Questões de Concurso Para coveiro - sepultador

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Q3805022 Português
Leia o texto abaixo para responder à questão.

UM LUGAR AO SOL
Érico Veríssimo 


    Entraram na casa vizinha.

    Fernanda sentia sempre uma opressão quando se via na sala da casa de D. Magnólia. Tudo ali tinha um ar tão triste, tão sombrio, tão doentio... Os móveis eram escuros. A Bíblia encadernada de couro negro em cima da mesa. (D. Magnólia era metodista.) Quadros nas paredes com legendas tiradas das Escrituras. Um cheiro de defumação. E – o mais horrível de tudo – no canto da sala, a figura daquele homem sentado, vencido, daquele homem enorme, magro, amarelo, roído pelo câncer. 

    Era Orozimbo, o marido de D. Mag. Quando lhe falava, Fernanda tinha a impressão desagradável de que estava falando com um morto.

    A luz da sala estava apagada. Entrava pelas janelas uma fraca claridade que vinha das lâmpadas da rua.

    Fernanda sentiu logo a presença de Orozimbo. Cumprimentou:

    - Boa noite, seu Zimbo!

    E a voz dele, fraca, doente, mas mesmo assim profunda, incoerentemente musical, respondeu:

    - Boa noite!

    Entraram no quarto de Lu. D. Mag acendeu a luz e retirou-se, fechando a porta. Fernanda viu a menina a chorar estendida na cama, de borco, com a cabeça mergulhada no travesseiro. Ajoelhou-se junto dela, passou-lhe a mão pelos cabelos.

    - Então, bobinha. Por que é que está chorando?

    Lu soluçava sem responder. E depois, como Fernanda insistisse muito na pergunta, explodiu:

    - Eu... eu... queria... fazer... uma fantasia... e... e... essa besta não quer....

    - Não diga assim, Lu. Ela é sua mãe.

    - Besta! Isso que ela é.

    D. Mag chorava no corredor. Por que Deus a castigava assim, dando-lhe uma filha desobediente e blasfema? Não era ela uma boa cristã? Não ia todos os domingos ao culto? Não lhe bastavam os trabalhos que passara com o marido nos primeiros tempos do casamento, quando ele andava na pândega com outras mulheres? Não chegava o que ela sofria agora que ele estava doente e vivia ali no canto, derrotado, a falar na morte, a queixar-se da vida, a atormentá-la a todo o instante? Não bastava a trabalheira que ela tinha de pedalar a Singer todo o dia para ganhar dinheiro para o sustento da casa? Para ganhar dinheiro para dar vestidos e educação àquela ingrata?

    Fernanda passava a mão pela cabeça de Lu e lhe dizia de mansinho:

    - Não vê que não é direito você ir ao baile de carnaval quando seu pai está tão doente? Não vê que sua gente é pobre e que você precisa ter muito juízo?

    Lu explodiu de novo, sentando-se na cama:

    - Eu tenho ódio dela. Tenho ódio dele. Dos dois!

    Fernanda se pôs de pé.

    - Você não sabe o que está dizendo! Ódio de seu pai, de sua mãe?

    Lu tornou a cair de borco. Sua voz saía abafada debaixo do travesseiro.

    - Ódio, ódio, ódio.

    Sim: tinha raiva dos pais. Porque eles não queriam que ela fosse feliz, que tivesse um namorado, que frequentasse os cinemas, os bailes. Que culpa tinha de ter nascido pobre? Que culpa tinha da doença do pai ou das ideias religiosas da mãe? Era moça, queria aproveitar a vida. Um dia a velhice chegava e tudo ficava perdido para sempre. Não havia moças que tinham automóveis, que cantavam no rádio, que viajavam, que dançavam, que possuíam vestidos bonitos? Então? Ela era acaso aleijada? Não. Era um monstro de feia? Também não. Por que não havia de ser feliz? Oh! Deus podia matá-la, podia castigá-la, mas ela não sufocaria por mais tempo aquela raiva.

    - Vamos – murmurou Fernanda – faça uma forcinha. Pelo menos finja. Não vê que sua mãe sofre, seu pai sofre?

    Lu resistia. Obstinava-se. Havia de fazer a fantasia, havia de ir aos bailes do Cassino, nem que para isso tivesse de fugir.

    Fernanda por fim cansou. Sentou-se na cama, passou a mão pela testa. Ela trazia um filho no ventre. Talvez uma filha. Hoje fazia parte de seu ser: amanhã poderia haver uma separação tremenda como a que ela estava vendo... Teria o mundo entre ela e a sua criaturinha. Um milhão de desentendimentos, de conflitos, de interesses em choque....

    - Então Lu, não quer ser boazinha?

    Lu ergueu-se. Tinha uns olhos verdes muito grandes.

    Era fina de corpo e suas mãos, longas e brancas.

    Fernanda contemplou-a com simpatia e pena. Lu tomou-lhe das mãos e, com olhos vermelhos de chorar, perguntou:

    - Tu achas que eu sou má? Achas? Será que nem tu, nem tu me compreendes?

    Encostou a cabeça no peito da outra e desatou de novo o choro.

    Cinco minutos depois Fernanda saiu do quarto.

    D. Mag esperava-a no meio da sala. Nos seus olhos espantados havia uma interrogação ansiosa. Apesar de estarem na penumbra, Fernanda viu a dor que os velava.

    Aproximou-se dela, bateu-lhe no ombro.

    - Não faça caso, D. Mag... Isso passa. Amanhã quando ela voltar da escola e estiver mais calma, eu passo um sermão nela. Por hoje, lhe peço: não diga mais nada. Deixe... Essas criaturinhas são assim. Quanto mais confiança se dá, mais elas incomodam...

    Enquanto falava, Fernanda ouvia, horrorizada, a respiração arquejante do doente no seu canto escuro.

    - Bom, deixe ajudar a mamãe a lavar os pratos.

    Deu boa-noite e voltou para casa.

Um lugar ao sol. Rio de Janeiro, Globo, 1978.

(Dona Mag=Dona Magnólia)     
Qual é a posição de Fernanda em relação ao conflito entre Lu e D. Magnólia? 
Alternativas
Q3805021 Português
Leia o texto abaixo para responder à questão.

UM LUGAR AO SOL
Érico Veríssimo 


    Entraram na casa vizinha.

    Fernanda sentia sempre uma opressão quando se via na sala da casa de D. Magnólia. Tudo ali tinha um ar tão triste, tão sombrio, tão doentio... Os móveis eram escuros. A Bíblia encadernada de couro negro em cima da mesa. (D. Magnólia era metodista.) Quadros nas paredes com legendas tiradas das Escrituras. Um cheiro de defumação. E – o mais horrível de tudo – no canto da sala, a figura daquele homem sentado, vencido, daquele homem enorme, magro, amarelo, roído pelo câncer. 

    Era Orozimbo, o marido de D. Mag. Quando lhe falava, Fernanda tinha a impressão desagradável de que estava falando com um morto.

    A luz da sala estava apagada. Entrava pelas janelas uma fraca claridade que vinha das lâmpadas da rua.

    Fernanda sentiu logo a presença de Orozimbo. Cumprimentou:

    - Boa noite, seu Zimbo!

    E a voz dele, fraca, doente, mas mesmo assim profunda, incoerentemente musical, respondeu:

    - Boa noite!

    Entraram no quarto de Lu. D. Mag acendeu a luz e retirou-se, fechando a porta. Fernanda viu a menina a chorar estendida na cama, de borco, com a cabeça mergulhada no travesseiro. Ajoelhou-se junto dela, passou-lhe a mão pelos cabelos.

    - Então, bobinha. Por que é que está chorando?

    Lu soluçava sem responder. E depois, como Fernanda insistisse muito na pergunta, explodiu:

    - Eu... eu... queria... fazer... uma fantasia... e... e... essa besta não quer....

    - Não diga assim, Lu. Ela é sua mãe.

    - Besta! Isso que ela é.

    D. Mag chorava no corredor. Por que Deus a castigava assim, dando-lhe uma filha desobediente e blasfema? Não era ela uma boa cristã? Não ia todos os domingos ao culto? Não lhe bastavam os trabalhos que passara com o marido nos primeiros tempos do casamento, quando ele andava na pândega com outras mulheres? Não chegava o que ela sofria agora que ele estava doente e vivia ali no canto, derrotado, a falar na morte, a queixar-se da vida, a atormentá-la a todo o instante? Não bastava a trabalheira que ela tinha de pedalar a Singer todo o dia para ganhar dinheiro para o sustento da casa? Para ganhar dinheiro para dar vestidos e educação àquela ingrata?

    Fernanda passava a mão pela cabeça de Lu e lhe dizia de mansinho:

    - Não vê que não é direito você ir ao baile de carnaval quando seu pai está tão doente? Não vê que sua gente é pobre e que você precisa ter muito juízo?

    Lu explodiu de novo, sentando-se na cama:

    - Eu tenho ódio dela. Tenho ódio dele. Dos dois!

    Fernanda se pôs de pé.

    - Você não sabe o que está dizendo! Ódio de seu pai, de sua mãe?

    Lu tornou a cair de borco. Sua voz saía abafada debaixo do travesseiro.

    - Ódio, ódio, ódio.

    Sim: tinha raiva dos pais. Porque eles não queriam que ela fosse feliz, que tivesse um namorado, que frequentasse os cinemas, os bailes. Que culpa tinha de ter nascido pobre? Que culpa tinha da doença do pai ou das ideias religiosas da mãe? Era moça, queria aproveitar a vida. Um dia a velhice chegava e tudo ficava perdido para sempre. Não havia moças que tinham automóveis, que cantavam no rádio, que viajavam, que dançavam, que possuíam vestidos bonitos? Então? Ela era acaso aleijada? Não. Era um monstro de feia? Também não. Por que não havia de ser feliz? Oh! Deus podia matá-la, podia castigá-la, mas ela não sufocaria por mais tempo aquela raiva.

    - Vamos – murmurou Fernanda – faça uma forcinha. Pelo menos finja. Não vê que sua mãe sofre, seu pai sofre?

    Lu resistia. Obstinava-se. Havia de fazer a fantasia, havia de ir aos bailes do Cassino, nem que para isso tivesse de fugir.

    Fernanda por fim cansou. Sentou-se na cama, passou a mão pela testa. Ela trazia um filho no ventre. Talvez uma filha. Hoje fazia parte de seu ser: amanhã poderia haver uma separação tremenda como a que ela estava vendo... Teria o mundo entre ela e a sua criaturinha. Um milhão de desentendimentos, de conflitos, de interesses em choque....

    - Então Lu, não quer ser boazinha?

    Lu ergueu-se. Tinha uns olhos verdes muito grandes.

    Era fina de corpo e suas mãos, longas e brancas.

    Fernanda contemplou-a com simpatia e pena. Lu tomou-lhe das mãos e, com olhos vermelhos de chorar, perguntou:

    - Tu achas que eu sou má? Achas? Será que nem tu, nem tu me compreendes?

    Encostou a cabeça no peito da outra e desatou de novo o choro.

    Cinco minutos depois Fernanda saiu do quarto.

    D. Mag esperava-a no meio da sala. Nos seus olhos espantados havia uma interrogação ansiosa. Apesar de estarem na penumbra, Fernanda viu a dor que os velava.

    Aproximou-se dela, bateu-lhe no ombro.

    - Não faça caso, D. Mag... Isso passa. Amanhã quando ela voltar da escola e estiver mais calma, eu passo um sermão nela. Por hoje, lhe peço: não diga mais nada. Deixe... Essas criaturinhas são assim. Quanto mais confiança se dá, mais elas incomodam...

    Enquanto falava, Fernanda ouvia, horrorizada, a respiração arquejante do doente no seu canto escuro.

    - Bom, deixe ajudar a mamãe a lavar os pratos.

    Deu boa-noite e voltou para casa.

Um lugar ao sol. Rio de Janeiro, Globo, 1978.

(Dona Mag=Dona Magnólia)     
Como D. Magnólia reage à rebeldia da filha Lu?  
Alternativas
Q3805020 Português
Leia o texto abaixo para responder à questão.

UM LUGAR AO SOL
Érico Veríssimo 


    Entraram na casa vizinha.

    Fernanda sentia sempre uma opressão quando se via na sala da casa de D. Magnólia. Tudo ali tinha um ar tão triste, tão sombrio, tão doentio... Os móveis eram escuros. A Bíblia encadernada de couro negro em cima da mesa. (D. Magnólia era metodista.) Quadros nas paredes com legendas tiradas das Escrituras. Um cheiro de defumação. E – o mais horrível de tudo – no canto da sala, a figura daquele homem sentado, vencido, daquele homem enorme, magro, amarelo, roído pelo câncer. 

    Era Orozimbo, o marido de D. Mag. Quando lhe falava, Fernanda tinha a impressão desagradável de que estava falando com um morto.

    A luz da sala estava apagada. Entrava pelas janelas uma fraca claridade que vinha das lâmpadas da rua.

    Fernanda sentiu logo a presença de Orozimbo. Cumprimentou:

    - Boa noite, seu Zimbo!

    E a voz dele, fraca, doente, mas mesmo assim profunda, incoerentemente musical, respondeu:

    - Boa noite!

    Entraram no quarto de Lu. D. Mag acendeu a luz e retirou-se, fechando a porta. Fernanda viu a menina a chorar estendida na cama, de borco, com a cabeça mergulhada no travesseiro. Ajoelhou-se junto dela, passou-lhe a mão pelos cabelos.

    - Então, bobinha. Por que é que está chorando?

    Lu soluçava sem responder. E depois, como Fernanda insistisse muito na pergunta, explodiu:

    - Eu... eu... queria... fazer... uma fantasia... e... e... essa besta não quer....

    - Não diga assim, Lu. Ela é sua mãe.

    - Besta! Isso que ela é.

    D. Mag chorava no corredor. Por que Deus a castigava assim, dando-lhe uma filha desobediente e blasfema? Não era ela uma boa cristã? Não ia todos os domingos ao culto? Não lhe bastavam os trabalhos que passara com o marido nos primeiros tempos do casamento, quando ele andava na pândega com outras mulheres? Não chegava o que ela sofria agora que ele estava doente e vivia ali no canto, derrotado, a falar na morte, a queixar-se da vida, a atormentá-la a todo o instante? Não bastava a trabalheira que ela tinha de pedalar a Singer todo o dia para ganhar dinheiro para o sustento da casa? Para ganhar dinheiro para dar vestidos e educação àquela ingrata?

    Fernanda passava a mão pela cabeça de Lu e lhe dizia de mansinho:

    - Não vê que não é direito você ir ao baile de carnaval quando seu pai está tão doente? Não vê que sua gente é pobre e que você precisa ter muito juízo?

    Lu explodiu de novo, sentando-se na cama:

    - Eu tenho ódio dela. Tenho ódio dele. Dos dois!

    Fernanda se pôs de pé.

    - Você não sabe o que está dizendo! Ódio de seu pai, de sua mãe?

    Lu tornou a cair de borco. Sua voz saía abafada debaixo do travesseiro.

    - Ódio, ódio, ódio.

    Sim: tinha raiva dos pais. Porque eles não queriam que ela fosse feliz, que tivesse um namorado, que frequentasse os cinemas, os bailes. Que culpa tinha de ter nascido pobre? Que culpa tinha da doença do pai ou das ideias religiosas da mãe? Era moça, queria aproveitar a vida. Um dia a velhice chegava e tudo ficava perdido para sempre. Não havia moças que tinham automóveis, que cantavam no rádio, que viajavam, que dançavam, que possuíam vestidos bonitos? Então? Ela era acaso aleijada? Não. Era um monstro de feia? Também não. Por que não havia de ser feliz? Oh! Deus podia matá-la, podia castigá-la, mas ela não sufocaria por mais tempo aquela raiva.

    - Vamos – murmurou Fernanda – faça uma forcinha. Pelo menos finja. Não vê que sua mãe sofre, seu pai sofre?

    Lu resistia. Obstinava-se. Havia de fazer a fantasia, havia de ir aos bailes do Cassino, nem que para isso tivesse de fugir.

    Fernanda por fim cansou. Sentou-se na cama, passou a mão pela testa. Ela trazia um filho no ventre. Talvez uma filha. Hoje fazia parte de seu ser: amanhã poderia haver uma separação tremenda como a que ela estava vendo... Teria o mundo entre ela e a sua criaturinha. Um milhão de desentendimentos, de conflitos, de interesses em choque....

    - Então Lu, não quer ser boazinha?

    Lu ergueu-se. Tinha uns olhos verdes muito grandes.

    Era fina de corpo e suas mãos, longas e brancas.

    Fernanda contemplou-a com simpatia e pena. Lu tomou-lhe das mãos e, com olhos vermelhos de chorar, perguntou:

    - Tu achas que eu sou má? Achas? Será que nem tu, nem tu me compreendes?

    Encostou a cabeça no peito da outra e desatou de novo o choro.

    Cinco minutos depois Fernanda saiu do quarto.

    D. Mag esperava-a no meio da sala. Nos seus olhos espantados havia uma interrogação ansiosa. Apesar de estarem na penumbra, Fernanda viu a dor que os velava.

    Aproximou-se dela, bateu-lhe no ombro.

    - Não faça caso, D. Mag... Isso passa. Amanhã quando ela voltar da escola e estiver mais calma, eu passo um sermão nela. Por hoje, lhe peço: não diga mais nada. Deixe... Essas criaturinhas são assim. Quanto mais confiança se dá, mais elas incomodam...

    Enquanto falava, Fernanda ouvia, horrorizada, a respiração arquejante do doente no seu canto escuro.

    - Bom, deixe ajudar a mamãe a lavar os pratos.

    Deu boa-noite e voltou para casa.

Um lugar ao sol. Rio de Janeiro, Globo, 1978.

(Dona Mag=Dona Magnólia)     
Por que Lu está chorando na cama?  
Alternativas
Q3805019 Português
Leia o texto abaixo para responder à questão.

UM LUGAR AO SOL
Érico Veríssimo 


    Entraram na casa vizinha.

    Fernanda sentia sempre uma opressão quando se via na sala da casa de D. Magnólia. Tudo ali tinha um ar tão triste, tão sombrio, tão doentio... Os móveis eram escuros. A Bíblia encadernada de couro negro em cima da mesa. (D. Magnólia era metodista.) Quadros nas paredes com legendas tiradas das Escrituras. Um cheiro de defumação. E – o mais horrível de tudo – no canto da sala, a figura daquele homem sentado, vencido, daquele homem enorme, magro, amarelo, roído pelo câncer. 

    Era Orozimbo, o marido de D. Mag. Quando lhe falava, Fernanda tinha a impressão desagradável de que estava falando com um morto.

    A luz da sala estava apagada. Entrava pelas janelas uma fraca claridade que vinha das lâmpadas da rua.

    Fernanda sentiu logo a presença de Orozimbo. Cumprimentou:

    - Boa noite, seu Zimbo!

    E a voz dele, fraca, doente, mas mesmo assim profunda, incoerentemente musical, respondeu:

    - Boa noite!

    Entraram no quarto de Lu. D. Mag acendeu a luz e retirou-se, fechando a porta. Fernanda viu a menina a chorar estendida na cama, de borco, com a cabeça mergulhada no travesseiro. Ajoelhou-se junto dela, passou-lhe a mão pelos cabelos.

    - Então, bobinha. Por que é que está chorando?

    Lu soluçava sem responder. E depois, como Fernanda insistisse muito na pergunta, explodiu:

    - Eu... eu... queria... fazer... uma fantasia... e... e... essa besta não quer....

    - Não diga assim, Lu. Ela é sua mãe.

    - Besta! Isso que ela é.

    D. Mag chorava no corredor. Por que Deus a castigava assim, dando-lhe uma filha desobediente e blasfema? Não era ela uma boa cristã? Não ia todos os domingos ao culto? Não lhe bastavam os trabalhos que passara com o marido nos primeiros tempos do casamento, quando ele andava na pândega com outras mulheres? Não chegava o que ela sofria agora que ele estava doente e vivia ali no canto, derrotado, a falar na morte, a queixar-se da vida, a atormentá-la a todo o instante? Não bastava a trabalheira que ela tinha de pedalar a Singer todo o dia para ganhar dinheiro para o sustento da casa? Para ganhar dinheiro para dar vestidos e educação àquela ingrata?

    Fernanda passava a mão pela cabeça de Lu e lhe dizia de mansinho:

    - Não vê que não é direito você ir ao baile de carnaval quando seu pai está tão doente? Não vê que sua gente é pobre e que você precisa ter muito juízo?

    Lu explodiu de novo, sentando-se na cama:

    - Eu tenho ódio dela. Tenho ódio dele. Dos dois!

    Fernanda se pôs de pé.

    - Você não sabe o que está dizendo! Ódio de seu pai, de sua mãe?

    Lu tornou a cair de borco. Sua voz saía abafada debaixo do travesseiro.

    - Ódio, ódio, ódio.

    Sim: tinha raiva dos pais. Porque eles não queriam que ela fosse feliz, que tivesse um namorado, que frequentasse os cinemas, os bailes. Que culpa tinha de ter nascido pobre? Que culpa tinha da doença do pai ou das ideias religiosas da mãe? Era moça, queria aproveitar a vida. Um dia a velhice chegava e tudo ficava perdido para sempre. Não havia moças que tinham automóveis, que cantavam no rádio, que viajavam, que dançavam, que possuíam vestidos bonitos? Então? Ela era acaso aleijada? Não. Era um monstro de feia? Também não. Por que não havia de ser feliz? Oh! Deus podia matá-la, podia castigá-la, mas ela não sufocaria por mais tempo aquela raiva.

    - Vamos – murmurou Fernanda – faça uma forcinha. Pelo menos finja. Não vê que sua mãe sofre, seu pai sofre?

    Lu resistia. Obstinava-se. Havia de fazer a fantasia, havia de ir aos bailes do Cassino, nem que para isso tivesse de fugir.

    Fernanda por fim cansou. Sentou-se na cama, passou a mão pela testa. Ela trazia um filho no ventre. Talvez uma filha. Hoje fazia parte de seu ser: amanhã poderia haver uma separação tremenda como a que ela estava vendo... Teria o mundo entre ela e a sua criaturinha. Um milhão de desentendimentos, de conflitos, de interesses em choque....

    - Então Lu, não quer ser boazinha?

    Lu ergueu-se. Tinha uns olhos verdes muito grandes.

    Era fina de corpo e suas mãos, longas e brancas.

    Fernanda contemplou-a com simpatia e pena. Lu tomou-lhe das mãos e, com olhos vermelhos de chorar, perguntou:

    - Tu achas que eu sou má? Achas? Será que nem tu, nem tu me compreendes?

    Encostou a cabeça no peito da outra e desatou de novo o choro.

    Cinco minutos depois Fernanda saiu do quarto.

    D. Mag esperava-a no meio da sala. Nos seus olhos espantados havia uma interrogação ansiosa. Apesar de estarem na penumbra, Fernanda viu a dor que os velava.

    Aproximou-se dela, bateu-lhe no ombro.

    - Não faça caso, D. Mag... Isso passa. Amanhã quando ela voltar da escola e estiver mais calma, eu passo um sermão nela. Por hoje, lhe peço: não diga mais nada. Deixe... Essas criaturinhas são assim. Quanto mais confiança se dá, mais elas incomodam...

    Enquanto falava, Fernanda ouvia, horrorizada, a respiração arquejante do doente no seu canto escuro.

    - Bom, deixe ajudar a mamãe a lavar os pratos.

    Deu boa-noite e voltou para casa.

Um lugar ao sol. Rio de Janeiro, Globo, 1978.

(Dona Mag=Dona Magnólia)     
Qual é a principal razão da opressão sentida por Fernanda ao estar na casa de D. Magnólia?  
Alternativas
Q3758532 Economia
A crise financeira internacional de 2008, originada nos Estados Unidos, repercutiu em economias emergentes, inclusive no Brasil. Considerando seus efeitos, qual proposição reflete de forma mais consistente esse impacto?
Alternativas
Q3758531 Saúde Pública
A pandemia de COVID-19 evidenciou fragilidades estruturais no Brasil, mas também reafirmou a centralidade do Sistema Único de Saúde (SUS) como política pública universal. Considerando seu papel na crise sanitária, qual proposição expressa de forma mais consistente seus limites e potencialidades?
Alternativas
Q3758530 Atualidades
A política externa brasileira no século XXI, embora marcada por oscilações governamentais, preserva eixos de continuidade vinculados à inserção regional e multilateral. Considerando essa dinâmica, qual proposição traduz com maior precisão esse reposicionamento internacional?
Alternativas
Q3758529 Direito do Trabalho
A difusão da inteligência artificial, da automação e das plataformas digitais redefine vínculos laborais em economias marcadas pela informalidade, como o Brasil. Considerando os dilemas jurídicos e sociais envolvidos, qual proposição traduz de modo mais consistente esse desafio?
Alternativas
Q3758528 Geografia
O relevo do Cariri paraibano, onde se insere o município de Monteiro, caracteriza-se por planaltos e depressões intermontanas sob clima semiárido, o que condiciona fortemente práticas produtivas e estratégias de sobrevivência. Nesse contexto, qual proposição traduz com maior precisão essa interação geografiaeconomia?
Alternativas
Q3758527 História
A “política dos governadores”, vigente na Primeira República, expressou um pacto entre elites estaduais e o poder central, garantindo a continuidade do sistema oligárquico. Qual proposição reflete com maior precisão esse mecanismo? 
Alternativas
Q3758526 Direito Administrativo
A Lei nº 8.112/1990 consolidou o regime jurídico dos servidores civis da União, autarquias e fundações federais, em sintonia com os princípios constitucionais de 1988. Considerando seus fundamentos normativos e funcionais, qual proposição expressa de forma mais acurada sua concepção administrativa?
Alternativas
Q3758525 Economia
No âmbito da economia contemporânea, marcada pela globalização e pela interdependência entre mercados, os blocos econômicos assumem papel central na redefinição das soberanias nacionais e no ordenamento do comércio internacional. Considerando o papel desempenhado pelo Mercosul na inserção regional do Brasil, qual proposição expressa de modo mais adequado seus objetivos e desafios?
Alternativas
Q3758524 História
A história da colonização do Brasil revela a centralidade dos ciclos econômicos na estruturação do território e da sociedade. O ciclo do açúcar, em particular, consolidou o modelo de plantation, estabelecendo vínculos duradouros entre metrópole e colônia. Considerando esse contexto, qual proposição traduz com maior rigor suas implicações históricas?
Alternativas
Q3758523 Matemática
Em um projeto de modelagem geométrica, o quadrilátero ABCD é um paralelogramo. O ponto E é o ponto médio do lado AD. Seja F o ponto de interseção entre as retas EB e AC. Determine a razão entre a área do quadrilátero CDEF e a área do triângulo CFB
Alternativas
Q3758522 Matemática
Em um laboratório de tecnologia, um pesquisador analisa um código numérico representado pelo número 42, e decide calcular o produto de todos os seus divisores inteiros positivos, obtendo assim um novo valor N. Com base nesse processo, determine qual é o algarismo das unidades de N
Alternativas
Q3758521 Matemática
Durante um projeto de design geométrico, uma equipe de engenheiros desenvolveu uma peça modular em forma de pipa, construída pela junção de dois triângulos retângulos congruentes cujos catetos medem 1cm e √3cm, unidos ao longo da hipotenusa comum. O protótipo final da estrutura foi formado pela união de oito cópias idênticas dessa peça, dispostas simetricamente de modo a gerar uma figura composta, conforme o modelo ilustrado abaixo.

Imagem associada para resolução da questão

Qual a área do triângulo ABC destacado? 
Alternativas
Q3758520 Matemática
Em problemas de contagem, uma das operações mais importantes é o fatorial, representado por n!. O fatorial de um número natural n é definido como o produto de todos os números naturais positivos menores ou iguais a n, ou seja:

n! = n × (n − 1) × (n − 2) × ⋯ × 3 × 2 × 1

Por exemplo, 5! = 5 × 4 × 3 × 2 × 1 = 120.

Qual o menor valor de n, para que n! seja múltiplo de 100?
Alternativas
Q3758519 Matemática
Durante um projeto de automação em uma indústria têxtil, dois motores elétricos, denominados Motor A e Motor B, foram ajustados para operar em frequências distintas, porém harmonicamente relacionadas. O engenheiro responsável observou que, ao dividir a rotação do Motor A por 4 e a do Motor B por 6, obtinham-se valores exatamente iguais, o que indicava uma proporção equilibrada entre seus desempenhos. Buscando otimizar o sincronismo das máquinas, ele calculou o mínimo múltiplo comum (m.m.c.) entre as rotações de ambos os motores e também o máximo divisor comum (m.d.c.). Após realizar os cálculos necessários, verificou que o produto entre esses dois valores era 1536.

Com base nessas informações, determine qual é a diferença entre as rotações de operação, ou seja, o valor de (a – b), sendo a e b as rotações dos motores A e B, respectivamente.
Alternativas
Q3758518 Matemática
Três técnicos — André, Beatriz e Cláudio — receberam juntos R$ 4.800,00 pelo conserto de três equipamentos industriais. O pagamento deveria ser feito de forma diretamente proporcional ao tempo (em horas) que cada um trabalhou e inversamente proporcional à quantidade de falhas corrigidas por eles, conforme o quadro a seguir:

Imagem associada para resolução da questão

Qual foi o valor recebido por Beatriz?
Alternativas
Q3758517 Matemática
Em um laboratório de física, um pesquisador utiliza um cilindro graduado para armazenar um fluido que será transferido para 12 tubos de ensaio também de formato cilíndrico. O cilindro possui 18 cm de diâmetro e 24 cm de altura, enquanto cada tubo de ensaio tem 6 cm de diâmetro e 12 cm de altura. O pesquisador deseja colocar no cilindro apenas o volume necessário para encher todos os tubos até a borda, sem sobrar líquido.

Qual fração da altura total do cilindro deverá ser preenchida com o fluido?
Alternativas
Respostas
521: B
522: D
523: B
524: A
525: A
526: C
527: B
528: D
529: E
530: D
531: A
532: B
533: B
534: B
535: D
536: B
537: E
538: B
539: C
540: C