“Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar
no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum
ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café
com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe
o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo,
sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai
amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes
pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e
sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O
mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por
nada, por tudo. Até que, como o sol subindo, a casa vai
acordando e há o reencontro com meus filhos sonolentos.”
Clarice Lispector. “Insônia infeliz e feliz”. In: A descoberta do mundo. Rio de
Janeiro: Rocco, 1999.
Considerando as características do trecho apresentado, podese afirmar que ele pertence a uma crônica, pois