TEXTO II
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relacionadas a ele.
UM RIO CHAMADO TEMPO,
uma casa chamada terra (Mia Couto)
[...] Até há pouco tempo a vila tinha apenas uma
rua. Chamavam-lhe, por ironia, a rua do meio. Agora,
outros caminhos de areia solta se abriram num emaranhado. Mas a vila é ainda demasiado rural, falta-lhe a
geometria dos espaços arrumados. Lá estão os coqueiros,
os corvos, as lentas fogueiras que começam a despontar.
As casas estão em ruína, exaustas de tanto abandono.
Não são apenas casas destroçadas: é o próprio tempo
desmoronado. [...]
Dói-me a ilha como está, a cada decadência das casas, a miséria derramada pelas ruas. Mesmo a natureza
parece sofrer de mau-olhado. Os capinzais se estendem
secos, parece que empalharam o horizonte. À primeira
vista, tudo definha. No entanto, mais além, à mão de um
olhar, a vida reverbera, cheirosa como um fruto em verão: enxames de crianças atravessam os caminhos, mulheres dançam e cantam, homens falam alto, donos do
tempo.
(COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa
chamada terra. São Paulo: Companhia das Letras,
2003, p. 27-28. Fragmento).