Texto I
“Na confusão verde do fundo da machamba, Maria não viu o
capataz imediatamente. Esbracejou com aflição, tentando
libertar as pernas. O braço rodeou-lhe os ombros duramente.
O bafo quente e ácido do homem aproximou-se da sua face.
A capulana da Maria desprendeu-se durante a breve luta e a
sensação fria de água tornou-se-lhe mais vívida. Um arrepio
fê-la contrair-se.
Sentiu nas coxas nuas a carícia morna e áspera dos dedos
calosos do homem.”
Luis Bernardo Honwana. Dina, In: Nós Matamos o Cão Tinhoso!.
Texto II
“– Mas choraste. A bofetada que te dei foi só uma disciplina
para aprenderes a não fazer ciúmes. Gosto muito de ti,
Sarnau. És a minha primeira mulher. É tua a honra deste
território. Tu és a mãe de todas as mães da nossa terra. Tu és
o meu mundo, minha flor, rebuçado [bala] do meu coração.
Deixei cair duas gotas de fel bem amargas e salgadinhas. Meu
marido acariciava-me à moda dos búfalos; dizia-me coisas no
ouvido e o seu hálito fedia a álcool, enjoava-me, arrepiavame, maltratando o meu corpinho frágil. Explodi furiosa e
chorei de amargura.
– Sarnau, pareces ser uma machamba difícil. Já faz tempo que
semeio em ti e não vejo resultado. Com a outra foi tão
diferente. Bastou uma sementeira e germinou logo.
– Casámo-nos há pouco tempo, Nguila, muito pouco tempo.
– Não tenho lá muita paciência. Não estou para lavrar sem
colher.”
Paulina Chiziane. Balada de amor ao vento, p. 61-62.