Leia o texto e responda o que se pede no comando da questão.
O papel higiênico da empregada
Quando eu era criança, criancinha mesmo, achava quе
todo mundo era do bem. Até que comecei a crescer e descobri
que nem tanto assim. Lembro que, ainda menina, foi um choque
quando descobri que as pessoas mentiam, engavam, eram
agressivas. Não estou falando de bandidos da tevê, e sim de
garotas da minha aula, vizinhos, gente conhecida. Eu ficava
confusa. Fulana era generosa com as amigas e, ao mesmo
tempo, estúpida com a própria mãe. Beltrana ia à missa todo
domingo e nos outros dias remexia na mochila dos colegas para
roubar material escolar. Sicrana era minha amigona na quarta-feira e na quinta me virava o rosto, por nada. Eu chegava em
casa, pedia explicações pra família e recebia como resposta:
bem-vinda ao planeta Terra.
Eu queria o impossível: olhar para uma pessoa e saber o
que poderia esperar dela. Seria do bem? Do mal? Viria a me
decepcionar? Todas as pessoas decepcionam uma vez a outra,
todas cometem erros, mas eu queria encontrar alguma espécie
de comportamento-padrão que me desse uma pista segura
sobre com quem eu estava lidando. Até que, certo dia, fui à casa
de uma colega para estudar. De repente, precisei ir ao banheiro.
Só havia um no apartamento, e ocupado. Eu estava apertada.
Apertadissima. Minha amiga sugeriu que eu usasse o banheiro
da empregada, topei na hora. E lá descobri que o papel higiênico
da empregada era diferente do papel usado pelos outros
membros da família. Era mais áspero. Parecia uma lixa. Muito
mais barato.
Era um costume, e talvez seja até hoje: comprar um tipo
de papel higiênico para a família e outro, de pior qualidade, para
o banheiro de serviço. Eis ali a pista que eu inocentemente
buscava para descobrir a indole das pessoas.
Hoje, adulta, sei que descobrir a índole de alguém é um
processo muito mais complexo, mas ainda me surpreendo que
algumas pessoas façam certas diferenciações. O
relacionamento entre empregados e patrões ainda é uma
maneira de perceber como certos preconceitos seguem bem
firmes. Não é por economia que se compra papel higiênico mais
barato para a empregada, por mais que seja este o argumento
usado por quem o faz. É para segmentar as castas. É para
manter a hierarquia. É pela manutenção do poder.
As pessoas querem tanto acabar com as injustiças
sociais, e às vezes não conseguem mudar pequenas regras
dentro da sua própria casa. Cada um de nós tem um potencial
revolucionário que pode se manifestar por meio de pequenos
gestos. Comprar o mesmo papel higiênico para todos, quem diria, também é uma maneira de lutar por um mundo melhor.
(MEDEIROS, Martha. O meu melhor. São Paulo: Planeta do Brail, 2019. p. 157/158.)