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Q4415897 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Os parênteses, no parágrafo (5), foram usados para:
Alternativas
Q4415896 Não definido
ÁGUA PARA O ALÉM


A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
"Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas (...)". O conectivo "Se" dá sentido de:
Alternativas
Q4415895 Não definido
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A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
Não identifica o sujeito da oração:
Alternativas
Q4415894 Não definido
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A devoção às vítimas do incêndio que destruiu o edifício Joelma

Visitantes do Cemitério São Pedro costumam regar os túmulos na esperança de "refrescar" os mortos.

    (1) Indio arrancou uma pitanga do pé, revirou a fruta na boca, cuspiu o caroço e indicou com o nariz uma fileira de sepulturas. "Aquelas almas ali estão vivas", afirmou sem nenhuma hesitação. "Elas são muito legais." O moreno atarracado referia-se às "Treze Almas do Joelma". Assim ficaram conhecidos os ocupantes de treze túmulos que se perfilam num dos maiores cemitérios paulistanos, o São Pedro. Bombeiros descobriram os corpos dentro de um elevador no edifício Joelma, em 1º de fevereiro de 1974. Na manhã daquele dia, um incêndio varreu o prédio comercial de 25 andares, matou 191 pessoas e horrorizou o país. À época, não se identificaram dezenas de cadáveres, incluindo os do elevador, tamanha a desfiguração imposta pelas labaredas. "Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz", enuncia uma placa de bronze afixada perto dos jazigos. Logo, porém, os mortos ganharam celebridade no anonimato. A crendice popular lhes associou os atributos de benditos, iluminados, sabidos, milagreiros. Legais, enfim.

     (2) Naquele 2 de novembro, Dia de Finados, o movimento em torno dos sepulcros se mostrava intenso. O calor, idem. Mas os copos, garrafas e galões cheios que circulavam por lá não se destinavam à hidratação dos vivos. "Dá uma vontade de jogar água em cima, sabe?", explicou Francisca Confessor de Lima, após regar túmulo por túmulo. "Refrescar as almas" que arderam no edifício é gesto habitual entre os que as cultuam. Enquanto molhava as lápides, a sexagenária que se proclamava católica - rogava pelo "de sempre": emprego e saúde para a família. "As Treze Almas nunca me faltaram", garantiu, fervorosa.

     (3) Nas imediações das velas, o umbandista Raphael Vinicius de Almeida um rapaz de 16 anos - vestia-se completamente de branco e usava dois acessórios comuns às religiões afro-brasileiras: o filá, espécie de gorro, e o alaká, pano que se pendura num dos ombros e cruza o tronco. O adolescente havia colocado um filão de pão francês em cada tumba, junto de copos plásticos com água até a borda.

      (4) Em tamanho natural, um Cristo de gesso protege a saída da área onde se encontram as treze sepulturas. Vândalos investiram contra a estátua em várias ocasiões. Na última, arrancaram-lhe as mãos, depois recolocadas. A Nossa Senhora presente no altar da igrejinha tampouco escapou da selvageria. É a sexta ou sétima imagem desde a inauguração da capela (os funcionários já perderam as contas dos ataques). Não raro, por receio de assalto, há quem prefira nem entrar na parte reservada aos túmulos quando vai orar pelos mortos. "Paro diante das grades e rezo dentro do carro mesmo, olhando para todos os lados", contou Patrícia Carla dos Santos, numa segunda-feira. "Venho de tarde e procuro ir embora antes das cinco e meia, porque depois fica muito perigoso."

     (5) Consagrada pelo catolicismo às almas do purgatório, a segunda-feira é o dia em que o cemitério mais recebe visitas - excetuando-se, claro, o feriado de Finados. Uma média de 350 pessoas passa por ali semanalmente, de acordo com a prefeitura. A segunda-feira é também o único dia útil em que Francisco Edmilson da Silva, o "Sem-Terra", deixa a capela aberta. O jardineiro, que ganhou o apelido após morar com a mulher numa ocupação em Mato Grosso, encarrega-se de manter em ordem as lápides das Treze Almas. Retira os copos d'água deixados sobre os jazigos ("para evitar focos de dengue") e joga fora as embalagens de leite longa vida ("para não juntar rato nem barata").

    (6) Muitos dos que morreram durante o incêndio trabalhavam no banco Crefisul, hoje extinto, que alugara boa parte do Joelma. Foi no 12° andar que uma faísca no arcondicionado deflagrou o fogo. Entre nove e quase onze da manhã, homens e mulheres em trajes de escritório se amontoaram no topo do prédio à espera de socorro. Alguns, não suportando o calor e a fumaça, se atiraram antes de a ajuda chegar. Captado ao vivo pela tevê, o desespero de tantos profissionais diplomados acabou contribuindo para disseminar a crença de que as Treze Almas são sabidas e auxiliam os estudiosos. Aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo, ainda mantêm a tradição de colocar placas de agradecimento ao redor dos túmulos. Segundo os frequentadores do cemitério, já houve muitas mais. Se antes os agraciados encomendavam uma trezena de placas para não ficar em dívida com nenhum dos espíritos, agora se restringem a uma só. A crise econômica não poupou nem mesmo as promessas.

    (7) Pendurado nas grades, um paninho branco exibia uma frase bordada que também expressava devoção: "Ana agradece as 13 almas bendita por graça recebida." Surpreendentemente, a autora da mensagem-Ana Guedes, de 71 anos- materializou-se em meio às campas. Ela foi rezar pela nora, que amargava dificuldades financeiras. "Acredita que, num teste de emprego, pediram para a coitada vender um palito de fósforo usado?", indignava-se. Em 2012, Guedes amarrou a toalhinha no gradil com o intuito de celebrar uma dádiva concedida à mesma nora. "Você está inteiro, hein?", falou para o pano um tanto encardido. Depois, alisando-o, reiterou: "É das almas. Aqui deixei, aqui vai ficar."


(Piauí, fevereiro, 137, Namir, Mônica) 
O título "Água para o além" deve-se:
Alternativas
Q4415893 Não definido
Recursos eletrônicos consistem de dados, programas, ou combinações de dados e programas. No AACR2 esse tipo de material é tratado em qual capítulo?
Alternativas
Q4415892 Não definido

Julgue as afirmativas seguintes sobre indexação:



I- A análise conceitual implica decidir do que trata um documento, considerando o público a que se destina.


II- É recomendável fazer a indexação pelo título de um documento, pois são fontes confiáveis para a extração do assunto.


III- Optar por um termo padronizado, com remissivas de sinônimos é uma forma de controlar vocabulários.



Está(ão) correta(s) as afirmativas:

Alternativas
Q4415891 Não definido
A atividade que leva à decisão sobre a aquisição de documentos por compra, permuta ou doação é a seleção. Para obter informações de publicações, o bibliotecário recorre a instrumentos auxiliares. Qual das alternativas a seguir não é um instrumento auxiliar de seleção?
Alternativas
Q4415890 Não definido
Um dos objetivos dos catálogos é encontrar documentos com informações de interesse do usuário. Para que esse objetivo seja alcançado, remissivas são utilizadas relacionando as várias formas que o autor se apresenta. Desse modo o usuário do catálogo é direcionado para a forma do nome do autor adotado pela biblioteca, essa descrição refere-se a(ao):
Alternativas
Q4415889 Não definido
A principal finalidade do formato MARC é possibilitar o intercâmbio de dados, para isso são utilizados campos (TAGs) que indicam conteúdos. Qual dos campos seguintes é usado para representar a nota de detalhes do sistema, campo especial para arquivos de computador?
Alternativas
Q4415888 Não definido
De acordo com o AACR2 (Código de Catalogação Anglo-Americano), que área pode ser extraída de qualquer fonte para a descrição de um CD-ROM?
Alternativas
Q4415887 Não definido
Qual a razão de um mesmo assunto poder ter diferentes números na tabela CDU?
Alternativas
Q4415886 Não definido
Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação estão relacionadas entre si, entretanto, há aspectos peculiares que as caracterizam. Nesse contexto, marque a alternativa com a definição correta:
Alternativas
Q4415885 Não definido
O ciclo da informação inclui atividades relacionadas ao processo produtivo da biblioteca, da geração e da disseminação da informação. Marque a alternativa que caracteriza esse processo.
Alternativas
Q4415884 Não definido
Marque a alternativa que define uma das características da ciência da informação.
Alternativas
Q4415883 Não definido
Marque a alternativa correta segundo a norma ABNT 6023/2002:
Alternativas
Q4415882 Não definido
Marque a alternativa que complementa a seguinte afirmativa: Para o processo de informatização de bibliotecas não somente o software a ser instalado é necessário.
Alternativas
Q4415881 Não definido
O estudo de usuário tem um valor imensurável para melhoria dos serviços e produtos de uma biblioteca. Marque a alternativa que expressa uma das bases desse estudo.
Alternativas
Q4415880 Não definido
O resumo de um trabalho acadêmico ou científico deve expressar de forma clara e objetiva o seu conteúdo e dependendo de sua natureza é adotado um formato. Nesse contexto marque a alternativa que indica a extensão do resumo.
Alternativas
Q4415879 Não definido
Assinale a alternativa que esteja de acordo com os procedimentos que devem ser utilizados para a implantação de um sistema para automação de bibliotecas.
Alternativas
Q4415878 Não definido
O que é ciclo hidrológico?
Alternativas
Respostas
521: A
522: A
523: B
524: C
525: C
526: D
527: A
528: D
529: A
530: C
531: B
532: D
533: B
534: A
535: B
536: B
537: C
538: B
539: B
540: D