Leia o trecho do romance Capitães da areia, de Jorge Amado,
para responder à questão.
Pedro Bala e João Grande abalaram pela ladeira da
Praça. Barandão abriu no mundo também. Mas o Sem-Pernas
ficou encurralado na rua. Jogava picula1 com os guardas.
Estes tinham se despreocupado dos outros, pensavam que
já era alguma coisa pegar aquele coxo. Sem-Pernas corria
de um lado para outro da rua, os guardas avançavam. Ele
fez que ia escapulir por outro lado, driblou um dos guardas,
saiu pela ladeira. Mas em vez de descer e tomar pela Baixa
dos Sapateiros, se dirigiu para a praça do Palácio. Porque
Sem-Pernas sabia que se corresse na rua o pegariam com
certeza. Eram homens, de pernas maiores que as suas, e
além do mais ele era coxo, pouco podia correr. E acima de
tudo não queria que o pegassem. Lembrava-se da vez que
fora à polícia. Dos sonhos das suas noites más. Não o pegariam e enquanto corre este é o único pensamento que vai
com ele. [...] Não o levarão. Vêm em seus calcanhares, mas
não o levarão. Pensam que ele vai parar junto ao grande
elevador. Mas Sem-Pernas não para. Sobe para o pequeno
muro, volve o rosto para os guardas que ainda correm, ri
com toda a força do seu ódio, cospe na cara de um que
se aproxima estendendo os braços, se atira de costas no
espaço como se fosse um trapezista de circo.
A praça toda fica em suspenso por um momento. “Se
jogou”, diz uma mulher, e desmaia. Sem-Pernas se rebenta
na montanha como um trapezista de circo que não tivesse
alcançado o outro trapézio. O cachorro late entre as grades
do muro.
(Capitães da areia, 2008.)
1picula: brincadeira infantil também conhecida como pega-pega, pegador e
manja-pega.