … teve que interromper uma ação que já tinha virado rotina na casa onde vive com a esposa. (1º parágrafo)

•  … a relação avós/netos foi essencial para a evolução humana ao longo dos séculos… (4º parágrafo)

Os vocábulos destacados têm como sinônimo e antônimo, no contexto em que se encontram, respectivamente:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567481 Português
       Em 2020, o historiador e professor Mário Sérgio de Moraes teve que interromper uma ação que já tinha virado rotina na casa onde vive com a esposa. Sempre que recebia o neto Mateus, o casal fazia, logo após o almoço, uma sessão colaborativa de contação de histórias. “Inventamos a historinha de três. Eu começava, ele continuava e depois minha mulher”, relembra Moraes.

        A pandemia, contudo, acabou cortando o hábito pela raiz. Em isolamento, a única forma que o casal tinha para conversar com o neto era através das telas do computador e celular. Porém, em pouco tempo, o avô encontrou uma forma de prosseguir o contato com Mateus por meio de histórias. “Para não perder essa relação, eu começava a história no computador, mandava para ele pelo pai e, com aquela letrinha de quarta série, o Mateus continuava e a enviava de volta para mim”, conta o avô. O projeto acabou crescendo tanto que o avô decidiu oferecê-lo a uma editora. Pouco depois saiu o volume “Tudo acaba em 10”, que, segundo o avô, vende bem melhor que seus próprios livros acadêmicos.

      A história de Moraes e Mateus está longe de ser um exemplo único de como avôs e netos vêm se relacionando no mundo contemporâneo. Em vez disso, ela ajuda a escancarar a multiplicidade de experiências e possibilidades familiares. Muitos idosos estão buscando coisas novas e sobretudo entender seu lugar no mundo.


    Hoje, há aproximadamente 1,5 bilhão de avós no mundo, segundo pesquisa da revista The Economist. Com o aumento da expectativa de vida mundial e o envelhecimento da população, dá para arriscar dizer que a importância deles será enorme ao longo do século 21. E isso considerando que seu grande impacto já vem sendo tema de estudos, que apontam que a relação avós/netos foi essencial para a evolução humana ao longo dos séculos.


(Leonardo Neiva. A relação de avós e netos hoje.
https://gamarevista.uol.com.br, 23.07.2023. Adaptado)
O aumento do tempo médio de vida da população e o seu consequente envelhecimento são elementos que levam o autor do texto a concluir que
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567480 Português
       Em 2020, o historiador e professor Mário Sérgio de Moraes teve que interromper uma ação que já tinha virado rotina na casa onde vive com a esposa. Sempre que recebia o neto Mateus, o casal fazia, logo após o almoço, uma sessão colaborativa de contação de histórias. “Inventamos a historinha de três. Eu começava, ele continuava e depois minha mulher”, relembra Moraes.

        A pandemia, contudo, acabou cortando o hábito pela raiz. Em isolamento, a única forma que o casal tinha para conversar com o neto era através das telas do computador e celular. Porém, em pouco tempo, o avô encontrou uma forma de prosseguir o contato com Mateus por meio de histórias. “Para não perder essa relação, eu começava a história no computador, mandava para ele pelo pai e, com aquela letrinha de quarta série, o Mateus continuava e a enviava de volta para mim”, conta o avô. O projeto acabou crescendo tanto que o avô decidiu oferecê-lo a uma editora. Pouco depois saiu o volume “Tudo acaba em 10”, que, segundo o avô, vende bem melhor que seus próprios livros acadêmicos.

      A história de Moraes e Mateus está longe de ser um exemplo único de como avôs e netos vêm se relacionando no mundo contemporâneo. Em vez disso, ela ajuda a escancarar a multiplicidade de experiências e possibilidades familiares. Muitos idosos estão buscando coisas novas e sobretudo entender seu lugar no mundo.


    Hoje, há aproximadamente 1,5 bilhão de avós no mundo, segundo pesquisa da revista The Economist. Com o aumento da expectativa de vida mundial e o envelhecimento da população, dá para arriscar dizer que a importância deles será enorme ao longo do século 21. E isso considerando que seu grande impacto já vem sendo tema de estudos, que apontam que a relação avós/netos foi essencial para a evolução humana ao longo dos séculos.


(Leonardo Neiva. A relação de avós e netos hoje.
https://gamarevista.uol.com.br, 23.07.2023. Adaptado)
É correto afirmar, a partir da leitura do texto, que a dinâmica de contar histórias entre Mateus e seu avô
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Sargento |
Q2567479 Português
O hábito de certas pessoas que se põem ________ reclamar de tudo pode trazer consequências prejudiciais ________ que são assim, já que isso pode não agradar ________ quem está por perto delas e gerar uma reação similar __________ do que se lamenta sempre.

As lacunas do texto são, correta e respectivamente, completadas por:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566466 Português
    Há nessa poesia um clima de mistério. A única certeza é de que o mundo não revela o que, efetivamente, é. As grandes experiências estão na proporção direta do desvendamento do mistério. O desejo de exploração do que transcende ao imediato valoriza a intuição como faculdade capaz de permitir a sintonia com o lado obscuro das coisas. A busca desse indefinível torna a expressão indireta e nebulosa. Uma vez que a expressão direta é considerada inapta à captação da essência do ser, proliferam insinuações verbais.

    Em síntese, essa poesia caracteriza-se pela concepção mística do mundo; pelo interesse no particular e no individual, em lugar do geral; pelo escapismo em que se aliena da sociedade contemporânea; pelo conhecimento ilógico e intuitivo; pela valorização da arte pela arte; pela utilização da via associativa.


(Lígia Cademartori. Períodos literários, 1987. Adaptado.)
Uma vez que a expressão direta é considerada inapta à captação da essência do ser, proliferam insinuações verbais.” (1o parágrafo)

Em relação à oração que a sucede, a oração sublinhada expressa ideia de
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566465 Literatura
    Há nessa poesia um clima de mistério. A única certeza é de que o mundo não revela o que, efetivamente, é. As grandes experiências estão na proporção direta do desvendamento do mistério. O desejo de exploração do que transcende ao imediato valoriza a intuição como faculdade capaz de permitir a sintonia com o lado obscuro das coisas. A busca desse indefinível torna a expressão indireta e nebulosa. Uma vez que a expressão direta é considerada inapta à captação da essência do ser, proliferam insinuações verbais.

    Em síntese, essa poesia caracteriza-se pela concepção mística do mundo; pelo interesse no particular e no individual, em lugar do geral; pelo escapismo em que se aliena da sociedade contemporânea; pelo conhecimento ilógico e intuitivo; pela valorização da arte pela arte; pela utilização da via associativa.


(Lígia Cademartori. Períodos literários, 1987. Adaptado.)
O texto trata da poesia 
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566464 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
“paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho.” (3º parágrafo)

Ao se transpor esse trecho para a voz ativa, a forma verbal resultante será:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566463 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
De acordo com o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa, os dêiticos são expressões linguísticas que se referem “à situação em que o enunciado é produzido, ao momento da enunciação e aos atores do discurso”. Por exemplo, “eu” designa a pessoa que fala “eu”. Expressões como “aqui”, “agora” ou “amanhã” devem ser interpretadas em função de onde e em que momento se encontra a pessoa que fala, quando diz “aqui”, “agora” ou “amanhã”.

Verifica-se a ocorrência de dêitico que se refere ao momento da enunciação no seguinte trecho:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566462 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
“Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo.” (3o parágrafo)

Nesse trecho, o cronista relata uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566461 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
Em “E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática.” (3o parágrafo), o termo sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido do texto, por:
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566460 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
Está empregado em sentido figurado o termo sublinhado no seguinte trecho: 
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566459 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
Verifica-se a ocorrência da figura de linguagem conhecida como metonímia em: 
Alternativas
Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Aluno-Oficial |
Q2566458 Português
    Nos filmes e histórias em quadrinhos da nossa infância recebíamos uma lição da qual só agora me dou conta. Não era a que o Bem sempre vence o Mal, embora o herói sempre vencesse o bandido. Quem dava a lição era o bandido, e era esta: a morte precisa de uma certa solenidade.

    A vitória do herói sobre o bandido era banalizada pela repetição. Para o mocinho, matar era uma coisa corriqueira, uma decorrência da sua virtude. Já o bandido era torturado pela ideia da morte, pela sua própria vilania, pelo terrível poder que cada um tem de acabar com a vida de outro. O bandido era incapaz de simplesmente matar alguém, ou matar alguém simplesmente. Para ele o ato de matar precisava ser lento, trabalhado, ornamentado, erguido acima da sua inaceitável vulgaridade — enfim, tão valorizado que dava ao herói tempo de escapar e ainda salvar a mocinha. Pois a verdade é que nenhum herói teria sobrevivido à sua primeira aventura se não fosse esta compulsão do vilão de fazer da morte uma arte demorada, um processo com preâmbulo e apoteose, e significado. Nunca entendi por que o bandido não dava logo um tiro na testa do herói quando o tinha em seu poder, em vez de deixá-lo suspenso sobre o poço dos jacarés por uma corda besuntada que os ratos roeriam pouco a pouco, enquanto o gramofone1 tocava Wagner2 . Hoje sei que o vilão queria dar tempo, ao mocinho e à plateia, de refletir sobre a finitude e a perversidade humanas.

    Os vilões do meu tempo de matinês eram invariavelmente “gênios do Mal”, paródias de intelectuais e cientistas cujas maquinações eram frustradas pelo prático mocinho. A imaginação perdia para a ação porque a imaginação, como a hesitação, é a ação retardada, a ação precedida do pensamento, do pavor ou, no caso do bandido, da volúpia do significado. O Mal era inteligência demais, era a obsessão com a morte, enquanto o Bem — o que ficava com a mocinha — era o que não pensava na morte. Quando recapturava o mocinho, mesmo sabendo que ele escapara da morte tão cuidadosamente orquestrada com os ratos e os jacarés, o bandido ainda não lhe dava o rápido e definitivo tiro na testa, para ele aprender. Deixava-o amarrado sobre uma tábua que lentamente, solenemente, se aproximava de uma serra circular, da qual o herói obviamente escaparia de novo. E, se pegasse o mocinho pela terceira vez, nem assim o bandido abandonaria sua missão didática. Sucumbiria à sua outra compulsão fatal, a de falar demais. Mesmo o tiro na testa precisava de uma frase antes, uma explicação, um jogo de palavras. Geralmente era o que dava tempo para a chegada da polícia e a prisão do vilão, derrotado pela literatura.

     Pobres vilões. E nós, inconscientemente, torcíamos pelos burros.


(Luis Fernando Verissimo. O suicida e o computador, 1992.)


1 gramofone: antigo toca-discos.

Wagner: Richard Wagner, compositor alemão do século XIX.
Em seu texto, o cronista refere-se explicitamente a duas compulsões dos bandidos, a saber,
Alternativas
Respostas
1561: B
1562: D
1563: B
1564: C
1565: C
1566: C
1567: D
1568: A
1569: A
1570: D
1571: B
1572: A
1573: E
1574: E
1575: C
1576: B
1577: B
1578: C
1579: C
1580: A