“O Espelho”
Jacobina encontrava-se, naquela noite, em profunda
reflexão. Estava sentado ao lado da lareira, observando
o brilho elusivo do fogo que lançava sombras oscilantes
nas paredes. De súbito, levantou-se e dirigiu-se ao
espelho pendurado sobre o aparador, imóvel como um
guardião das formas que ocultavam sua alma.
À luz bruxuleante, seu rosto revelou linhas
inexoráveis: uma testa franzida em curiosidade e um
olhar que oscilava entre a dúvida e a certeza. A alma
externa — aquela moldada pelos olhares alheios —
reluzia tanto quanto a chama refletida no vidro.
Entretanto, a alma interna, a mais profunda,
permanecia inacessível, como um lago escondido sob
o espelho.
Recordou-se do dia em que foi nomeado alferes da
Guarda Nacional. Sentira-se elevado, prestigiado,
admirado por familiares e conhecidos. Recebera
elogios, saudações e olhares reverentes. Nesse
instante, percebeu que era somente a projeção desse
reconhecimento que preenchia seu ser, enquanto a
essência humana permanecia em silêncio ao fundo.
Quando sua tia trouxe-lhe um espelho de grande
porte, herdado de gerações, sentiu o peso e o desejo
refletidos nos olhos alheios. Já não era apenas
Jacobina, mas a figura que se acomodava ao reflexo da
vaidade coletiva. Nesse jogo entre o interior e o exterior,
sua identidade começava a se desvanecer.
Meses se passaram, e Jacobina percebeu o
distanciamento de si mesmo. Olhava no espelho e não
reconhecia o homem que o encobria; tornara-se sombra
de um prestígio social momentâneo, sem vínculos com
o seu eu original.
A alma externa, outrora radiosa, desvanecia-se
como a chama que se apaga sem aviso. Jacobina viu,
naquela imagem esmaecida, a consequência amarga
do abandono de seu centro humano. O que se revelava
ali era um vazio que nem o prestígio podia preencher.
Em desalento, vestiu novamente a farda de alferes
— tentativa de reintegrar a alma exterior — e ficou
perante o espelho, imóvel. A farda restituíra
temporariamente a aparência de poder, mas não
resgatara a alma interna que permanecia ausente,
como uma presença invisível.
Então, compreendeu que a imagem exterior jamais
poderia ser mais que um espelho: refletia os anseios e
os valores alheios, mas jamais revelava o âmago. Ao se
afastar do vidro, Jacobina deixou não apenas a farda e
o reflexo, mas a ilusão de si, iniciando uma caminhada
rumo ao reencontro de sua essência oculta.
Machado de Assis. Fonte: ASSIS, M. de. O Espelho. In:
Papéis Avulsos. Rio de Janeiro: Garnier, 1882. Publicado
originalmente em Gazeta de Noticias, 8 set. 1882. (Adaptado)