Questões Militares
Comentadas sobre formação das palavras: composição, derivação, hibridismo, onomatopeia e abreviação em português
Foram encontradas 145 questões
Leia atentamente o texto abaixo e responda a questão proposta.
MEU MELHOR CONTO
Moacyr Scliar
Você me pergunta qual foi o melhor conto que escrevi. Indagação
típica de jovens jornalistas; vocês vêm aqui, com esses pequenos gravadores,
que sempre dão problema, e uma lista de perguntas - e aí querem saber qual foi
o melhor ponto que a gente fez, qual provocou maior controvérsia, essas coisas.
Mas tudo bem: não vou me furtar a responder essa questão. Dá mais trabalho
explicar por que a gente não responde do que simplesmente responder.
Meu melhor
conto... Não está em nenhum dos meus livros, em nenhuma antologia, em nenhuma
publicação. Ele está aqui, na minha memória; posso acessá-lo a qualquer
momento. Posso inclusive lembrar as circunstâncias em que o escrevi. Não
esqueci, não. Não esqueci nada. Mesmo que quisesse esquecer, não o
conseguiria.
Eu era então um
jovem escritor - faz muito tempo, portanto, que isso aconteceu. Estava
concluindo o curso de Letras e acabara de publicar meu primeiro livro, recebido
com muito entusiasmo pelos críticos. É uma revelação, diziam todos, e eu, que à
época nada tinha de modesto, concordava inteiramente: considerava-me um gênio.
Um génio contestador. Minhas histórias estavam impregnadas de indignação; eram
verdadeiros panfletos de protesto contra a injustiça social. O que me salvava
do lugar-comum era a imaginação - a imaginação sem limites que é a marca
registrada da juventude literária e que, como os cabelos, desaparecem com os
anos.
Mas eu não
era só escritor. Era militante político. Fazia parte de um minúsculo, obscuro,
mas extremado grupo de universitários. Veio o golpe de 1964, participei em
manifestações de protesto, cheguei a pensar em juntar-me à guerrilha - o que
certamente seria um-desastre, porque eu era um garoto de classe média, mimado
pelos pais, acostumado ao conforto, enfim, uma antípoda do guerrilheiro. De
qualquer modo, fui preso.
Uma tragédia.
Meus pais quase enlouqueceram. Fizeram o possível para me soltar, falaram com
Deus e todo mundo, com políticos, jornalistas e até generais. Inútil. O momento
era de linha dura, linha duríssima, e eu estava em mais de uma lista de suspeitos.
Não me soltariam de jeito nenhum.
Fui levado para um
lugar conhecido como Usina Pequena. Havia duas razões para essa denominação.
Primeiro, o centro de detenção ficava, de fato, perto de uma termelétrica. Em
segundo lugar, o método preferido para a tortura era, ali, o choque elétrico.
O chefe da Usina
Pequena era o Tenente Jaguar. Esse não era o seu verdadeiro nome, mas o apelido
era mais que o apropriado: ele tinha mesmo cara de felino, e de felino muito
feroz. Ao sorrir, mostrava os caninos enormes - e isso era suficiente para dar
calafrios nos prisioneiros.
Fiquei pouco tempo
na Usina Pequena, quinze dias. Mas foi o suficiente. Da cela que eu ocupava, um
cubículo escuro, úmido, fétido, eu ouvia os gritos dos prisioneiros sendo torturados
e entrava em pânico, perguntando-me quando chegaria a minha vez. E aí uma manhã
eles vieram me buscar e levaram-me para a chamada Sala do Gerador, o lugar das
torturas, e ali estava o Tenente Jaguar, à minha espera, fumando uma cigarrilha
e exibindo aquele sorriso sinistro. Leu meu prontuário e começou o
interrogatório. Queria saber o paradeiro de um dos meus professores, suspeito
de ser um líder importante na guerrilha.
Tão apavorado eu
estava que teria falado - se soubesse, mesmo, onde estava o homem. Mas eu não
sabia e foi o que respondi, numa voz trémula, que não sabia. Ele me olhou e
estava claramente decidindo se eu falava a verdade ou se era bom ator. Mas ali
a regra era: na dúvida, a tortura. E eu fui torturado. Choques nos genitais, o método
clássico. No quarto choque, desmaiei, e me levaram de volta para a cela.
Durante dois dias
ali fiquei, deitado no chão, encolhido, apavorado. No terceiro dia o carcereiro
entrou na sala: o Tenente queria me ver. Implorei para que não me levasse: eu
não aguento isso, vou morrer, e vocês vão se meter em confusão. Ignorando
minhas súplicas, arrastou-me pelo corredor, mas não me levou para o lugar das
torturas, e sim para a sala do Tenente. O que foi uma surpresa. Uma surpresa
que aumentou quando o homem me recebeu gentilmente, pediu que sentasse,
ofereceu-me um chá. Perguntou se eu tinha me recuperado dos choques; e aí - eu
cada vez mais atônito - pediu desculpas: eu tinha de compreender que torturar
era a função dele, e que precisava cumprir ordens.
Ficou um instante
olhando pela janela - era uma bela manhã de primavera - e depois voltou-se para
mim, anunciando que tinha um pedido a me fazer.
Àquela altura eu
não entendia mais nada. Ele tinha um pedido a me fazer? O todo-poderoso chefe
daquele lugar? O cara que podia me liquidar sem qualquer explicação tinha um
pedido? Estou às suas ordens, eu disse, numa voz sumida, e ele foi adiante. Eu
sei que você é escritor, e um escritor muito elogiado.
Está na sua
ficha - acrescentou, sorridente. - Nós aqui temos todas as informações sobre
sua vida.
Olhou-me de
novo e acrescentou:
- Tem uma
coisa que eu queria lhe mostrar.
Abriu uma gaveta
e tirou de lá um recorte de jornal. Era uma notícia sobre um concurso de
contos. Cada vez mais surpreso, li aquilo e mirei-o sem entender. Ele explicou.
Eu escrevo.
Contos, como você. Mas tenho de admitir: não tenho um décimo do seu talento.
Nova pausa, e continuou:
Quero ganhar
esse concurso literário. Melhor, preciso ganhar esse concurso literário. Não me
pergunte a razão, mas é muito importante para mim. E você vai me ajudar. Vai
escrever um conto para mim. Posso contar com você, não é?
E então aconteceu
a coisa mais surpreendente. Eu disse que não, que não escreveria merda nenhuma
para ele.
Tão logo falei,
dei-me conta do que tinha feito - e fiquei a um tempo aterrorizado e orgulhoso.
Sim, eu tinha ousado resistir. Sim, eu tinha mostrado a minha fibra de
revolucionário. Mas, e agora? E os choques?
Para meu espanto,
o homem começou a chorar. Chorava desabaladamente, como uma criança. E então me
explicou: quem tinha mandado aquele recorte fora o seu filho, um rapaz de
catorze anos que adorava o pai, e adorava as histórias que o pai escrevia
- Ele quer que
eu ganhe o concurso, o meu filho o Tenente, soluçando. E eu quero ganhar o
concurso. Para ele. É um rapaz muito doente, talvez não viva muito. Eu preciso
lhe dar essa alegria. E só você pode me ajudar.
Olhava-me, as
lágrimas escorrendo pela face.
O que podia eu
dizer? Pedi que me arranjasse uma máquina de escrever e umas folhas de papel.
Naquela tarde
mesmo escrevi o conto. Nem precisei pensar muito; simplesmente sentei e fui
escrevendo. A história brotava de dentro de mim, fluía fácil. E era um belo
conto, diferente de tudo o que eu tinha escrito até então. Não falava em
revolta, não satirizava opressores. Contava a história de um pai e de seu filho
moribundo.
Entreguei o
conto ao Tenente, que o recebeu sem dizer palavra, sem sequer me olhar. E no
dia seguinte fui solto.
Nunca fiquei
sabendo o que aconteceu depois, o resultado do concurso, nada disso. Não estava
interessado; ao contrário, queria esquecer a história toda, e inclusive o conto
que eu tinha escrito. O que foi inútil. A narrativa continuava dentro de mim,
como continua até hoje. Se eu quisesse, poderia escrevê-la de uma sentada.
Mas não o
farei. Esse conto não me pertence. É, acho, a melhor coisa que escrevi, mas não
me pertence. Pertence ao Tenente, que esses dias, aliás, vi na rua: um ancião
alquebrado, que anda apoiado numa bengala.
Ele me olhou e
sorriu. Talvez tivesse, com gratidão, lembrado aquele episódio. Ou talvez
estivesse debochando de mim. Com esses velhos torturadores, a gente nunca sabe.
(Porto Alegre, 2003.)
Conto de Moacyr Scliar
publicado no livro "Do conto à crônica".
"[ ... ] teve a missão de engaiolar ao menos um exemplar de todos os livros [ ... ]".(1°§)
Como é denominado o processo de formação de palavras que deu origem ao termo "engaiolar''?






Artes Depressão, 12/11/2019. Disponível em: https://pt-br.facebook.com/ArtesDepressao/photos/a. 196281473834625/2397975413665209/?type=3&theater
Nesse meme, há o uso da palavra “doguinho” no lugar de “cachorrinho”. Ao radical dog (“cão”, em inglês), foi acrescentado um afixo de diminutivo da língua portuguesa, dando origem a um empréstimo linguístico derivado por:
Leia o texto de Friedrich Nietzsche para responder à questão.
E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem […]. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente — e você com ela, partícula de poeira!”. — Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão […] “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?” pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos!
(Friedrich Nietzsche apud Eduardo Giannetti. O livro das citações, 2008.)
As palavras podem mudar de classe gramatical sem sofrer modificação na forma. Basta, por exemplo, antepor-se o artigo a qualquer vocábulo da língua para que ele se torne um substantivo. A este processo de enriquecimento vocabular pela mudança de classe das palavras dá-se o nome de “derivação imprópria”.
(Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.)
Observa-se um exemplo de derivação imprópria no seguinte trecho:
“E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada de longe, que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a ideia de uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio.” (Aluísio Azevedo)
As palavras em destaque no texto acima são formadas, respectivamente, pelos processos de
Após a leitura atenta do texto apresentado a seguir, responda à questão proposta.
E a indústria de alimentos na pandemia?
O editorial da edição de 10 de junho do British Medical Journal, assinado por professores da Queen Mary University of London, na Inglaterra, propõe uma reflexão tão interessante que vale provocá-la entre nós, aqui também: a pandemia de Covid-19 deveria tornar ainda mais urgente o combate à outra pandemia, a de obesidade.
O excesso de peso, por si só, já é um fator de risco importante para o agravamento da infecção pelo Sars-CoV 2, como lembram os autores. A probabilidade de uma pessoa com obesidade severa morrer de Covid-19 chega a ser 27% maior do que a de indivíduos com obesidade grau 1, isto é, com um índice de massa corporal entre 30 e 34,9 quilos por metro quadrado, de acordo com a plataforma de registros OpenSAFELY.
O editorial cita uma série de outros dados e possíveis razões para a associação entre a má evolução de certos casos de Covid-19 e a obesidade. No entanto, o que mais destaca é o ambiente obesogênico que o novo coronavírus encontrou no planeta.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, para citar dois exemplos, entre 65% e 70% da população apresentam um peso maior do que o recomendado para o bem da saúde. E, assim, os autores apontam o dedo para a indústria de alimentos que, em sua opinião, em todo o globo não parou de promover produtos ultraprocessados, com muito açúcar, uma quantidade excessiva de sódio e gorduras além da conta.
A crítica do editorial é mesmo cortante: “Fica claro que a indústria de alimentos divide a culpa não apenas pela pandemia de obesidade como pelos casos mais graves de Covid-19 e suas consequências devastadoras”, está escrito.
E os autores cobram medidas, lembrando que o confinamento exigido pela Covid-19 aparentemente piorou o estado nutricional das pessoas, em parte pela falta de acesso a alimentos frescos, em outra parte porque o pânico fez muita gente estocar itens ultraprocessados em casa, já que esses costumam ter maior vida de prateleira, inclusive na despensa.
Mas o que deixou os autores realmente desconfortáveis foram as ações de marketing de algumas marcas nesses tempos desafiadores. Todas, claro, querendo demonstrar o seu envolvimento com iniciativas de responsabilidade social, mas dando tiros que, para olhos mais atentos, decididamente saíram pela culatra. Por exemplo, quando uma indústria bem popular na Inglaterra distribuiu nada menos do que meio milhão de calóricos donuts para profissionais na linha de frente do National Health Service britânico.
A impressão é de que as indústrias de alimentos verdadeiramente preocupadas com a população, cada vez mais acometida pela obesidade, deveriam aproveitar a crise atual para botar a mão na consciência, parar de promover itens pouco saudáveis e reformular boa parte do seu portfólio. As mortes por Covid-19 dão a pista de que essa é a maior causa que elas poderiam abraçar no momento.
Fonte: Adaptado de https://abeso.org.br/e-a-industria-de-alimentos-na-pandemia. Publicado em 30 de junho de 2020. Acessado em 09 Mar 21.
GLOSSÁRIO: O termo “ambiente obesogênico” foi criado pelo professor de Bioengenharia da
Universidade da Califórnia, nos EUA, Bruce Blumberg. Segundo ele, são os Obesogênicos os
responsáveis por contribuir no ganho de peso sem que o indivíduo tenha consciência de que está
engordando.
