Leia o texto para responder à questão.
Buracos de minhoca: é possível que existam
“atalhos” no espaço-tempo?
Via de regra, é a ciência que inspira as mentes
criativas do cinema e da literatura a criarem seus
roteiros maravilhosos de ficção. Mas, na década
de 1980, ocorreu o movimento contrário. O
criador da história também era cientista, claro.
O ano era 1985 e o astrônomo Carl Sagan,
criador da aclamada série Cosmos, estava
escrevendo seu único livro de ficção científica,
Contato, que 12 anos depois viraria um filme. A
trama fala sobre possíveis contatos com
extraterrestres. Na história, Elli recebe instruções
vindas de uma civilização avançada, orientando-a na construção de uma máquina revolucionária
capaz de viajar pelo hiperespaço, através de um
buraco de minhoca. A ideia foi inspirada
diretamente por uma conversa entre Sagan e seu
colega, o físico Kip Thorne — que em 2017
levou o prêmio Nobel de Física pela detecção das
ondas gravitacionais. Sagan pediu a Thorne que
investigasse se de fato a ideia do tal “atalho no
espaço-tempo” descrito no livro estaria
cientificamente correta.
Matéria exótica
A conversa deu origem a um artigo seminal sobre
os wormholes (buracos de minhoca, em
português). Intitulado Wormholes in spacetime
and their use for interstellar travel: A tool for
teaching general relativity (“Buracos de
minhoca no espaço-tempo e seu uso para viagem
interestelar: Uma ferramenta para ensinar
relatividade geral”, em livre tradução), o trabalho
mostra todo o formalismo matemático da
Relatividade Geral de Einstein, tendo como
solução a geometria de um túnel no espaço-tempo ligando duas regiões remotas do Universo.
Thorne e seu colaborador Michael Morris
mostraram que, para a “garganta” do buraco de
minhoca permanecer aberta, ele deve ser
preenchido com matéria exótica, isto é, matéria
com massa negativa. Isso violaria inclusive
algumas condições de conservação de energia.
Sabemos desde a Lei da Gravitação Universal de
Newton que a gravidade é uma força
exclusivamente atrativa e diretamente
proporcional à massa dos corpos. Sendo assim,
matéria exótica teria, entre outras coisas, um
certo caráter “repulsivo”. Ou seja, a conclusão na
época é que pela Relatividade Geral seria
impossível obter um buraco de minhoca que
pudesse respeitar as leis da natureza. A menos
que a Relatividade Geral precise de alguma
correção. E esse é o ponto em que, desde o artigo
proposto por Carl Sagan, há uma verdadeira
corrida na astrofísica para apresentar teorias
alternativas que corrijam ou complementem a
Relatividade Geral.
A meta é encontrar uma solução para um buraco
de minhoca que seja atravessável sem que para
isso ele precise ser preenchido com matéria
exótica. Mesmo buracos de minhoca em nível
quântico. Nunca detectados, mas previstos
nessas soluções de correção da Relatividade
Geral, os buracos de minhoca, se existirem de
fato, podem ser nossa única alternativa para
viagens interestelares.
As “dobras” e “túneis” na geometria do espaço-tempo podem ser os atalhos para atingir sistemas
e estrelas muito, muito distantes. A questão
ainda permanece em aberto, e pode abrir
caminho para uma nova teoria pós-teoria da
relatividade. O futuro dirá.
Revista Galileu. Adaptado. Disponível em
<https://revistagalileu.globo.com/colunistas/qua
nticas/coluna/2024/02/buracos-de-minhoca-epossivel-que-existam-atalhos-no-espaco-
tempo.ghtml>