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Foram encontradas 10.545 questões

Q3516853 Português
Texto 3
Perigos da dependência em jogos de apostas online
    Com o avanço da tecnologia, os jogos de apostas online tornaram-se uma forma popular de entretenimento para muitas pessoas em todo o mundo. No entanto, por trás da diversão aparente, existe um perigo real: a dependência. Para compreender melhor os riscos desse mundo de novidades, é preciso explorar os fatores danosos associados a esse vício, com foco especial nas apostas esportivas, cujos impactos já se alastram incontrolavelmente, e demandam medidas de intervenção urgente.
    Com o incontestável status de “país do futebol”, parece óbvio que as apostas que mais chamem a atenção no Brasil sejam ligadas a esse tema. É nesse contexto de paixão dos torcedores que as apostas esportivas, em especial as relacionadas ao futebol, acabam por se tornar uma das formas mais comuns desses jogos. Mas, embora haja regulamentação, o número ainda desmedido de anúncios a respeito, aliado à facilidade crescente de acesso a plataformas de apostas e à emoção de acompanhar os jogos em tempo real, podem levar à dependência em jogos de apostas online relativos a esse esporte.
    Esse mal hábito pode ter diversos riscos e consequências, que não afetam apenas o individuo viciado, mas também o seu círculo familiar, os amigos próximos e a sociedade como um todo. Por estarem naturalmente mais vulneráveis, certos grupos populacionais são mais suscetíveis à dependência em jogos de apostas. Com as facilidades do acesso constante à internet, esses grupos atualmente incluem principalmente jovens, pessoas com problemas emocionais ou financeiros, além de indivíduos com histérico de dependência em outras áreas, como álcool ou drogas.
    Embora seja um movimento contrário ao da publicidade desse gênero, é preciso que as autoridades reguladoras implementem restrições e limites rigorosos para mitigar os riscos associados ao jogo de aposta online. Essa ação inclui regras que levem em consideração a idade, limites de gastos e proibição desse tipo de publicidade veiculada em mídias abertas ou direcionada a grupos potencialmente vulneráveis.
    Reconhecer os riscos associados a compulsividade no jogo e implementar medidas de prevenção e tratamento é passo essencial para enfrentar esse desafio crescente. Mas vale lembrar que essa realidade demanda uma abordagem multifacetada, que envolve conscientização publica, regulamentação rigorosa e suporte individualizado, a fim de que, trabalhando em conjunto, se possa ter alguma chance de reduzir os danos causados pela dependência em jogos de apostas online.
[Adaptado do site: https://www.marceloparazzi.com.br/blog/perigos-dadependenciaem-jogos-de-apostas-online/]
Observe o fragmento abaixo. “Reconhecer os riscos associados à compulsividade no jogo e implementar medidas de prevenção e tratamento é passo essencial (...)”. 5°§
Quanto à concordância, a forma verbal destacada foi usada corretamente. Assinale a opção em que o vocábulo sublinhado também foi empregado de forma correta.
Alternativas
Q3516851 Português
Texto 3
Perigos da dependência em jogos de apostas online
    Com o avanço da tecnologia, os jogos de apostas online tornaram-se uma forma popular de entretenimento para muitas pessoas em todo o mundo. No entanto, por trás da diversão aparente, existe um perigo real: a dependência. Para compreender melhor os riscos desse mundo de novidades, é preciso explorar os fatores danosos associados a esse vício, com foco especial nas apostas esportivas, cujos impactos já se alastram incontrolavelmente, e demandam medidas de intervenção urgente.
    Com o incontestável status de “país do futebol”, parece óbvio que as apostas que mais chamem a atenção no Brasil sejam ligadas a esse tema. É nesse contexto de paixão dos torcedores que as apostas esportivas, em especial as relacionadas ao futebol, acabam por se tornar uma das formas mais comuns desses jogos. Mas, embora haja regulamentação, o número ainda desmedido de anúncios a respeito, aliado à facilidade crescente de acesso a plataformas de apostas e à emoção de acompanhar os jogos em tempo real, podem levar à dependência em jogos de apostas online relativos a esse esporte.
    Esse mal hábito pode ter diversos riscos e consequências, que não afetam apenas o individuo viciado, mas também o seu círculo familiar, os amigos próximos e a sociedade como um todo. Por estarem naturalmente mais vulneráveis, certos grupos populacionais são mais suscetíveis à dependência em jogos de apostas. Com as facilidades do acesso constante à internet, esses grupos atualmente incluem principalmente jovens, pessoas com problemas emocionais ou financeiros, além de indivíduos com histérico de dependência em outras áreas, como álcool ou drogas.
    Embora seja um movimento contrário ao da publicidade desse gênero, é preciso que as autoridades reguladoras implementem restrições e limites rigorosos para mitigar os riscos associados ao jogo de aposta online. Essa ação inclui regras que levem em consideração a idade, limites de gastos e proibição desse tipo de publicidade veiculada em mídias abertas ou direcionada a grupos potencialmente vulneráveis.
    Reconhecer os riscos associados a compulsividade no jogo e implementar medidas de prevenção e tratamento é passo essencial para enfrentar esse desafio crescente. Mas vale lembrar que essa realidade demanda uma abordagem multifacetada, que envolve conscientização publica, regulamentação rigorosa e suporte individualizado, a fim de que, trabalhando em conjunto, se possa ter alguma chance de reduzir os danos causados pela dependência em jogos de apostas online.
[Adaptado do site: https://www.marceloparazzi.com.br/blog/perigos-dadependenciaem-jogos-de-apostas-online/]
Observe o conjunto de termos destacados no trecho "(...) que não afetam apenas o indivíduo viciado, mas também o seu círculo familiar (...)". 3º §
Assinale a opção que o identifica corretamente.
Alternativas
Q3516846 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.






Texto 2

COM O CACHORRO AO LADO

Toda manha saia levando o cachorro a passear. Era uma boa justificativa o cachorro, para ele que, aposentado, talvez não tivesse outra. la caminhando devagar até a avenida junto ao mar, e la chegando deixava-se ficar num banco, o olhar posto nos navios fundeados ao largo. Havia sempre muitos navios. No seu tempo de prático, navios não precisavam esperar. De lancha ou rebocador, em calmaria ou em tempestade, ele cruzava a barra e, no mar aberto, se aproximava do casco tão mais alto do que sua própria embarcação, olhava para cima avaliando a distância, começava a subir pela escadinha ondeante. Havia riscos. Muitas vezes chegara na ponte de comando encharcado. Mas era o que sabia fazer, e o fazia melhor do que outros. Melhor do que outros conhecia as lajes submersas, os bancos de areia, as correntezas todas daquele porto, e nele conduzia os navios como se a água fosse vidro e ele visse o que para os demais era oculto. Os navios entravam no porto como cegos guiados por quem vê. Havia sido um belo trabalho. Agora sentava-se no banco junto ao mar, e olhava ao longe os navios. Sabia que não estavam ali à espera do prático. O trafego marítimo havia aumentado ano a ano, e aos poucos tornara-se necessário esperar por uma vaga no porto, como em qualquer estacionamento de automóveis. Mas, sentado no banco, com o cachorro deitado a seu lado, gostava de pensar que na névoa da manhã os navios esperavam por ele, esperavam a lancha ou o rebocador que o traria até junto do alto casco, quando então levantaria a cabeça avaliando a distância antes de começar a subir. Um a um, aqueles navios agora cravados na água como se na rocha, sairiam da névoa e, comandados por ele cruzariam a barra entrando no porto. Progressivamente, o horizonte ficaria despovoado. Seus devaneios chegavam só até esse ponto, só até o horizonte desimpedido. Acrescentava ainda um lamento de sirene, longo. Depois se levantava do banco. O cachorro se levantava do chão. O passeio da manha estava terminado.
COLASANTI, Marina. Hora de alimentar serpentes. São Paulo: Editora Global, 2013.





Os dois textos possuem seu eixo temático em volta do elemento “mar”, entretanto, com abordagens diferentes.
Analise as afirmativas abaixo.
I- O personagem do texto 2 gostava de contemplar o mar de forma nostálgica.
Il- A personagem do texto 1 se relaciona com o mar em busca de autoconhecimento.
Ill- O texto 1 demonstra uma involução em relação ao autoconhecimento da personagem ao longo da narrativa.
IV- O texto 2 mostra um movimento cíclico em relação à vivência cotidiana do personagem.
Assinale a opção correta. 
Alternativas
Q3516844 Português
Texto 2
COM O CACHORRO AO LADO
Toda manha saia levando o cachorro a passear. Era uma boa justificativa o cachorro, para ele que, aposentado, talvez não tivesse outra. la caminhando devagar até a avenida junto ao mar, e la chegando deixava-se ficar num banco, o olhar posto nos navios fundeados ao largo. Havia sempre muitos navios. No seu tempo de prático, navios não precisavam esperar. De lancha ou rebocador, em calmaria ou em tempestade, ele cruzava a barra e, no mar aberto, se aproximava do casco tão mais alto do que sua própria embarcação, olhava para cima avaliando a distância, começava a subir pela escadinha ondeante. Havia riscos. Muitas vezes chegara na ponte de comando encharcado. Mas era o que sabia fazer, e o fazia melhor do que outros. Melhor do que outros conhecia as lajes submersas, os bancos de areia, as correntezas todas daquele porto, e nele conduzia os navios como se a água fosse vidro e ele visse o que para os demais era oculto. Os navios entravam no porto como cegos guiados por quem vê. Havia sido um belo trabalho. Agora sentava-se no banco junto ao mar, e olhava ao longe os navios. Sabia que não estavam ali à espera do prático. O trafego marítimo havia aumentado ano a ano, e aos poucos tornara-se necessário esperar por uma vaga no porto, como em qualquer estacionamento de automóveis. Mas, sentado no banco, com o cachorro deitado a seu lado, gostava de pensar que na névoa da manhã os navios esperavam por ele, esperavam a lancha ou o rebocador que o traria até junto do alto casco, quando então levantaria a cabeça avaliando a distância antes de começar a subir. Um a um, aqueles navios agora cravados na água como se na rocha, sairiam da névoa e, comandados por ele cruzariam a barra entrando no porto. Progressivamente, o horizonte ficaria despovoado. Seus devaneios chegavam só até esse ponto, só até o horizonte desimpedido. Acrescentava ainda um lamento de sirene, longo. Depois se levantava do banco. O cachorro se levantava do chão. O passeio da manha estava terminado.
COLASANTI, Marina. Hora de alimentar serpentes. São Paulo: Editora Global, 2013.
Observe os termos destacados no fragmento: “Havia sido um belo trabalho”. Assinale a opção em que a locução verbal sublinhada está flexionada no mesmo tempo e modo que no trecho destacado acima. 
Alternativas
Q3516841 Português
Texto 2
COM O CACHORRO AO LADO
Toda manha saia levando o cachorro a passear. Era uma boa justificativa o cachorro, para ele que, aposentado, talvez não tivesse outra. la caminhando devagar até a avenida junto ao mar, e la chegando deixava-se ficar num banco, o olhar posto nos navios fundeados ao largo. Havia sempre muitos navios. No seu tempo de prático, navios não precisavam esperar. De lancha ou rebocador, em calmaria ou em tempestade, ele cruzava a barra e, no mar aberto, se aproximava do casco tão mais alto do que sua própria embarcação, olhava para cima avaliando a distância, começava a subir pela escadinha ondeante. Havia riscos. Muitas vezes chegara na ponte de comando encharcado. Mas era o que sabia fazer, e o fazia melhor do que outros. Melhor do que outros conhecia as lajes submersas, os bancos de areia, as correntezas todas daquele porto, e nele conduzia os navios como se a água fosse vidro e ele visse o que para os demais era oculto. Os navios entravam no porto como cegos guiados por quem vê. Havia sido um belo trabalho. Agora sentava-se no banco junto ao mar, e olhava ao longe os navios. Sabia que não estavam ali à espera do prático. O trafego marítimo havia aumentado ano a ano, e aos poucos tornara-se necessário esperar por uma vaga no porto, como em qualquer estacionamento de automóveis. Mas, sentado no banco, com o cachorro deitado a seu lado, gostava de pensar que na névoa da manhã os navios esperavam por ele, esperavam a lancha ou o rebocador que o traria até junto do alto casco, quando então levantaria a cabeça avaliando a distância antes de começar a subir. Um a um, aqueles navios agora cravados na água como se na rocha, sairiam da névoa e, comandados por ele cruzariam a barra entrando no porto. Progressivamente, o horizonte ficaria despovoado. Seus devaneios chegavam só até esse ponto, só até o horizonte desimpedido. Acrescentava ainda um lamento de sirene, longo. Depois se levantava do banco. O cachorro se levantava do chão. O passeio da manha estava terminado.
COLASANTI, Marina. Hora de alimentar serpentes. São Paulo: Editora Global, 2013.
Assinale a opção em que a substituição do fragmento retirado do texto pelo que esta entre parênteses apresenta INCORREÇÃO gramatical quanto à concordância.  
Alternativas
Q3516835 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.

Observe o trecho abaixo.


“O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo — espantada de pé, fertilizada.” 7°§


O sinal de pontuação denominado travessão foi usado para:  

Alternativas
Q3516832 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.

Assinale a opção em que o fragmento retirado do texto evidencia o fenômeno da intertextualidade implícita. 
Alternativas
Q3516827 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.

Observe os termos destacados nos dois fragmentos abaixo.
|- “A mulher hesita porque vai entrar.” 4°§
Il- “Esse corpo entrara no ilimitado frio (...)". 5°§
Assinale a opção em que os termos sublinhados possuem a mesma relação lexical observada nos fragmentos acima. 
Alternativas
Q3516826 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.

Assinale a opção em que o termo destacado exerce o mesmo tipo de função sintática que a do vocábulo sublinhado em:
“O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares.” 7° § 
Alternativas
Q3516822 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.

Assinale a opção que apresenta a sentença transcrita em que ha, no contexto, a correta correspondência entre o termo destacado e o referente a ele atribuído.
Alternativas
Q3516820 Português

Texto 1


ÁGUAS DO MAR


    Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.

    Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

    Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto & pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.

    São seis horas da manhã. Só um cão livre hesita na praia, um cão negro. Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. A mulher hesita porque vai entrar.

    Seu corpo se consola com sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exiguidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Ela está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização. Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar. Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.

    Vai entrando. A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas. Mas uma alegria fatal - a alegria é uma fatalidade - já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir. Pelo contrário, está muito séria. O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares. E agora ela está alerta, mesmo sem pensar, como um caçador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido.

    O caminho lento aumenta sua coragem secreta. E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda. O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo - espantada de pé, fertilizada.

    Agora o frio se transforma em frigido. Avançando, ela abre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão se endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes bons.

    E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela esta toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam, pois ela é um anteparo compacto.

    Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão, pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: esta cada vez menos sofrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica, pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

    Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas - ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas - mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avanga um pouco mais dura e áspera.

    E agora pisa na areia. Sabe que esta brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2020.

Assinale a opção em que o termo retomado pelo pronome relativo “que” foi destacado corretamente. 
Alternativas
Q3516182 Português
Assinale a alternativa em que não há a presença de predicativo do sujeito ou do objeto.
Alternativas
Q3516181 Português

Assinale a alternativa que substitui, correta e respectivamente, as conjunções ou locuções conjuntivas grifadas nos períodos abaixo.



I‐ Visto que pretende mudar‐se, preparamos um almoço de despedida. 


II‐ Terá sucesso na prova, contanto que estude. 


III‐ Casaram‐se e fizeram uma linda viagem, tudo como haviam planejado. 


IV‐ Foi transferida de setor, portanto não nos veremos com muita frequência. 

Alternativas
Q3516180 Português

Em relação ao termo sintático sujeito, marque V para verdadeiro ou F para falso. Em seguida, assinale a alternativa com a sequência correta.



( ) Em Ana levantou a menina, o sujeito Ana executa a ação expressa pela forma verbal levantou. O sujeito é, pois, o agente.


( ) Os sujeitos da 3.a pessoa não podem ter como núcleo uma palavra ou expressão substantivada, como em “O por fazer é só com Deus”. (Fernando Pessoa)


( ) Quando o verbo evoca um estado, a atitude da pessoa ou da coisa que dele participa é de neutralidade. O sujeito, no caso, não é o agente nem o paciente.


( ) Sujeito oculto é aquele que não está materialmente expresso na oração, mas pode ser identificado pela presença do sujeito em outra oração do mesmo período ou de período contíguo, como em “Guilhermina bocejou. Iria adormecer? Pôs‐se a calcular as horas.” (C. de Oliveira)

Alternativas
Q3516179 Português

Tomando por base a afirmação a seguir, de Afrânio Coutinho, a respeito da não existência de conflito entre a Literatura e a vida, assinale a alternativa que parece opor‐se ao pensamento do autor.



“Através das obras literárias tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana.”

Alternativas
Q3516177 Português
Marque a alternativa em que o uso da conjunção coordenativa assume valor particular de oposição.
Alternativas
Q3516174 Português
Assinale a alternativa em que o termo destacado não é regido pelo verbo caber.
Alternativas
Q3516173 Português
Leia o Texto “A Literatura”, de Afrânio Coutinho e responda ao que se pede.

    A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ele toma corpo e nova realidade. Passa, então a viver outra vida, autônoma, independentemente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferente dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social.
    O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades factuais. Os fatos que manipulam não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento da experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro (...).

Assinale a alternativa que sintetiza o que expressa o texto.
Alternativas
Q3516172 Português
Analise os fragmentos de Machado de Assis e assinale a alternativa cuja circunstância está classificada corretamente.  
Alternativas
Q3516171 Português
Assinale a alternativa em que não há a presença de adjetivo no grau superlativo. 
Alternativas
Respostas
521: C
522: A
523: C
524: A
525: D
526: C
527: E
528: A
529: D
530: E
531: E
532: D
533: B
534: D
535: B
536: D
537: D
538: C
539: C
540: B