TEXTO III
Minha vida
Agora tem um ano que mudamos para a nossa casa no
Paraíso. Ela não está pronta ainda. Falta emboçar as paredes de
fora e pintar as de dentro, mas, orgulhoso, meu pai fala que pelo
menos não precisamos mais ter medo de ficar sem dinheiro no fim
do mês para pagar o aluguel.
Nosso bairro ainda não tem luz. A água tiramos de uma
cisterna de vinte metros de fundura, com uma bomba Marumby.
Todos nós revezamos para garantir o banho e para minha mãe
cozinhar e lavar roupa para fora. Hoje são dez trouxas, mas já
foram umas quinze por semana.
Eu sinto falta da Vila Teresa. Quando no ano passado o
caminhão encostou para levar a mudança, corri para o
quintalzinho, onde vivia em camaradagem com lesmas, grilos,
paquinhas, minhocas e até um sapo-boi, na estação das águas, e
abri o berreiro. Ali passei os melhores anos da minha vida,
brincando de bola no campinho, de pique, indo à escola…
Está sendo difícil adaptar aqui, porque antes a gente vivia
num cortiço, mas com água encanada e luz elétrica, e a rua,
calçada de paralelepípedo, era perto do Centro. Atravessávamos
a ponte nova e já estávamos na praça Rui Barbosa, onde meu
irmão e minha irmã rodavam no sábado à noite. Lá estão os dois
cinemas da cidade, a padaria mais bonita, a maior lanchonete, os
bancos e, para tristeza do meu pai, coitado, o melhor ponto para
vender pipoca.
Mas na Vila Teresa também havia inconvenientes. O correio
de casas, muito perto do rio Pomba, ficava coberto pelas águas
quando vinha a enchente. Aminha irmã detesta o Paraíso, porque
é longe e feio. Na hora de trabalhar, ela tem que ir a pé até o
Beira-Rio para pegar um ônibus. Ela acorda antes do sol e desce
a morraria xingando e lamentando o dia em que nasceu. Ela
reclama da poeirama, na estiagem, e do barro, na época das chuvas. E vive ameaçando que um dia casa com alguém só para
ir embora. Aí minha mãe fica brava, porque ela fala que quis sair
da Vila Teresa para dar uma vida mais digna para os filhos, mas
principalmente para minha irmã, onde já se viu criar uma menina
no meio de marginais e mulheres-da-vida? Meu irmão entra na
discussão e acusa minha irmã de ser metida, que ela tem um rei
na barriga e que, em vez de louvar a família, cospe no prato que
come. E meu pai, que não gosta de confusão, começa a assobiar,
a cantar, sai de fininho, e só volta quando colocaram uma pedra
sobre o assunto.
Adaptado de Ruffato, Luiz. Minha vida. In: Acidade dorme: contos. 1a ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2018. (p. 11-4)