Questões de Vestibular
Comentadas sobre teoria literária em literatura
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Motorista é empregado, com carga pra entregar, horário pra cumprir, não vai ficar estuprando durante o expediente. Pra mostrar que sou mulher direita, vou até o banco, pego a Picochuca. Volto com ela dormindo no meu colo, levanto a mão. Outro vem e passa direto por mim. Não demora muito e aparece uma cegonha. Esse vai parar, leva tanto carro, o que custa levar uma mulher e uma menina? Deve custar alguma coisa, porque o motorista não para. Talvez não tenha enxergado a gente. Resolvo avançar um pouco mais, meu pé direito em cima da faixa amarela. Lá vem mais um e penso que foi enviado pra mim, no para-choque escrito bem grande Rastreado por Deus. Mas esse também não para, assim como a carreta e o caminhão-tanque que vem atrás dela e passa como se eu não existisse. Fico pensando o que é que está acontecendo, a vida arrancou o coração de todas essas pessoas? Depois de alguns minutos, vem outro. Pra minha surpresa, o caminhão freia. A porta abre. Um homem me olha lá de cima. Tenho medo dele, mas parece que ele também tem medo de mim. Me observa, desconfiado, do assento coberto por bolinhas de madeira, que nem as que o Lauro usava pra relaxar no trânsito. Tô indo pra São Paulo, falo pra ele. Eu também, sobe aí, diz, e estende a mão pra me ajudar. Não sei se é a gentileza ou o banco igual ao do Lauro, mas não sinto tanto medo dele, só um pouco. Sento, me ajeito sem acordar a Picochuca, ponho o cinto de segurança. É tua filha?, pergunta. Digo que sim.
(MADALOSSO, G. Suíte Tóquio. São Paulo: Todavia, 2020. p.157-158.)
Com base nesse trecho, na leitura integral do romance e nas correlações com Niketche, de Paulina Chiziane, e A Falência, de Júlia Lopes de Almeida, assinale a alternativa correta.
A rua diferente
Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas.
Minha rua acordou mudada. Os vizinhos não se conformam. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas.
Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes, a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas formas.
(ANDRADE, C. D. Nova reunião. v.1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983. p.12.)
Com base nesse poema e nos conhecimentos sobre literatura, assinale a alternativa correta.
Mar morto, de Jorge Amado, difere do Mar morto, localizado no Oriente Médio, caracterizado por sua alta salinidade, o que impede quase toda a forma de vida naquele lago. Em contrapartida, no romance, os impedimentos existentes são de ordem social e enigmática. Nessa obra, o autor enfoca
E grita a piranha cor de palha, irritadíssima:
– Tenho dentes de navalha, e com um pulo de ida e volta resolvo a questão!...
– Exagero... – diz a arraia – eu durmo na areia de ferrão a prumo, e sempre há um descuidoso que vem se espetar.
– Pois amigas, – murmura o gimnoto, mole, carregando a bateria – não quero pensar no assunto: se eu soltar três pensamentos elétricos, bate-poço, poço em volta, até vocês duas boiarão mortas…
(Conversa a dois metros de profundidade).
ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 175.
Considerando o conto Duelo, do livro Sagarana, de João Guimarães Rosa, representado nessa epígrafe, assinale a alternativa correta.
Considerando-se os dois poemas na perspectiva do sistema literário brasileiro, depreende-se que o texto de Drummond corresponde tanto à “posteridade” quanto à visão do país como “riquíssimo tesouro”, anunciadas no soneto de Cláudio Manuel da Costa.
Os dois poemas têm uma dimensão épica, entretanto, no texto árcade, o caráter épico, embora crítico, é levado a sério, enquanto, no texto modernista, esse caráter é guiado por uma perspectiva satírica.
jogos escolares desde as nove da manhã o time amarelo enfrenta o time vermelho. no teu tempo isso era educação física, podia ser também recreio. o telefone ainda não tocou, tudo na mesma, nenhum e-mail. a gritaria pela janela da cozinha informa a vitória do time amarelo. depois a casa se enche de silêncio. e você sente pena do time vermelho, mas é só mais tarde, depois do almoço, que se compadece também do amarelo.
FREITAS, Angélica. Canções de atormentar. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. p. 59.
Sobre o poema em questão, assinale a alternativa INCORRETA:
(Chris Baldick. The Concise Oxford Dictionary of Literary Terms, 2001.)
O termo literário a que o texto se refere é o
Sobre o livro Deixe o quarto como está, de Amilcar Bettega Barbosa, considere as seguintes afirmações.
I - A maior parte dos contos está narrada em primeira pessoa, em que o narrador masculino expõe suas reações a situações que são descritas com detalhes realistas, embora surjam fatos e comentários que desorganizam o que seria considerado normal.
II - Os contos em sua maioria expõem os dilemas de um casal envolvido em episódios bizarros em que o ambiente urbano de Porto Alegre assume uma dinâmica lenta e pesada, a revelar um cotidiano pleno de torpeza e agressões sexuais.
III- O enunciado filosofante e sério dos narradores expõe situações um tanto cômicas em que disputas ferozes por fama e poder alternam com recapitulações da infância no interior do estado, em tom amargo e nostálgico.
Quais estão corretas?
O excerto abaixo é retirado de Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Considere-o, no contexto do enredo do romance.
Ponciá Vicêncio gostava de ficar sentada perto da janela olhando o nada. Às vezes, se distraía tanto que até se esquecia da janta e, quando via, o seu homem estava chegando do trabalho. Ela gastava todo o tempo com o pensar, com o recordar. Relembrava a vida passada, pensava no presente, mas não sonhava e nem inventava nada para o futuro. O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento. Em tempos outros, havia sonhado tanto! Quando mais nova, sonhara até um novo nome para si. Não gostava daquele que lhe deram. Menina, tinha o hábito de ir para a beira do rio e lá, se mirando nas águas, gritava o seu próprio nome. Ponciá Vicêncio! Ponciá Vicêncio! Sentia-se como se estivesse chamando outra pessoa. Não ouvia seu nome responder dentro de si. Inventava outros. Pandá, Malenga, Quieti; nenhum lhe pertencia também. Ela, inominada, tremendo de medo, temia a brincadeira, mas insistia. A cabeça rodava no vazio, ela vazia se sentia sem nome. Sentia-se ninguém. Tinha então vontades de choros e risos.
Assinale a alternativa correta sobre o excerto.
Considere as seguintes afirmações sobre o romance As meninas, de Lygia Fagundes Teles.
I - Lia, estudante interna no Pensionato Nossa Senhora de Fátima, lê à Madre Alix uma cena de tortura extraída do depoimento de um militante político, preso por distribuir panfletos em uma fábrica.
II - A voz narrativa em terceira pessoa articula e alterna, de maneira quase imperceptível, as falas em primeira pessoa das protagonistas Ana Clara, Lia e Lorena, que comunicam seu universo subjetivo por meio do fluxo de consciência.
III- Temas como liberdade, casamento, sexo e aborto estão ausentes na representação da experiência feminina das protagonistas, tendo em vista a moral repressora da sociedade e a censura vigente no Brasil no início dos anos 1970, época da publicação do romance.
Quais estão corretas?
Leia o soneto abaixo, de Florbela Espanca.
Fumo*
Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos...
* Fumo: fumaça, vapor.
Assinale a alternativa correta sobre “Fumo”
“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. — Continue, disse eu acordando. — Já acabei, murmurou ele. — São muito bonitos. Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.”
ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo. Ed. Penguin. 2016.
O narrador do fragmento acima pode ser caracterizado adequadamente do seguinte modo:
“Ele escondeu o objeto no oco de suas mãos. Era um objeto maravilhoso por sua própria estranheza: como um fragmento de escultura grega, encontrado no leito seco de um rio.
É uma “cápsula do tempo”, pensa Pedro, um outro universo está condensado nessa concha, e ele não estava longe de pensar que o mar noturno que lhe guardava o sono, se livrara da antiga concha, num dia em que ele havia, descuidadamente, quebrado uma de suas cápsulas.”
Por suas marcas, esse texto pode ser classificado como
“O estado para onde deslizava quando murmurava: eternidade.” / ”Aprofundava-se magicamente e alargava-se, sem propriamente um conteúdo e uma forma, mas sem dimensões também.”
Os trechos podem exemplificar a afirmação de críticos consagrados sobre uma das surpreendentes marcas estilísticas de Clarice Lispector. Essa característica se traduz como
Com base no seguinte excerto de Vidas Secas, assinale a alternativa correta.
[...]
Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
[...]
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 144ª ed. Rio de Janeiro: Record,
2020.
Selva selvaggia
As palavras espiam como animais: umas, rajadas, sensuais, que nem panteras... outras, escuras, furtivas raposas... mas as mais belas palavras estão pousadas nas frondes mais altas, como pássaros... O poema está parado em meio da clareira.
O poema caiu na armadilha! debate-se e ora subdivide-se e entrechoca-se como esferas de vidro colorido ora é uma fórmula algébrica ora, como um sexo, palpita... Que importa que importa qual seja enfim o seu verdadeiro universo? Ele em breve será inteiramente devorado pelas palavras!
QUINTANA, M. Esconderijos do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
Selva selvaggia exemplifica uma das características da poética de Mário Quintana:
Texto 3:Canção amiga
Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça,
Todas as mães se reconheçam,
E que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
Que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
E saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
Como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
Dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças.
(DRUMMOND, Carlos. In: Novos Poemas)
Sobre a linguagem do poema,
nota-se que foi empregada com o
objetivo principal de: